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Vinte dúvidas multidisciplinares sobre a carne in vitro

16 de junho de 2014
4 min. de leitura
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No ano passado foi apresentado ao mundo o primeiro hambúrguer feito de carne in vitro (aqui referida pela sigla CIV), produzida em laboratório. Mas, como era de se esperar, ela vem dividindo opiniões, tanto sobre seu conteúdo nutricional como sobre as condições de sua produção em larga escala.

Eu pessoalmente tenho muitas perguntas a fazer sobre essa carne, que promete diminuir cada vez mais a exploração animal na pecuária mas ainda inspira muitas interrogações. Abaixo estão as dúvidas que tenho até este momento:

1. Quais as condições para a CIV ser produzida em larga escala, inclusive a ponto de substituir a demanda pela carne natural?

2. Como comunidades rurais simples terão acesso à CIV?

3. Existe alguma chance de se produzir CIV de forma independente, barata e não capitalista? Ou então, pelo menos haverá a possibilidade de produção de CIV por empresas locais e de porte não grande? Ou sua demanda consumidora terá que inevitavelmente se submeter a grandes corporações, tal como a maioria de quem consome soja e outros grãos hoje é refém do agronegócio?

4. O que garante que a CIV não será alvo de patenteamento por parte de alguma corporação de biotecnologia que vá tentar tomar para si os direitos sobre a sua produção?

5. O que garante que não haverá a modificação genética das células usadas na sintetização da CIV? Em outras palavras, correremos risco de presenciar uma invasão de CIV transgênica nos supermercados?

6. E quanto às chances de falsificação? Como o indivíduo vai se assegurar que não estará comprando carne natural, vinda de matadouros, anunciada como se fosse CIV?

7. Quais as chances de a CIV ser vegana, ou seja, não envolver testes de segurança em animais não humanos nem conter qualquer ingrediente de origem animal?

8. Quais as garantias de segurança alimentar sobre a CIV, ou seja, relativas à sua acessibilidade em termos de preço e facilidades de abastecimento?

9. Considerando-se que a matéria a compor a CIV não será criada do nada – implicará a conversão de alguma matéria-prima em células musculares e adiposas -, e não está claro qual será a origem de cada uma de suas matérias-primas – vegetal, mineral, microbiana ou animal, considerando-se todos os possíveis ingredientes -, quais serão as matérias-primas primordiais da CIV?

10. As matérias-primas da CIV virão de latifúndios? Ou a CIV poderá ser produzida localmente a partir dos produtos de uma ou mais roças ou fazendas de pequeno porte?

11. Quais as garantias de que a produção em massa de CIV não envolverá exploração humana e não irá desviar uma fração grande demais da produção agrícola vegetal para sua matéria-prima?

12. Quais as garantias de que a produção de CIV não será mais uma mão na roda para corporações perniciosas, como as alimentícias, farmacêuticas, automobilísticas (que produzem caminhões de transporte de alimentos), e para latifundiários que, desinteressados na libertação animal-humana-ambiental, irão mudar de ramo da pecuária para a produção dessa carne, nem implicará o fortalecimento do poder político dessas empresas e pessoas?

13. Qual a chance de a CIV não ameaçar provocar a cisão entre a causa vegana e as causas ambientais e humanitárias, visto que seus criadores dizem que ela vai representar a diminuição da pecuária e dos impactos ambientais da mesma mas ainda não parecem ter dado garantias de que não vai implicar mais exploração humana, mais capitalismo na vida das pessoas e um aumento no impacto ambiental da agricultura?

14. A produção de cada quilo de CIV implicará o gasto de:
a) quantos quilos de proteína vegetal?
b) quantos litros de água?
c) quantos kilowatts de energia elétrica?
d) quantos metros quadrados de terra agriculturável, de forma indireta (dividir o rendimento da CIV em quilos/hectare/ano pela quantidade de quilos)?

15. Há alguma garantia desde já de ser seguro o consumo humano e não humano (animais domésticos) de CIV?

16. A CIV vem com composição diferente das carnes naturais, ou virá com as mesmas taxas de gordura saturada, colesterol, proteína excessiva etc.? E quanto ao risco de, quando for assada ou frita, gerar aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, substâncias cancerígenas geradas quando se assa um pedaço de carne (pelo menos vermelha)?

17. Os riscos de se contrair câncer, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, demência e outras doenças com a CIV são os mesmos que a carne natural ou substancialmente menores?

18. Considerando-se as crescentes associações entre o pH do organismo humano e a ocorrência ou ausência de doenças, existe algum dado de qual será o pH da CIV? Ela será alcalina como a maioria dos vegetais ou ácida como as carnes comuns?

19. O que nos garante que não haverá “n” substâncias bizarras na composição da CIV, como conservantes, estabilizantes, aromatizantes e corantes artificiais?

20. Quais as garantias de que a CIV será um alimento saudável, e não mais um entre tantos alimentos de efeitos duvidosos ou nocivos à saúde humana cujo consumo é associado a doenças e ao aumento do uso de medicamentos e das internações hospitalares?

Responder a essas dúvidas é essencial, para que saibamos que a CIV será realmente uma opção de alimento saudável, sustentável, democraticamente acessível e livre de exploração humana, e não mais um entre tantos outros alimentos ruins para a saúde, para o meio ambiente e para a integridade humana e bons para a perpetuação da glória das corporações.

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