sábado, outubro 17, 2020
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Educação Vegana

Leon Denis – Atleta e ativista vegano pelos direitos animais. Autor da obra Educação Vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio (2012), organizador da obra Educação & Direitos Animais (2014), e co-autor das obras Visão Abolicionista: ética e direitos animais (2010) e Somos Todos Animais (2014). Pioneiro no ensino de Direitos Animais e Veganismo em escolas públicas no Brasil. Membro fundador da Sociedade Vegana no Brasil, da Liga Animalista, e da EBRAV – Educadores Brasileiros Abolicionistas Veganos.
Educação vegana - leon denis

A questão dos conceitos

O fato do Brasil ser um país que nunca nutriu em seu povo a paixão pela leitura, pelos estudos, pelos debates no nível da razão, pelos raciocínios lógicos bem encadeados, faz com que essa mazela também atinja em cheio o movimento animalista. É comum ouvirmos que os direitos animais e o modo de vida vegano são coisas de pessoas de classe média e alta. Movimento de burguês. Vejo uma contradição aqui em termos pedagógicos. No Brasil a Educação é nitidamente uma questão de classes. Os ricos ou burgueses têm capitais (econômico, cultural, social) a transmitir aos seus filhos; os pobres ou a massa vive no lado oposto, na ausência desses capitais. Logo, como entender a hercúlea dificuldade do movimento animalista – burguês segundo alguns – tem em entender e utilizar os conceitos de forma correta se são eles dotados de um capital intelectual e cultural privilegiado? O não uso correto dos conceitos no Brasil, não tem a ver com riqueza e pobreza culturais, mas na sua grande maioria, com ação de má-fé. Estudar ética prática e usar de forma correta conceitos e termos também exige mudança de atitude, de perspectiva, exige coerência no falar e no agir (práxis) e é aqui que mora o problema.
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Sobre minhas aulas

O caso do meu desligamento da função de professor de filosofia designado por trabalhar em sala de aula temas que ainda provocam incômodos na maioria esmagadora da população, gerou indignação em milhares de pessoas. A essas pessoas indignadas (ativistas dos direitos animais, veganos, vegetarianos, socorristas, simpatizantes da causa animal ou não) sou imensamente grato, pela propagação do ocorrido, pelas assinaturas da petição. Petição que tinha como objetivo, que a Secretaria de Educação olhasse com mais cuidado para o caso ocorrido, teve-o alcançado.
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Avaliação de filosofia e o especismo institucionalizado

No inicio do ano letivo, na primeira reunião “pedagógica” é pedido aos professores que façam seu planejamento anual, ou seja, que coloquem no papel o conteúdo que irão trabalhar com os alunos durante o ano e, entregue o mesmo à coordenação pedagógica da unidade escolar. Planejamento esse, que na verdade é mais uma copia do que reza a cartilha governamental: o que consta nos livros didáticos, nos PCNs, e no caso aqui, no CBC – Currículo Básico Comum. Não há nada de novo, é o eterno retorno do mesmo.
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Bem-estarismo no livro didático

O movimento em defesa dos animais não humanos no Brasil, de cunho abolicionista, é algo bem recente, pouco mais que duas décadas. Comparado com outros países, em especial de língua inglesa, apenas começamos a engatinhar nessa caminhada. Mas devido ao maciço uso da internet, o conhecimento sobre o que é o modo de vida vegano, sua dieta vegetariana e sua fundamentação teórica, os direitos animais, tem atingido um numero bem expressivo de pessoas. Por outro lado, é justamente o uso de forma amadora, no calor da emoção, ou até mesmo de má-fé da internet que tem divulgado de maneira equivocada as definições de termos e distorcendo conceitos muito caros a historia da defesa ética dos animais não humanos.
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Educação vegana e a desconstrução da razão

O ambiente de ensino é uma escola pública no interior de um Estado do sudeste brasileiro; o público é adolescente, com idade de catorze a dezoito anos; o tema da aula é o conceito de especismo, termo criado por Richard Ryder, e o “princípio da igualdade na consideração de interesses semelhantes” desenvolvido por Peter Singer. Chama demasiadamente a atenção como uma ideia (como a suposta superioridade do ser humano sobre os não humanos) depois de muito divulgada, por séculos, torna-se um habitus, uma disposição incorporada. Como desconstruir essa ideia – o especismo – e abolir sua materialização, o costume de consumir tudo que é oriundo do uso dos animais não humanos?
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A Compaixão

Em sua Retórica, Aristóteles nos dirá que a compaixão é uma forma de aflição provocada por um mal que fere outro indivíduo que não merece ser ferido. Sentimo-nos compadecidos, diz o filósofo, porque imaginamos que o mesmo pode acontecer conosco ou com alguém próximo a nós. Estaríamos aqui diante da empatia. Aqueles que pensam gozar de uma excessiva felicidade, são propensos ao descomedimento, por terem todos os bens a sua disposição, acreditam não serem suscetíveis de sofrerem mal algum. Não pensam que o estado de vulnerabilidade a todo tipo de dano é inerente a todos os indivíduos, humanos e não-humanos. Do outro lado, temos os indiferentes com o sofrimento alheio por terem sofrido um mal tão intenso que não se comovem mais, são incapazes de se compadecer.
Leon denis - educação vegana

A Responsabilidade

Em sua Ética Nicomaqueia, Aristóteles diz que somos responsáveis por nossas más ações, tanto quanto pelas boas. Jean-Paul Sartre em seu O existencialismo é um humanismo, dirá algo parecido. Seria a responsabilidade uma virtude? Seria ela uma excelência moral como a Justiça e a Temperança? Se tomarmos a virtude como um hábito ou disposição racional de escolher por deliberação, a responsabilidade, por nossas ações e omissões, é sim uma excelência moral. Quando se trata da causa animalista os DDAs e, em especial os educadores veganos, deveriam ser as pessoas guiadas por um desejo deliberado, qual seja: o de considerar igualmente interesses semelhantes aplicando assim a justiça a animais humanos e não-humanos.
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A Simplicidade

Vivemos em um país onde a livrofobia e a epistemefobia são os pilares da cultura. Nunca fomos exemplo de um povo habituado a leitura, aos estudos minuciosos, pelo contrário, as escolas públicas são os locais por excelência da criação de traumas nos futuros leitores. Poucos são os alunos que saem da escola com gosto pela leitura, pelos estudos. A maioria nunca foi estimulada de forma prazerosa a frequentar uma biblioteca, a estudar pelo simples prazer de se enriquecer culturalmente. A falta de hábito de leitura nos nossos adolescentes é um fator que muito prejudica no ensino dos direitos animais nas escolas. Se não lêem nem a literatura infanto-juvenil, o que dirá de obras e artigos de direitos animais, que são recheadas de argumentos de vários campos do conhecimento como: Filosofia, Etologia, Direito, Historia, Lógica, Neurociência, Nutrição, entre outros.
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A Amabilidade

O que é a amabilidade (praotés) para um grego da antiguidade? Acredito que o mesmo para nós atualmente: o contrário da violência, o antagonismo da dureza e da guerra. Praotés em grego também é mansidão, brandura. A amabilidade designa a gentileza dos modos, a benevolência que garantimos para com o outro, humano ou não-humano. Em relação aos infortúnios dos vulneráveis, ela manifesta-se aproximando da generosidade ou da bondade. Uma disposição a receber o outro (seja da nossa espécie ou não, seja do mesmo sexo ou não, da mesma etnia ou não) como alguém a quem queremos bem.
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A Veracidade

Em sua Ética Nicomaquéia, Aristóteles nos apresenta as virtudes e os vícios a elas correspondentes. Em relação à verdade, o filósofo diz que: “o caráter intermediário pode ser chamado de veraz, e o meio termo de veracidade, o gosto do exagero é jactância, e a pessoa caracterizada por está é jactanciosa; na forma reticente, a pessoa neste caso é caracterizada pela falsa modéstia”. A veracidade é a virtude da dedicação amorosa à verdade. Como seu objeto é a verdade, ela é uma virtude aletheiogal, em oposição às virtudes teologais.
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A Fidelidade

A fidelidade é a virtude de memória, é uma lembrança virtuosa. A fidelidade a defesa ética dos animais não-humanos nos pede para não fazermos tábua rasa do passado. Alguns pensadores afirmam que toda a dignidade do ser humano está no pensamento e, que toda a dignidade do pensamento se encontra na memória. Daí que pensamento esquecidiço ainda é pensamento, mas lhe falta espirito. Do mesmo modo, desejo esquecidiço é desejo, disso não duvidamos, mas sem vontade, sem coração, sem alma.
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A Justiça

É corriqueiro no meio animalista ouvirmos que a defesa dos animais não-humanos contra o especismo é uma questão de justiça social. Isso significa que o especismo é uma ação injusta? Tratar os outros animais como coisas, produtos, bens de consumo é praticar injustiça? Sim. Diante da avalanche de obras da chamada Ética Animal nas últimas décadas, está mais que patente que tratar indivíduos com interesses semelhantes de forma dessemelhante é injusto.