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terça-feira, janeiro 21, 2020

Plataforma Terráqueos

Aleluia Heringer Lisboa Teixeira
Professora.
Doutora em Educação pela UFMG
Diretora do Colégio Santo Agostinho – Contagem
Vegana e idealizadora da Plataforma Terráqueos (www.plataformaterraqueos.org.br)
[email protected]

Plataforma terráqueos - aleluia heringer

Os Beagles e os Porcos: o constrangimento que nos traz

Sinceramente, qualquer um de nós, no lugar de um daqueles beagles resgatados do Instituto Royal, no dia 18 de outubro em São Roque-SP, iria adorar e aplaudir a ação dos ativistas. Definiria a ação como uma “visitação de anjos libertadores”. Para o beagle, não há interesse em saber que ele é uma cobaia indispensável para que o país tenha um laboratório de ponta para fármacos e novas drogas. Ele quer é viver. Sendo assim, como beagle, a história terminaria aqui e ponto final, ou melhor, a vida começaria agora. Pela primeira vez, aqueles animais estão experimentando o direito à vida, à liberdade e à própria integridade física.
Plataforma terráqueos - Aleluia Heringer

Meio ambiente: um passinho à frente, por favor!

A comunidade científica recebeu, no início de maio (2013), com grande apreensão, a notícia vinda do observatório de Mauna Loa, no Havaí, de que a concentração de CO2 na atmosfera superou, pela primeira vez, a marca de 400 partes por milhão. Como de costume, as análises vindas da ONU, ou do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mantiveram o tom profético de que o Planeta está em uma zona de perigo; e que o mundo tem que acordar e perceber o que isto significa para a segurança dos seres humanos. Em outra linha de análise, Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, propôs em um de seus artigos, uma “ética a partir do aquecimento global”, isto também, logo após a notícia do observatório do Havaí. A questão posta por Boff, diante esta situação é: “como fundar um discurso ético minimamente consistente que valha para todos”? Segundo ele, “não é possível frear a roda, mas diminuir-lhe a velocidade” e que precisamos “viver radicalmente o reduzir, reutilizar, reciclar e rearborizar”. Sentimo-nos aliviados quando alguém utiliza expressões abrangentes, como, “comunidade internacional” ou “contrato ético”. Elas nos confortam, pois não nomeiam ninguém, não especificam ações e condutas que precisam ser revistas. Então, se não é comigo, vou tocar a minha vida, ainda mais como um ser insignificante no meio de outros 7 bilhões de habitantes do planeta, nada que eu faça terá relevância. Falta objetividade nesses discursos que são evasivos quando se tratar de esclarecer e responder: o que necessariamente precisa ser feito? Quem deverá fazer? O quê? Quando? Como? O que é insustentável que precisa ser desencorajado? O desmatamento é para sustentar qual tipo de atividade? E a produção de lixo; o consumo de água; as emissões de CO2 ou de metano estão atreladas a quais atividades econômicas e pessoais? Há algo grandioso demais e desproporcional nesta luta, algo que me lembra da história do invencível gigante Golias e o frágil Davi que, com sua funda (estilingue) e uma pedra, ou seja, algo bem artesanal, atingiu o grande gigante. O discurso ambiental perdeu seu poder de impacto e o da sustentabilidade virou lugar-comum. Precisamos dar um passo à frente e apresentar uma abordagem à altura dos problemas que nós e, principalmente, as futuras gerações iremos enfrentar. Que ação poderá valer para todos e que tenha o impacto da funda e da pedra? Sugiro uma proposta que uma criança ou um idoso, o letrado ou o analfabeto irá entender. Temos em nossas mãos uma arma poderosa e que poderá “frear a roda”, ou, frear o sistema produtivo responsável por: 39% da produção de lixo do mundo; pela poluição dos rios e lençóis freáticos; pela erosão dos solos; pela emissão de 18% do CO2, 37% do gás metano e 65% de óxido nitroso, liberados na atmosfera; por 70% do desmatamento da Amazônia; pelo desvio de grãos nobres que deveriam alimentar pessoas famintas ao redor do mundo, e que servem de alimento para “animais de abate”; e se não bastasse tudo isto, pela escravidão e morte cruel de bilhões de animais não humanos por ano. Estamos falando de seres sencientes, sujeitos de uma vida que nossa prepotência transformou em coisa/objeto/ produto. É possível uma transformação profunda começando unicamente com o nosso garfo, quando abolirmos o consumo de proteínas de origem animal. Esta é uma resposta prática a muitos dos problemas que vivemos hoje e, a meu ver, uma tradução do “viver radicalmente”, proposto por Boff. Um “contrato ético” não poderá ignorar que somos parte de um complexo de sistemas vivos compartilhando com animais não humanos partes de um mesmo ecossistema global. Os princípios da interdependência, da parceria, da ética, dos processos cíclicos, para citar alguns, tornados possíveis pelas conquistas científicas, tecnológicas e culturais precisam orientar nosso modo de viver. O animal humano, não humano e a “Mãe Terra”, expressão tão cara ao teólogo, precisam ser alvo do mesmo olhar do cuidado. Qualquer projeto que venha dominar os seres a partir de uma espécie privilegiada; que naturalize a escravidão e a crueldade a outras espécies, não é ético e nem justo, e degrada a condição humana.
Plataforma Terráqueos - Aleluia Heringer Lisboa

Luiz Antonio e o polvo: uma verdade inconveniente

O vídeo do Luís Antônio, que está circulando nas redes sociais, em diálogo com sua mãe é perfeito e irretocável. Não é à toa que Jesus disse aos discípulos que da boca das crianças sai o perfeito louvor. Depois de assisti-lo, eu complementaria: da boca das crianças saem as maiores, e em alguns casos, as inconvenientes verdades. Isto porque elas falam com o coração, com os sentimentos, não têm vergonha de perguntar, não se preocupam em falar corretamente e nem querem impressionar.
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Histórias Cruzadas – veja o filme, leia a vida!

O filme “Histórias Cruzadas” discorre sobre a vida das mulheres negras que cuidavam dos lares e das crianças brancas das famílias do Mississipi (sul dos Estados Unidos), nas décadas de 50 e 60. Indicado ao Oscar 2012 em três categorias, o filme retrata as relações desiguais e injustas entre brancos e negros. Pela cor da pele uma hierarquia se estabelecia, demarcando espaços, direitos e deveres; impondo, assim, o jugo da imoral “superioridade racial”. Com a mente de hoje assistimos, com estranhamento, à naturalidade com que os brancos se impunham aos negros, tendo, para isso, o respaldo legal, cultural e religioso.
Aleluia Heringer - Plataforma Terráqueos

À beira do fogão

O dia em que meu filho chegou e disse: “se eu me conheço, jamais volto a comer carne...”, foi o marco inicial de um processo com repercussões profundas na minha forma de ser e “estar” no mundo. Ele, na época com 18 anos, assistira a um vídeo sobre abate de porcos. Ali mesmo, à beira do fogão, expressei o meu espanto, iniciando uma série de questionamentos, próprios de uma mãe preocupada: “... mas, por qual motivo?... E a proteína = carne, e o cálcio = leite? (essa é clássica!); isso não é exagero? Apressei-me, então, em expor meus estranhamentos quanto àquela “postura radical”.
Aleluia Heringer - Plataforma Terráqueos

Anistia ampla, geral e irrestrita

Naquele ano de 1968, o domingo do Dia das Mães não teve nada de normal. Meu irmão de 18 anos, preso dias antes em uma manifestação estudantil no centro de Belo Horizonte, estava nas mãos do DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Sua prisão e o aparato policial envolvido eram desproporcionais, fato que levou o cartunista Henfil a registrar a prisão em uma de suas charges. O então poderoso Coronel Medeiros liberou, por insistência de minha mãe, a sua saída por algumas horas. Com ele vieram alguns policiais à paisana, que o acompanhavam de perto. Eu ainda não tinha completado seis anos de idade e observava tudo, acredito já com certo estranhamento! Também naquele mesmo ano, meu irmão mais velho, entrava na clandestinidade antes de partir para o exílio. Voltaria para a convivência familiar somente em 1979, doze anos depois, com a Anistia Ampla Geral e Irrestrita. Esse tempo foi, para alguns brasileiros, de muita apreensão.
Aleluia Heringer - Plataforma Terráqueos

O silêncio dos responsáveis

Desde o ano de 1981 estudo e trabalho com educação, exercendo dentro da escola várias funções. Nunca presenciei, durante esse período, em lugar algum, inclusive dentro da universidade, qualquer discussão sobre a ética no trato com os animais ou sobre os seus direitos. Isso não é nenhum absurdo, levando-se em conta que, apenas recentemente, esses temas estão conquistando e despertando o interesse das pessoas. Alguma coisa, sim, sobre “tratar bem os animais”, mas sempre numa referência restrita aos domésticos ou em extinção. Essa ausência não é o mesmo que dizer que os animais estiveram ou estão fora dos currículos escolares. Nos interessa aqui é saber como esses seres são apresentados e quais representações sobre os mesmos ajudamos a construir por diversos meios, seja nos livros didáticos; na existência de viveiros e seus pássaros cativos; nas aulas práticas dos laboratórios de ciências ou de biologia; nas excursões aos zoológicos; nos alimentos comercializados pelas cantinas; ou mesmo, nas aulas sobre “alimentação saudável”, quando, então, anunciamos uma dependência completa e inquestionável da proteína animal.
Aleluia Heringer - Plataforma Terráqueos

O "outro próximo": o animal

Ferreira Gullar, li na Folha de S.Paulo (22 agosto 2010) o seu texto “Eu fui às touradas em Barcelona”, ou melhor, fui à tourada com você. A forma como você descreveu a cena me fez suar frio, me fez sentir uma tristeza cósmica, se é que isso existe. Você ficou chocado e isso me deu um pouco de esperança.
Aleluia Heringer - Plataforma Terráqueos

Animal cativo não é educativo: uma breve reflexão

Qual o propósito de um viveiro dentro de uma escola? Em que medida essa presença educa? Como o conteúdo desse “currículo oculto” interfere na percepção e sensibilidade de nossas crianças e jovens? Essas são algumas perguntas que fiz a mim mesma quando assumi a direção de uma escola, em cujo o pátio central havia um viveiro com pássaros e tartarugas pequenas. Tais indagações se tornam bastante pertinentes se consideramos, por exemplo, o que escreve Escolano (2001) em Currículo, Espaço e subjetividade. Para esse autor, o espaço escolar tem de ser analisado como uma construção cultural que “expressa e reflete, para além de sua materialidade, determinados discursos”. Nessa perspectiva, todo espaço educa, forma e situa. Retomo, então, a questão: a existência do viveiro educa para quê?