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Direitos animais – Bruno Müller

A quarta Revolução Industrial

05 de fevereiro de 2010 às 15:49

A Conferência Mundial das Mudanças Climáticas (COP 15), que se encerra hoje, em Copenhague, traz novamente para o centro das atenções a questão do aquecimento global. Um tema que afeta não somente a humanidade, mas as demais espécies do planeta, e merece, portanto, nossa dupla atenção, como cidadãos planetários e militantes da causa animal.

E quanto maior a publicidade em torno do tema, maior também a controvérsia. Cada vez mais se levantam vozes denunciando a farsa, a manipulação, os interesses escusos por trás das campanhas ambientalistas e por aí vai… Não sendo especialista no tema, não seria prudente assumir uma posição peremptória nessa discussão. Posso ressaltar, porém, duas coisas: primeiro, nunca fui adepto de teorias da conspiração; segundo, por outro lado, o discurso catastrofista em torno do aquecimento global me inquieta um pouco. A ciência não dispõe ainda de mecanismos confiáveis para fazer simulações e modelos de longo prazo, ainda mais em sistemas tão complexos quanto são, por exemplo, a economia e o clima. Fenômenos expostos a tamanha infinidade de variáveis são, pelo menos atualmente, imprevisíveis. Isso não implica dizer que não esteja ocorrendo um aumento nas temperaturas do planeta, mas sim que não podemos afirmar com segurança o que ocorrerá com o clima daqui a dez, vinte, trinta ou mais anos, nem o que isso acarretará ao planeta e à humanidade. Podemos fazer projeções, não previsões. E note-se que essas projeções podem errar tanto para mais (prevendo mudanças mais radicais do que realmente ocorrerão) quanto para menos (revelando-se tais mudanças ainda mais radicais do que o imaginado).

Deixemos de lado, porém, tanto o conspiracionismo quanto o catastrofismo. Precisamos mesmo dessas duas visões diametralmente opostas para tomar decisões no referente aos assuntos debatidos em Copenhague neste dezembro de 2009?

As metas debatidas na COP 15, por mais radicais que sejam, são, na verdade, relativamente modestas: reduzir a emissão de gases do efeito estufa, não um corte. No entanto, essas metas apontam, no longo prazo, para um novo paradigma de desenvolvimento, baseado em energia limpa, e não em combustíveis fósseis, e em atividades econômicas menos poluentes. Significa pensar um futuro com menos petróleo, menos queimadas, menos pecuária (segundo a visão dominante, deixemos claro, já que nossa luta é, claro, pela abolição da pecuária). Precisamos mesmo de uma catástrofe natural para pensarmos além do cenário atual, e na direção desse outro cenário?

Com ou sem aquecimento global, nosso modelo atual de desenvolvimento é insustentável, é insalubre e tem prazo de validade. O petróleo é um recurso não renovável. Cedo ou tarde, vai acabar. Quanto menor a quantidade de petróleo disponível, mais poluente o seu método de extração. Estamos na fase de perfurar o subsolo abaixo dos oceanos, ou de violar reservas naturais, como querem fazer os conservadores e a indústria petrolífera dos Estados Unidos, no Alasca. Maior poluição significa uma qualidade de vida reduzida, mais doenças associadas à poluição, o comprometimento de ecossistemas e de espécies animais e vegetais, tudo isso, independentemente de ser verdadeiro ou não o aquecimento global. Este, sendo verdadeiro, torna o cenário mais grave e a mudança mais urgente. Porém, não implica que, excluindo-o do quadro, este torna-se idílico ou mesmo tolerável.

E, afinal, o que temos a temer em relação às mudanças propostas na COP 15? Absolutamente NADA. Elas não irão, de modo algum, comprometer o combate à pobreza nos países mais pobres, nem no curto prazo, se for efetivada a proposta de criar um fundo para adaptação e transferência de tecnologia, sem os quais nenhum acordo sairá, em primeiro lugar; nem tampouco no longo prazo, em que os efeitos do atual padrão de produção e consumo apenas indicam maior risco para as camadas sociais mais pobres e vulneráveis.

No caso específico do Brasil, temos uma posição privilegiada combinada com um histórico de decisões equivocadas baseadas na visão limitada do curto prazo. O Brasil, tanto por sua extensão geográfica, quanto pela sua natureza, é um país privilegiado em matéria de potencial para o desenvolvimento de energia limpa. Podemos investir em energia solar, em energia eólica, em energia das marés, todas abundantes em nosso país, que tem muitos dias sol, ventos abundantes em todas as épocas do ano, e uma vasta costa marítima. E, ainda assim, nossos governos insistem em investir em formas poluentes e arriscadas de produção de energia, como usinas de carvão e nucleares. Ou em agrocombustível, que compromete a segurança ambiental e alimentar.

O investimento inicial em energia renovável é alto? Sim. Mas no longo prazo ele representa economia. E, além disso, esse investimento poderá significar um salto em tecnologia, em conhecimento. Onde fica, então, o duplo argumento, de que as energias limpas são uma “conspiração” dos países ricos, por um lado, e da necessidade de independência política e econômica do nosso país, sendo o conhecimento e a tecnologia estratégicos para essa independência? Mais uma vez, a visão pobre do curto prazo está comprometendo o futuro do país. O Brasil poderia e deveria estar na vanguarda do processo de transformação energética. Infelizmente, não é o que vem acontecendo, malgrado os discursos de nosso presidente na Conferência de Copenhague.

Numa visão mais global, o que está em xeque, atualmente, são os paradigmas impostos à humanidade pela Revolução Industrial. Na verdade, seria mais preciso falar em Revoluções Industriais, no plural. Elas representaram, provavelmente, as mais radicais e importantes mudanças para a humanidade e sua organização social, política e econômica desde a Revolução Neolítica (isto é, o desenvolvimento da agricultura). Ou seja, a mais importante transformação em milhares de anos. A partir da primeira Revolução Industrial, por volta da década de 1750, baseada nas primeiras vagas de mecanização, o mundo mudou por completo. Tudo, inclusive a inovação tecnológica e a população humana, multiplicou-se exponencialmente. As transformações que antes levavam séculos e dezenas de séculos, agora ocorrem numa questão de décadas.

A segunda Revolução Industrial, um século depois, foi baseada no desenvolvimento de tecnologias tais como o motor a vapor, a energia elétrica e o motor a combustão. Essas revoluções trouxeram enorme riqueza, mas também terríveis custos sociais. Poderíamos falar ainda de uma terceira Revolução Industrial, que se iniciou por volta do pós-Guerra, no século XX, com o fenômeno descrito como a Revolução científico-tecnológica, com a informatização e a automação que transformaram o conhecimento e a inovação tecnológica, mais do que nunca, nos elementos centrais e estratégicos da economia e da independência, riqueza e poder dos Estados. O motor energético das sociedades, entretanto, continuou baseado nas mesmas fontes da segunda Revolução Industrial.

É esse processo, com todo o seu custo ambiental e social, que temos a oportunidade de enterrar nos dias de hoje. A troca da matriz energética, dos combustíveis fósseis e outros processos poluentes, por fontes de energia e atividades econômicas ambientalmente sãs, sustentáveis e renováveis, representa uma possibilidade mais revolucionária do que habitualmente se supõe. O que nós estamos vislumbrando atualmente, portanto, é a possibilidade de uma quarta Revolução Industrial, que transformaria radicalmente nosso modelo de desenvolvimento, nossa forma de ver o mundo e nossa atitude perante a natureza. 

Essa quarta Revolução Industrial iria acarretar uma guinada radical na nossa organização econômica e, quiçá, também social e política. Por meio do investimento em energias limpas e renováveis, a produção de bens e riqueza poderia tornar-se mais sustentável e, portanto, menos crítica para o meio ambiente e as sociedades humanas. Ainda que a revisão dos padrões de consumo e produção dos países industrializados, marcados pelo exagero e desperdício, continue sendo indispensável, a garantia de processos econômica e ambientalmente sustentáveis ampliam as possibilidades da universalização de um padrão de vida mínimo a toda a humanidade, ao qual está intrinsecamente associada, aliás, a preservação do meio ambiente. Pois preservar o meio ambiente, reduzir a poluição, salvaguardar os ecossistemas e florestas ainda existentes e tornar nossas cidades menos cinzentas não é apenas uma questão de romantismo bucólico. Significa preservar a saúde humana, tornar a vida nas cidades mais aprazível e, claro, preservar e respeitar as demais formas de vida, o que para nós, defensores dos direitos animais, é, obviamente, não só um valor importante, mas também um dever.

O investimento em energias renováveis é, portanto, uma imensa oportunidade, e não um risco. Se o problema do aquecimento global, seja ele real ou imaginário, ou, sendo real, de gravidade crítica ou exagerada, for a faísca necessária para impulsionar essa transformação, essa sim, indubitavelmente importante, que assim seja. Ela não se refere à preservação do planeta, nem mesmo à vida em si, como se diz vulgarmente, pois o planeta continuará a existir com ou sem a humanidade, e novas formas de vida irão se desenvolver. Essa transformação é crítica, isso sim, para as formas de vida existentes hoje, não só a humana, mas talvez principalmente as outras formas de vida, que o nosso antropocentrismo torna vulnerável em função do nosso descaso e soberba.

Quanto à própria humanidade, com ou sem aquecimento global, a forma como vive atualmente é não só insustentável, mas igualmente insuportável. Não revisar nosso padrão de desenvolvimento e consumo irá acarretar, para o futuro, mais conflitos, guerras, pobreza, injustiça. A vida moderna é fator de estresse, doenças e sofrimento. A OMS prevê que, em 2030, a depressão será o maior risco à saúde pública. Ao contrário do que se supunha, a depressão não acomete as camadas mais abastadas da sociedade, mas sim as mais pobres. Tudo isso é função de um estilo de vida artificial, acelerado, insalubre, insensível às necessidades básicas do ser humano, mas também à sua necessidade de equilíbrio na vida social e no seu meio ambiente.

A possibilidade dessa quarta Revolução Industrial não é uma solução mágica para os nosso problemas sociais e ambientais. Porém, é um passo indispensável, tanto mais porque são os mais pobres aqueles que estão mais vulneráveis e que mais sofrerão, seja com os problemas ambientais, seja com os conflitos sociais decorrentes de nosso atual padrão de produção e consumo. Tamanha mudança será importante, igualmente, num segundo momento, para superar em definitivo tais problemas. Essa superação, porém, passa por uma transformação muito maior, mais profunda e paradigmática, que é questionar não apenas o modelo de desenvolvimento das sociedades capitalistas, mas o capitalismo propriamente dito.

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