Pandemia

Cães e gatos não contraem nem transmitem coronavírus, alertam pesquisadores

Os pesquisadores produziram um documento, endossado por mais de 60 cientistas, que reforça que cães e gatos não contraem nem transmitem a doença a humanos

Pixabay/yan1515
Pixabay/yan1515

Um documento elaborado por 13 pesquisadores e endossado por mais de 60 cientistas reforça: cachorros e gatos não contraem nem transmitem o coronavírus que está adoecendo humanos em todo o mundo.

Os pesquisadores pertencem ao Laboratório de Etologia Canina (Leca) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesf) e são de diversas áreas, como biologia, medicina veterinária e zoonoses. O documento foi divulgado na plataforma Research Gate e elaborado pelos especialistas elaborado a partir do conhecimento pré-existente sobre zoonoses e de uma revisão de estudos sobre a relação entre a Covid e os animais domésticos, considerando as metologias aplicadas.

O grupo concluiu que a literatura científica é insuficiente para indicar que cães e gatos podem se contaminar com o coronavírus e, menos ainda, que poderiam transmitir a doença para humanos. A conclusão dos pesquisadores é a mesma da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, desde o início da pandemia, tem alertado que não existem indícios que apontem a capacidade desses animais contraírem e transmitirem o vírus. As informações são do jornal Correio Braziliense.

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Apesar de cerca de cinco animais domésticos e um tigre terem testado positivo para o coronavírus no mundo – número baixíssimo quando se leva em consideração o tamanho da população mundial de animais domésticos -, a presença do micro-organismo não indica doença, conforme explicou a bióloga Natalia de Souza Albuquerque, doutora em comportamento animal e pós-doutoranda do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

“Foi detectado o vírus nesses animais, mas não se fala, ainda, do desenvolvimento da Covid-19. Uma coisa é encontrar o vírus, que não necessariamente está ativo ou infectante. Outra coisa é desenvolver a doença”, explicou.

A veterinária Aline Santana da Hora lembrou que, “possivelmente, esse resultado é reflexo da contaminação ambiental que uma residência com uma pessoa com Covid-19 pode ter”. A profissional é pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e doutora em epidemiologia experimental aplicada a zoonoses. Ela lembrou que animais domésticos contraem coronavírus, mas um tipo diferente daquele que está adoecendo e matando seres humanos.

“A maioria das infecções é assintomática. Além disso, os coronavírus que são próprios de animais domésticos não causam doença em humanos”, explicou.

Estudo sob análise de especialistas

Um estudo realizado em abril pela Academia de Ciência Agrícola da China afirmou que existia a possibilidade de gatos contraírem o coronavírus. A conclusão dos pesquisadores chineses, no entanto, foi refutada por especialistas brasileiros, que mostraram falhas no estudo que indicam que seu resultado não é de confiança. Permanece, portanto, a informação de que gatos, e também cães, não contraem a doença – tampouco transmitem a humanos.

Pesquisadores do Leca explicam que o maior problema do estudo é a metodologia usada. Os pesquisadores colocaram uma alta dosagem de Sars-CoV-2, popularmente chamado de coronavírus, no nariz de cinco gatos explorados para o estudo. Esses animais foram colocados ao lado de uma gaiola com outros três gatos saudáveis. Os animais do primeiro grupo e um dos animais do segundo testaram positivo para Covid-19. O experimento foi refeito e apresentou resultado semelhante. No caso dos cães, encontrou-se baixa suscetibilidade à infecção e transmissão.

beabel2005/pixabay

Os especialistas brasileiros alertam, no entanto, que houve uma falha grave no estudo: ele não foi submetido à revisão pelos pares, procedimento no qual especialistas da área avaliam o estudo para que, só depois dessa fase, ele possa ser publicado.

Após o resultado da pesquisa chinesa repercutir nas redes sociais e sites de notícias, a veterinária Aline Santana da Hora apontou as falhas do estudo em um documento produzido por ela e por Paulo Eduardo Brandão, do Laboratório de Zoonoses Virais da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.

“Não foram apresentados dados laboratoriais que comprovassem a saúde geral dos gatos utilizados no experimento, assim como o status desses gatos para as principais viroses felinas que poderiam contribuir para um quadro de imunossupressão e consequente interferência nos resultados da inoculação experimental”, apontam.

Os especialistas lembram ainda que os exames (RT-PCR e histologia) realizados nos gatos explorados nos testes chineses são insuficientes para determinar o contágio pelo vírus.

“Cabe ressaltar que nenhum dos animais apresentou sinal clínico após a inoculação experimental. Nem ao menos foi identificada lesão tecidual ou material genético de Sars-CoV-2 em pulmões, fato que é bastante intrigante, já que Sars-CoV-2 causa lesões graves em tecido pulmonar de humanos”, explicaram.

“A velocidade da pandemia vem pressionando a ciência por respostas rápidas, o que aumenta o risco de serem apresentados estudos com base em pequenas amostras, sem o rigor metodológico necessário e, consequentemente, com resultados inconclusivos e de baixa confiabilidade”, lamentou Carine Savalli, professora-associada do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do Leca. “A ciência tem seu tempo para propor e testar hipóteses, refletir sobre os resultados, propor mais estudos, replicá-los em diferentes contextos, e somente com um grande volume de informações acumuladas e evidências muito claras é que se consegue chegar a conclusões mais seguras, que podem continuamente serem confrontadas e atualizadas”, completou.

A pesquisadora lembrou que “uma ciência acelerada pode descuidar de controles importantes e sugerir conclusões imprecisas ou equivocadas, que no mundo de hoje, tão conectado, pode causar um impacto rápido e muito negativo nas pessoas”.

O aumento do crime de abandono

Com a chegada da pandemia, casos de abandono de animais têm aumentado. Uns são jogados nas ruas por conta da crise financeira vivenciada por seus tutores. Outros são submetidos a esse ato cruel após seus responsáveis acreditaram em fake news, abandonando os animais por crer que eles podem contrair e transmitir o vírus.

Não bastasse os equívocos do senso comum, que frequentemente propaga a informação errada sobre o caso, perpetuando a ideia falsa de que animais podem transmitir o vírus aos tutores, o estudo chinês piorou esse cenário.

Isso porque, no último parágrafo do artigo consta a seguinte informação, que gerou polêmica e controvérsia no meio científico: “A vigilância de Sars-CoV-2 em gatos deve ser considerada como um complemento para a eliminação Covid-19 em humanos”. Uma simples frase fez o abandono e a matança de gatos aumentar em várias partes do mundo, conforme observado por ONGs de proteção animal.

Diante disso, fica a lição de que a ciência precisa agir de maneira responsável, para não condenar animais ao sofrimento – isso inclui não divulgar informações sem confiabilidade, como fizeram os pesquisadores chineses, e não explorar animais em estudos, adoecendo-os e muitas vezes matando-os.

Abandonar animais é crime. Independentemente da motivação do abandono, o infrator pode ser punido com detenção de até um ano, além de multa. A orientação das autoridades é de que testemunhas registrem informações sobre o abandono – relatos, fotos, vídeos, placa do carro dirigido pelo infrator, entre outras – e façam a denúncia à polícia.

Durante a pandemia, os animais devem ser vistos como boas companhias, capazes de ajudar o ser humano a enfrentar a solidão do isolamento social, não como objetos descartáveis que devem ser jogados na rua. Em meio à crise gerada pelo coronavírus, espera-se o exercício da compaixão através da adoção de animais e da retirada daqueles que estão nas ruas (ou ao menos do auxílio a eles, por meio do fornecimento de alimento e água), e não o aumento de uma prática desumana e covarde, que é o abandono.


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