REPORTAGEM ESPECIAL

Entenda as causas e as consequências dos incêndios na Austrália

O prejuízo para a fauna e flora são inestimáveis. Estudos afirmam que mais de 1 bilhão de animais foram mortos

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Daniel Zuflucht | Pixabay

Desde setembro de 2019 a Austrália vive um dos seus cenários mais catastróficos. A costa Leste do país está sendo tomada por incêndios violentos que estão reduzindo gigantescas áreas a cinzas. Até agora, cerca de 30 pessoas morreram, incluindo três bombeiros voluntários. Cerca de 4,8 milhões de hectares, uma região que corresponde a mais que todo o estado do Rio de Janeiro, foi dizimada pelas chamas.

O prejuízo para a fauna e flora são inestimáveis. Estudos afirmam que mais de 1 bilhão de animais foram mortos. Algumas espécies podem estar completamente extintas ou em risco de vulnerabilidade máxima, impossibilitadas de se recuperar devido à baixa de indivíduos e à destruição completa de seu habitat. A palavra “Armagedom”, que biblicamente significa a batalha de Deus contra à iniquidade, tem sido usada para descrever o cenário de devastação.

Os estados mais afetados pelas chamas são os mais populosos da Austrália: Nova Gales do Sul, que concentra 70% de focos de incêndio do país, e Victória, mundialmente conhecido pela grande extensão de áreas verdes e biodiversidade da flora. Ambos declararam estado de emergência. Victória recentemente apresentou o pior índice de qualidade do ar do mundo. A saúde pública foi considerada em estado crítico.

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A cidade de Sydney, em Nova Gales do Sul, teve o céu completamente tomado por nuvens de fumaça que se tornaram avermelhadas pelo reflexo das chamas. Grandes regiões turísticas foram evacuadas. O governo australiano enviou reforços militares e pediu ajuda aos Estados Unidos e ao Canadá, que informou que enviará 30 bombeiros experientes para ajudar no combate aos incêndios.

Desinformação

Reprodução | Twitter

Muitas comparações têm sido feitas com os incêndios na Amazônia. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, usou sua conta no Twitter para promover desinformação e gerar dúvida: “Sibéria queimou 3 vezes mais que a Amazônia. Na Austrália, quase 6 vezes mais. Mas certas ONG’s e alguns jornalistas só se importam em falar mal de seu próprio país e, claro, sempre contra o Governo. Seletividade absoluta”, diz a postagem que gerou confusão ao não esclarecer que os incêndios na Amazônia têm origem criminosa.

Biólogo Matheus Croco | Divulgação

Mas afinal, qual a causa dos incêndios que atingem a Austrália desde setembro? Em uma entrevista à ANDA, o biólogo e ativista vegano Matheus Croco explica que há fatores naturais que precisam ser levados em consideração. “Diferentemente da floresta Amazônica, o bioma da Austrália se assemelha muito com o nosso cerrado, onde este fogo pode acontecer de forma natural, principalmente por raios, onde inclusive grande parte da vegetação é também adaptada ao fogo, assim como ocorre no cerrado brasileiro. Ou seja, não seriam incomuns estes incêndios, porém temos um grande agravante a ser considerado, as mudanças climáticas que são resultadas da ação do homem”, afirma.

Incêndios na Austrália são comuns entre novembro e dezembro, fim da primavera e início do verão, mas em 2019, devido a uma combinação de condições, eles vieram mais cedo e com mais intensidade. “Então uma combinação de recordes de temperaturas altas, uma longa seca e fortes ventos criaram o cenário perfeito para esta desastrosa catástrofe. Para se ter ideia, no último dia 4 a cidade de Penrith teve seu dia mais quente atingindo quase 48,8 C. E este calor extremo ainda veio em seguida da primavera mais seca do país”, diz Matheus.

Pete Linforth | Pixabay

Segundo o Prof Dr. Pedro Leite Dias, especialista em Ciências Atmosféricas, presidente do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas e da Comissão USP de Mudanças Globais, o caso da Austrália simboliza um momento de reflexão sobre a crise climática. “A causa desses incêndios na Austrália agora no final de 2019 são associadas a uma tremenda anomalia na temperatura da água do mar no oceano Índico e isso foi o maior evento, pelo menos nos últimos 20 anos. Houve um outro episódio parecido com esse, mas menos intenso, em 2009 e teve outro também em 2015, mas os dois foram menos intensos. Esse de 2009 também provocou incêndios substanciais. O problema desses extremos é que nós estamos entrando em uma fase do clima terrestre em que os extremos estão ficando mais frequentes”, aponta.

E completa: “Uma causa que não pode ser de forma alguma descartada é a questão do aquecimento global. Então, o que pode ser feito? Nestes últimos dois, três anos nós tivemos uma série de problemas nessa questão de governança global com relação à mudança climática, começando pela saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Vários outros governos, inclusive o próprio governo australiano, que também adota uma posição pífia em relação à questão do aquecimento global. A minha impressão é que nós estamos em uma fase difícil de negociações internacionais”, analisa.

Dr. Pedro acredita que a tragédia australiana pode servir como um alerta aos líderes mundiais. “Eu sou um otimista. Eu acho que o fato desses extremos gerarem tanto impacto em vários países faz com que os políticos reavaliem as suas posições. Então, eu creio que tanto no caso da Austrália, quanto dos EUA, inclusive o caso do Brasil, nestes próximos anos vai haver uma mudança de posicionamento. Eu não acredito que seja possível obter avanços nos compromissos de emissão de gases do efeito estufa até o final desta década”, diz.

Pete Linforth | Pixabay

Para a bióloga, ativista e professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Dra. Paula Brügger, a conexão entre os incêndios na Austrália e na Amazônia é complexa e precisa ser analisada a fundo. “A resposta a essa pergunta [se existe relação entre os dois incêndios] é “sim” e “não”. Sim porque, de uma forma ou de outra, houve influência antrópica em ambas. E não porque os fatores desencadeadores de tais incêndios são bastante distintos. Enquanto os ecossistemas amazônicos são formados essencialmente por florestas densas, úmidas, na Austrália grande parte do país é coberto por uma vegetação que evoluiu adaptada ao fogo (como, de forma semelhante, ocorre no Cerrado brasileiro). Assim, embora esteja sob investigação a possibilidade de focos de incêndios na Austrália terem sido criminosos, naquele país os incêndios fazem parte da sua história natural, sendo geralmente provocados por raios”, verifica.

E acrescenta: “Já na Amazônia o recente episódio que chocou o mundo teve origem sabidamente criminosa, associada ao desmatamento, ao execrável “Dia do Fogo”. No caso australiano a dimensão dos incêndios se tornou devastadora porque o país já vinha enfrentando um período de seca longo e severo (aqui no sul do Brasil também estamos experimentando uma estiagem fora do comum!). Isso, somado às altas temperaturas globais e outros fenômenos decorrentes das mudanças climáticas, teve como resultado essa catástrofe que já está sendo classificada como uma das piores de toda a história australiana”, afirma.

Profa. Dra. Paula Brügger | Divulgação

Matheus enriquece a discussão reforçando que apesar dos fatores naturais, é preciso considerar que também há responsabilidade humana envolvida. “O relatório da CSIRO (Conselho Consultivo da Ciência e da Indústria, em tradução literal) e do Australian Bureau of Meteorology sobre o clima de 2018, que foi publicado em 2019, afirma que houve ‘aumento a longo prazo do clima extremo de incêndio, e na duração da estação de incêndio, em grandes partes da Austrália’. E que a mudança climática, incluindo temperaturas crescentes estão contribuindo para essas mudanças. Ou seja, a ação do homem, subentenda também as grandes corporações, na destruição ambiental está diretamente ligada ao aparecimentos destes ‘extremos’, sejam as inundações em cidades italianas quanto os incêndios na Austrália”, assevera.

Matheus salienta também que os incêndios trazem graves consequências ao futuro da fauna e flora do país. “Inúmeras espécies podem ser extintas devido a esta tragédia, até agora, o fogo já consumiu cerca de 5,8 milhões de hectares de flora e fauna. Muitos ecologistas já temem que estes incêndios possam representar o começo do fim para a flora e fauna nativas do país, pois é real a possibilidade da não recuperação populacional de várias espécies”, acentua.

O biólogo explica ainda que além de morrerem queimados, os animais sofrem com a falta de abrigo e alimento. “Afinal, os incêndios florestais não apenas matam os animais queimados, mas também de fome, pois pássaros perdem suas árvores reprodutoras, frutos e invertebrados dos quais eles se alimentam (uma morte silenciosa que não vemos nas mídias). Mamíferos que conseguirem sobreviver vão ficar em um local aberto e descampado, sem qualquer lugar para se esconderem, se tornando presas fáceis”, explica.

Tragédia anunciada?

A Austrália é conhecida por realizar queimadas controladas para evitar incêndios de grandes proporções. Como isto é feito? Queima-se áreas consideradas vulneráveis, com vegetações mais inflamáveis, de forma supervisionada. O uso controlado do fogo evita o risco de incêndios e reduz o tamanho de áreas atingidas pelo fogo. Há também a falta de consenso entre políticas ambientais frente à crise climática, o país é criticado por sobrepor questões econômicas à estratégias sustentáveis.

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Matheus acredita que houve negligência frente a previsões sobre desastres ambientais. “Prevenções são sempre possíveis, mas devido à velocidade que estas mudanças estão acontecendo e principalmente ao crescimento do negacionismo estão comprometendo o entendimento de se adotar posturas preventivas. Por exemplo, há 13 anos cientistas já haviam alertado sobre o risco do aumento dos incêndios, e continuam alertando”, afirma.

Ele reforça ainda que a Organização das Nações Unidas já vinha alertando sobre o tema. “Em 2007, o quarto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, o corpo de cientistas que a própria ONU destacou para buscar consensos sobre o tema, já era categórico sobre o impacto do aquecimento global sobre o fogo. ‘Existe virtualmente certeza de que ondas de calor e incêndios vão aumentar em intensidade e frequência’, conclui o capítulo sobre a Oceania do relatório de avaliação que o painel em 2007”, diz.

O biólogo ressalta que a mudança deste cenário só será possível com mudanças de hábitos e a adoção de um estilo de vida mais consciente e menos consumista. “Não nego a gigantesca importância da conscientização sobre rever os nossos hábitos mais simples, como o que colocamos no prato, para que possamos suavizar o estrago já feito pela ação do homem na natureza e até tentar revertê-lo, mas também não esqueço que o questionamento do sistema em que vivemos, e que fornece os meios para tal degradação, deve ser feito em conjunto. Pois ‘culpar somente o individuo’ pode afrouxar a responsabilidade que as grandes indústrias e empresas têm neste trágico cenário”, sustenta.

Para a Doutora Paula Brugger, a tragédia na Austrália pode ser considerada uma tragédia anunciada por dois motivos: “A susceptibilidade natural histórica de diversos ecossistemas australianos ao fogo; e os alertas que vêm sendo feitos de forma contundente há mais de duas décadas acerca do efeito magnificador decorrente das mudanças climáticas nesses contextos. Em outras palavras, já havia previsão de que os incêndios seriam mais frequentes e mais dramáticos em termos de intensidade naquele país. Vários fatores contribuem para isso, incluindo o aquecimento dos oceanos Indico e Antártico, alterações no balanço hídrico global, etc”, diz.

Ela afirma ainda que há um outro fator que precisa ser levado em consideração: “Há, porém, uma terceira questão que pertence ao universo político (e cultural). Vemos hoje nos jornais e televisão críticas ao primeiro ministro Scott Morrison que apóia abertamente a mineração de carvão, muito provavelmente pressionado pelo poderoso lobby daquele setor produtivo. Entretanto, embora a mineração seja um importante carro-chefe da economia australiana, que exerce um impacto negativo de monta na estabilidade climática, há outra, menos evidente, que se refere a outro processo produtivo: a pecuária“, alerta.

Pecuária: o inimigo número um

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Apesar da Austrália apresentar baixa no consumo de carne nos últimos anos, o país ainda é um dos principais exportadores de carne do mundo. Abastecendo países como Turquia, Israel, Egito e até mesmo para o Brasil. Matheus evidencia que também é possível fazer a conexão entre os incêndios na Austrália e a pecuária. “Sabemos que a indústria animal é um dos maiores responsáveis pela emissão de gases do efeito estufa que contribui para o aquecimento global”, pontua Paula.

E completa: “Somente no Brasil as emissões diretas da agropecuária (22%) e as produzidas por mudanças no uso da terra (51%) representam 73% das emissões nacionais de gases que contribuem para o Efeito Estufa – conforme Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, divulgado em outubro de 2016. Então, é inegável que o consumo de produtos de origem animal esteja diretamente ligado a essas tragédias”.

Segundo Paula Brugger, a criação de animais para consumo humano é uma questão chave na crise climática: “A pecuária é comprovadamente uma das maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa, seja de forma direta, seja ao longo das cadeias produtivas a ela associadas. É também a principal causa de perda de biodiversidade, mudanças no uso da terra/paisagem, desmatamento, desertificação, poluição e depleção de recursos hídricos, e um sem-número de outros problemas. Segundo o site Agrifutures, ‘a pecuária é uma indústria bem estabelecida e importante na Austrália, e está presente em todos os estados e territórios. O país é o sétimo maior produtor mundial de carne bovina com um rebanho da ordem de 25 milhões de cabeças, representando 55% das fazendas agrícolas no país. A Austrália produz carne bovina alimentada com capim e grãos'”, diz.

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A bióloga e pesquisadora elucida ainda que o consumo de carne está ligado a um intrincado sistema de degradação ambiental: “A Austrália possui ainda um expressivo rebanho ovino e caprino. É fácil compreender que para produzir tanta carne haja a necessidade de grandes modificações no uso da terra seja em termos de ocupação direta, seja por meio de desmatamentos os quais promovem a degradação dos solos (morte dos solos enquanto componente biogeoquímico) e todos os efeitos danosos da conversão de ecossistemas naturais em pastagens ou plantio de grãos para alimentação de animais criados para o consumo humano”, pontua.

“Os problemas desencadeados por tais ações estão concentrados entre si numa trama que envolve perda de habitats, perda de biodiversidade, e alterações no balanço hídrico, para citar alguns. Tais transformações se retroalimentam de forma deletéria: a perda de biodiversidade – da base ao topo das cadeias tróficas – afeta os ciclos biogeoquímicos (como o do carbono, nitrogênio, fósforo, oxigênio, etc), e a evapotranspiração que, por sua vez, afetam diversos outros “serviços ambientais” (não gosto do termo, mas…). Não sou climatologista. Mas, como bióloga, ouso apostar na ideia de que os principais fatores que afetam o clima global não estão primordialmente relacionados às emissões de GEE, mas aos mencionados antes como desmatamento, com conversão de florestas e outros ecossistemas naturais em pastos e plantação de commodities; e a conseqüente alteração de biomassa (diminuição de um lado/ aumento de outro) e perda de biodiversidade, o que afeta os ciclos biogeoquímicos e o balanço hídrico global”, declara.

E exemplifica: “O gado não é capaz de exercer as mesmas funções ecológicas que a megafauna/ animais silvestres; e os mecanismos de evapotranspiração numa floresta (ou savana) e numa plantação de soja diferem sobremaneira. Atualmente 96% da biomassa de mamíferos terrestres é composta por nós e os animais que criamos (para consumo e outros fins). Restam apenas 4% da vida selvagem. Essa é mais uma prova inequívoca do impacto negativo da pecuária sobre a biodiversidade. Há ainda a enorme perda do papel dessa diversidade faunística na regulação dos ciclos biogeoquímicos, como mencionado antes”, acrescenta.

Organismo vivo

Paula ressalta ainda a importância de uma visão holística para a compreensão dos fenômenos naturais: “Tais alterações quali-quantitativas fazem muito sentido numa visão sistêmica (ainda rara no dominante `fazer-ciência´ mecanicista!). E encontram-se de acordo com a Hipótese de Gaia , uma teoria científica fortemente ancorada no funcionamento biogeoquímico do planeta, ou seja, a vida e os componentes físicos da Terra encontram-se inextricavelmente inter-relacionados formando um sistema complexo capaz de manter uma certa homeostase global, incluindo a climática”.

E acrescenta: “Interdependência, retroalimentação (feedback), e propriedades emergentes – termos muito associados à visão ecológica profunda – são palavras-chave aqui. Voltemos à floresta amazônica, que exerce influência no clima dos dois hemisférios terrestres. Cerca de ¾ da água da chuva que cai sobre a floresta retornam à atmosfera através da evapotranspiração das plantas, formando novas nuvens e novas chuvas. Se a floresta amazônica desaparecesse – além do dano a esse mecanismo – todo o carbono que se encontra preso no compartimento biótico do ecossistema iria para a atmosfera, aumentando a concentração de gás carbônico e agravando o Efeito Estufa”.

Monika Schröder | Pixabay

A bióloga diz ainda que: “As florestas, além de servirem como um `sistema tampão´ em termos de calor, são também importantes fontes e sumidouros nos balanços químicos da atmosfera e as tempestades são os mecanismos principais de redistribuição de gases atmosféricos. Os gases próximos às copas e nas baixas camadas são transportados para altitudes maiores e podem influenciar na composição química global da atmosfera. Esses últimos dados (e muitos outros!) são de estudos que eu citava nas minhas primeiras aulas na UFSC, ainda na década de 1980… A Austrália já liderou o consumo mundial de carne per capita, segundo dados da OCDE (2013). Esse consumo vem diminuindo, mas ainda é muito grande. Diversas reportagens mostram que os muitos fazendeiros na Austrália sofreram grandes perdas materiais com tais incêndios. Alguns estão arruinados economicamente. Isso poderia sinalizar uma mudança de paradigma aos mais atentos: a de que seus processos produtivos não estão em conformidade com o que diz a ciência e a ética”, declara.

E a Amazônia?

Como ressaltado por Matheus, os incêndios na Amazônia e os na Austrália têm causas diferentes. Apesar dos dois trazerem impacto ao meio ambiente, é importante destacar que incêndios são históricos na Austrália e representam um fator importante e renovação da flora e do solo quando acontecidos em proporções consideradas naturais no país, algo totalmente inverso ao que ocorre no Brasil.

No bioma amazônico, que abriga a maior floresta amazônica do mundo, o fogo é oriundo principalmente de práticas criminosas. Queimadas são realizadas para aumentar a extensão de áreas destinadas à pecuária. Ao contrário do bioma australiano, o amazônico não se beneficia com o fogo, é completamente destruído e possui dificuldades de recuperação.

Apenas em agosto de 2019, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou cerca de 40 mil focos de incêndio apenas na parte da Amazônia que corresponde ao Brasil. Os danos são inúmeros: perda da biodiversidade mais rica de todo o planeta, devido a maior concentração de biomassa, há maior emissão de carbono na atmosfera e, dono de uma variabilidade vegetal única, o bioma amazônico enfrenta baixa chance de restauração.

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Dr. Pedro salienta que outra questão que precisa ser analisada é a diferença entre os níveis de liberação de gás carbônico: “Este [incêndio] da Austrália, a área atingida também é enorme, também a ordem da dimensão atingida em relação ao caso brasileiro, da Amazônia, porém a quantidade de biomassa queimada, ou seja, a quantidade de massa de carbono nas árvores é muito maior aqui na Amazônia do que o equivalente ao cerrado na Austrália, que é o que principalmente queima nesse período”.

E adiciona: “O potencial para a produção de material em suspensão, que a gente chama de fumaça, é maior aqui na América do Sul, principalmente na Amazônia. Lá na Austrália, o problema é a área e os períodos em que ocorre a queima, ou seja, esse episódio da Austrália, culminou agora em dezembro, mas ele vem já de vários meses, então como lá dura mais tempo, esse período de queimadas, acaba colocando também muito material particulado [partículas muito finas de sólidos ou líquidos suspensos no ar] na atmosfera, mas potencialmente o caso da Amazônia tem um peso maior, por causa da quantidade de massa da vegetação que você observa na região amazônica”.

Fumaça

Segundo informação da agência norte-americana Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA, na sigla em inglês), a fumaça causada pelos incêndios na Austrália podem não só chegar a outros país, como também circular todo o planeta. A informação é corroborada por Dr. Pedro Leite, que afirma que este fenômeno já vem sendo estudado há algumas décadas: “Nós temos estudado esse problema da propagação da fumaça produzida por queimadas há muitos anos. Eu acho que os primeiros estudos que a gente participou foram em meados dos anos 80, ou seja, quase 40 anos atrás, e já naquela época a gente tinha essa sensação de que a fumaça produzida pelas queimadas propagava à longa distância. Inicialmente, a gente estava olhando mais no contexto da América do Sul. Então, as queimadas da Amazônia propagavam lá para a Bolívia, para o Brasil-Central, para o Sudeste e para a Argentina”.

Prof. Dr. Pedro Leite da Silva Dias

E avança: “No decorrer do tempo, com o avanço dos estudos, nós percebemos que essas fumaças produzidas pelas queimadas aqui no Brasil, entravam pelo oceano Atlântico e iam parar na África do Sul, com indícios de que entravam até mesmo no oceano índigo e, continuando esses estudos, a gente percebeu que as fumaças da África chegavam aqui no Brasil, principalmente no Nordeste, ao longo Costa Norte brasileira e que as fumaças da Austrália propagava ao longo do Pacífico Sul e eventualmente chegavam até a América do Sul, ou seja, esse fato que acorreu agora em dezembro não é inédito”, explica.

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Dr. Pedro esclarece ainda o impacto desses resíduos. “É claro que a concentração dessa fumaça é pequena, quando se trata de um incêndio provocado lá na Austrália, quando chega aqui, ou seja, o impacto, do ponto de vista da saúde é muito pequeno, do ponto de vista meteorológico, evidentemente, o impacto vai ser muito maior, vindo direto da fonte, da queimada, mas não deixa de ter algum impacto no pacífico sul e muda, por exemplo, a quantidade de radiação solar que chega à superfície, ou seja, muda a temperatura da água do mar. É pouco? É pouco, mas algum impacto é mensurável. É um dos assuntos de pesquisa que hoje há muito interesse, perceber qual o impacto real dessas queimadas a longa distância. O caso da Austrália é particularmente importante devido à intensidade do fenômeno, então eu não descarto a possibilidade de que essas queimadas na Austrália tenham essa influência na mudança no Pacífico Sul e por sua vez, influência no clima do Brasil”, observa.

Impactos internacionais

Dr. Pedro reforça que a questão da fumaça que atravessa países e continentes precisa ser analisada em uma perspectiva global. “Eu acho que é mais alerta de que a gente precisar olhar com muito mais cuidado esta questão do clima e do que controla o clima e em particular a questão do aquecimento global e os impactos regionais e remotos que esses eventos podem ter, por exemplo, essa questão das queimadas, nos anos 90, adquiriu uma dimensão muito importante por causa de uma coisa que se chama poluição transfronteiriça, ou seja, uma queimada em um país, aquela fumaça não fica restrita ao país, ela vai ser transportada como esse episódio que a gente observou agora final de dezembro e começo de janeiro, que a fumaça da Austrália chegou até a América do Sul. Então, qual que é o problema dessa história? Como a fumaça que sai de um país chega em outro e lá pode causar alguma mudança e, inclusive, pode ter até impactos na saúde pública. A fumaça produzida em uma queimada na Amazônia pode trazer impactos significativos na área de saúde no Sudeste, no Paraguai ou na Bolívia, ou na Argentina ou no Uruguai. Então, como envolve outros países é um assunto delicado”, assinala.

Skeeze | Pixabay

O especialista esclarece ainda que este tema já está sendo debatido. “No Direito Internacional prevê essa situação e prevê a possibilidade que o país que causou a queimada tenha que compensar aqueles que sofreram danos. Isso foi um assunto muito discutido nos anos 90 e começo dos anos 2.000 e nos últimos anos eu tenho visto menos discussões sobre esse assunto. Eu tenho a impressão que esses episódios mais recentes da Austrália, da Sibéria, incêndios no Canadá, tragam à tona novamente essa questão da poluição transfronteiriça. Como a questão das queimadas está associada também à uma produção de enorme quantidade de gás carbônico na atmosfera, isso tem uma associação com a questão do aquecimento global, ou seja, é um caso extremamente complexo, do ponto de vista da negociação internacional e como eu disse, estamos passando por um momento difícil de discussão internacional. Eu acho que na realidade nós não podemos voltar a adotar a solução de avestruz, ou seja, fingir que nada está acontecendo”, pontua.

O professor da USP mantém uma postura positiva, apesar das tragédias e eventos extremos recentes. “A minha impressão é que com esses episódios mais recentes: Austrália, Amazônia, Sibéria, Canadá, todos esses casos contribuem para que haja uma mudança na política internacional. Eu sou um otimista, apesar dos desastres tremendos que têm ocorrido, eu tenho a impressão que a sociedade de uma forma geral está mais conscientizada com relação aos impactos da mudança do clima e as consequências das mudanças do clima incluindo a questão dos incêndios e a pressão da sociedade sobre os nossos governantes. Eu acredito que isso vai mudar bastante nessa década agora de 2020″, conclui.

O que podemos fazer?

Grandes tragédias, como a da Austrália, são uma oportunidade de reflexão e união sobre como o trabalho coletivo pode fazer a diferença na redução dos impactos. Para Matheus, uma reavaliação do próprio estilo de vida e da forma de ver o mundo são fundamentais. “Acredito que a base do raciocínio lógico para adotarmos uma postura que venha mudar este trágico cenário é a conscientização somada ao censo críptico do próprio sistema em que vivemos. E negar o aquecimento global e as mudanças climáticas não são caminhos que nos ajudarão a prevenir essas catástrofes voltem a acontecer. Ou seja, reveja seus hábitos, mude seu conceitos, mas mude! Só não seja indiferente”, disse.

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Segundo a Doutora Paula Brügger se manter impassível frente ao holocausto animal e ambiental não é mais uma opção. “Fiz uma postagem recente, no Face, sobre a dura realidade de ser um canguru na Austrália. Considerados pragas, eles são abatidos a tiros por fazendeiros que veem neles competidores por comida na época da seca. Certa vez vi uma foto de um filhote que tinha caído da bolsa marsupial de sua mãe morrer com a cabeça esmagada pela botina de um fazendeiro. Sua vida não valia nem uma bala. Agora…Um bilhão de animais mortos. Um bilhão de vozes caladas, vidas calcinadas, encerradas. Quantos mais? Sofrimento incomensurável.Termino citando um trecho da música Beds are burning da banda australiana Midnight Oil: How can we dance when our earth is turning? (Como podemos dançar enquanto nossa Terra gira?) / How do we sleep while our beds are burning? (Como podemos dormir enquanto nossas camas queimam?)”, diz o refrão da canção.

E completa: “É hora de mudar. É hora de devolver a Terra também aos animais. E, aos que não conseguem pensar, sentir o mundo de forma altruísta, vale sublinhar que a natureza não se vinga, como muitos proclamam. Pensar assim é tão tolo quanto dizer que se pulo ou caio do décimo andar e morro, a culpa é do chão que bateu em mim. Isso acontece porque tudo está interligado, só isso. Somos mesmo apenas ‘um fio da teia da vida'”, conclui.


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