sábado, outubro 17, 2020
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Cronicato – Animais e Outros Bichos

Rogério Rothje é primogênito da Denise e do Jonas, filho da belíssima primavera paulistana de 1972 e, como todo bom brasileiro, é meio paulista, meio mineiro, meio índio, meio negro, meio alemão, meio americano, meio italiano, meio português e tupiniquim por inteiro. Redator publicitário, em 2004 criou o blog ‘Cronicato’ para desanuviar. Entusiasmado, passou a enviar os textos a todos que conhecia. Os conhecidos encaminhavam aos seus conhecidos e hoje é um monte de gente que lê. Teve gente que leu no jornal Correio Popular e no portal Cosmo On Line, de Campinas, no site Somos Todos Um, no site da Associação Limeirense de Proteção aos Animais (ALPA), tem gente lendo no Orkut, no Vista-se, no Twitter e, agora, aqui na ANDA também.

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Cronicato - Rogerio Rothje

Quem somos nós

O nosso mundo não compreende o direito de vocês, mas vocês entendem bem como funciona o nosso. E mesmo assim não ligam em separar nossas famílias, transportar-nos de qualquer modo até lugares frios, sombrios e isolados, distantes de tudo o que antes era só paz e harmonia, entre nossos iguais e a natureza de onde viemos. Poucos param para pensar enquanto se deliciam com nossa carne, extraída após uma vida de sofrimento e reclusão, muitas vezes antecedida por um sofrimento comparável apenas aos mais trágicos e imorais atentados à sua humanidade, como o holocausto. Para nós, esse holocausto prossegue às escuras, uma vez que a indústria é perita em maquiar o que se passa longe das vistas humanas. Não é?
CRONICATO - ROGÉRIO ROTHJE

Garoto problema

Minha mãe acabou de me trazer na psicóloga. Acha que porque eu não gosto de animais, devo ter algum problema. O problema é que eu gosto de animais, só que não do jeito que ela acha que eu deveria gostar. Outro dia perguntou se eu não queria um cachorrinho. Que a amiga dela vende uns lindinhos, de raça. Eu não quis. Falei que adotado é muito melhor. Ela torceu o nariz e voltou pra cozinha. Quis me levar ao zoológico com meus primos no fim de semana. Eu não fui. Fiquei com meu avô, que já está velhinho e quase não sai de casa.
CRONICATO - ROGÉRIO ROTHJE

Acordemos

Eu vejo na TV espécies animais inteiras deixando o planeta por causa do homem, uma a uma, aos pouquinhos, para nunca mais. Vejo na internet a moça que chora porque perdeu o cão por causa dos fogos do fim do ano. Vejo petições intermináveis contra as touradas, os rodeios, os testes em animais, os projetos de Lei que privilegiam este ou aquele, e que têm sempre os animais como maiores prejudicados. Vejo amigos unidos para resgatar um cão atropelado no meio da madrugada.
CRONICATO - ROGÉRIO ROTHJE

Deixem os animais em paz

Queremos as onças lindonas, assim. Tranquilas em suas casas. Queremos vê-las, ao menos as poucas que restam, desfilando sua formosura à vontade, livres nas florestas. Queremos apreciá-las, quando possível, tomando um banho de sol gostoso, refrescando-se nos rios, dormindo preguiçosamente, cuidando de seus filhotes... De preferência, do modo mais discreto possível, sem apoquentá-las. Queremos ver os animais todos onde a natureza os fez nascer e não enfiados em eventos esportivos, arenas, cubículos, jaulas, tanques ou onde mais infernos o ser humano inventou que eles devem estar. Queremos menos sangue derramado no mundo. Queremos é poder compartilhar boas ações, novas conquistas humanitárias e pelos animais. Queremos um planeta vivo novamente.
CRONICATO - ROGÉRIO ROTHJE

Surpresinha da tarde

Era um pequeno camundongo, que virou a esquina beirando a guia. Eu tomava café com minha família e minha cadeira dava direitinho para o vidro que ladeava a padaria, permitindo que eu pudesse acompanhar todo o trajeto desse amiguinho anônimo, que apareceu não vi de onde e roubou alguns minutos meus. Admiro tanto a natureza por criar belezas em tudo, inclusive em animais que a maioria tem medo ou nojo; que vê e só pensa em fugir, gritar ou matar. Sorte desse orelhudo que ninguém assim ou pior apareceu. Ele subiu de uma vez a guia, enquanto eu torcia para que nada de ruim acontecesse com ele, e mais um salto deu até alcançar uma pequena jardineira, colada à padaria. Suspirei aliviado por ver que tinha chegado são e salvo. Caminhou um pouco entre os raminhos e flores multicores até encontrar um pequeno tampão de concreto em forma quadrada, cavar um pouquinho e desaparecer por debaixo. Acho que era alí seu esconderijo, sua casinha, seu porto seguro. Sonho com o dia em que animal algum precisará se esconder ou fugir de nós, sabe... "Rogério, viu passarinho verde? Estamos aqui falando com você", disse minha tia. Vi sim, tia. Um peludinho, orelhudo e de nariz comprido, que brincou com o perigo, mas que deixou meu café mais feliz.
Cronicato – rogério rothje

Deus fez

Deus fez o guepardo para alegrar o vento. Como fez o urubu para deixar feliz o ar quente que foge da terra para o céu em corrente. Fez as baleias para que as ondas tivessem com quem brincar. E fez os macacos para que os galhos não se sentissem tão sozinhos. Fez as abelhas para que as flores continuassem sendo flores. E os guaxinins para que as pessoas sentissem coisas faltando no armário sem saber quem pegou. Deus fez os peixinhos porque fez a pedra gigante e também a areia, a sequoia e também as flores do campo. Deus fez a cobra para chacoalhar as folhas secas e fazer música com elas quando passar, fez o tatu para que a terra pudesse respirar melhor e fez o homem para aprender tudo isso com os animais sem tirar a paciência deles.
Cronicato - rogério rothje

Chove?

O senhor do tempo, aquele que controla se faz frio, calor, sol ou chuva, anda confuso, mandando tudo isso de uma vez só, em um mesmo dia. E eu sei porquê. Porque cansou da gente decidir por ele. Cansou de ver a nossa fumaça tóxica invadir o ar, matar a beleza que mantém a vida a viver e, em vez disso, deixar os pulmões pretos, a garganta seca e o nariz escorrendo. Cansou de ver o cigarro, que também enfeia o ar, deixar tanta gente doente. Até mesmo gente que nunca escolheu fumar. Cansou de ver as árvores serem cortadas para que o homem possa fazer mais coisas de concreto; e também para alimentar as vacas e porcos, que, sem terem nada a ver com isso, vão parar no frigorífico depois. Cansou de ver sacolas plásticas jogadas na água irem parar no estômago das tartarugas, dos peixes e das aves, tirando a vida dos animais que fazem bem pra gente só por existir. Eu nunca repeti de ano. Mas vejo os adultos tirando nota vermelha por pura preguiça de aprender.
Cronicato - rogerio rothje

Os animais que amamos

Os animais que amamos, os que estão próximos de nós ou não, os que entram em casa e os que não caberiam nela, os que fazem gracinha pra gente e os que simplesmente nos ignoram ou fogem da nossa presença, todos eles pertencem a uma grande unidade – um todo do qual fazemos parte, uma vez que somos animais também. Demonstrar amor e respeito a qualquer um deles abre no seu coração uma porteira sem dimensões mensuráveis, através da qual podem passar todos os animais deste planeta, os que correm, os que rastejam, os que pulam, voam, andam e nadam.
Cronicato - rogério rothje

Sem julgar

Nesta vida, cada um tem suas próprias batalhas pessoais pra travar. Você tem as suas, eu as minhas. São lutas internas, objetivadas pelo desejo de crescimento, de evolução pessoal. Pode não parecer, mas a pessoa mais terrível que você conhece tem dentro de si a vontade de livrar-se do sofrimento e, portanto, daquele padrão de pensamento e comportamento que a encarcera. É esta uma das razões pelas quais julgar os outros é sempre errado.
Cronicato - rogerio Rothje

Sê puro

Os animais não sabem por que fazemos isso com eles. Porque os animais não julgam ninguém. Não julgam a si mesmos, muito menos aos humanos. Os animais são inocentes no mais profundo sentido da palavra.
Cronicato - rogério rothje

Acorde!

Sou feliz porque sou o que sou. Porque faço o que tenho vontade. Porque não me preocupo em ter que agradar, seja porque estou com fome, seja para ganhar qualquer agrado. Sou feliz porque sigo minha natureza. Porque estou na natureza, que é o meu lar e de onde jamais deveríamos sair. Onde deveríamos permanecer, desde o dia em que saímos do ovo ou da placenta de nossas mães, até o dia em que a natureza, a mesma que nos deu a vida, nos chamasse de volta para o céu dos animais. Sou feliz porque vejo os da minha espécie comigo. E porque não vejo a sua rondando a nossa em busca de qualquer um de nós, seja para se alimentar, se entreter ou se vestir.
Cronicato - rogério rothje

Vida de criança

Eu tenho pena do bebê girafa, que leva o maior tombo quando nasce. E tenho pena dos bebês tartaruga, que nascem enterrados e precisam cavar rápido e correr para a praia antes que um ladrão de tartarugas apareça. Para o filhote da girafa, cair assim logo que nasce deve ser bom, porque na floresta há muitos perigos para enfrentar logo cedo. E para os filhotes da tartaruga, que correm para o mar sem saber direito o que é correr e nem o que é mar, também deve ser bom, porque embaixo d`água também é muito perigoso de viver. Eu mesmo, não entro lá sem estar com minha mãe mais ou menos perto e minha bóia bem cheinha.