segunda-feira, julho 6, 2020
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Olhar Literário

Apesar da formação jurídica tradicional, o autor gosta de enveredar pelos caminhos libertários da arte.

OLHAR LITERÁRIO

Pernilongos

Que calor dos diabos faz na terra onde vive minha querida família. Apesar de não ser muito longe de São Paulo, pasmem, há uma diferença acentuada de temperatura.
OLHAR LITERÁRIO

Coração selvagem

O cantor do exílio, poeta e compositor latino americano que se tornou símbolo de toda uma geração, agora é um mito. Refugiado perpétuo do...
OLHAR LITERÁRIO - LAERTE LEVAI

Sem face

Diante do portão entreaberto, após longa ausência de casa, ele hesita. Tocar a campainha e permanecer na calçada até que alguém venha recebê-lo? Ou propalar aos quatro ventos que está voltando? Não, melhor mesmo é entrar discretamente, para não desfazer a surpresa. Do quintal dos fundos o cão logo aparece, abanando o rabo como se saudasse um velho conhecido. Depois da recepção calorosa, com direito a patinhas na calça e lambidas nas mãos, o homem vai em frente.
OLHAR LITERÁRIO - LAERTE LEVAI

Aves canoras

Não sei exatamente porque a música, talvez mais do que a poesia, acompanha a gente por toda vida, variando de acordo com o momento vivido e a nossa autoconsciência. Sem querer ser saudosista, digo que as canções daquela época inocente embalada por conjuntos como Light Reflections, The Hollies, Wings, Novos Baianos ou Boca Livre nunca se apagaram em mim. Mais que isso, elas tornaram-se parte da minha educação sentimental e por vezes retornam para dizer, como fez Borges na maturidade dos anos, que "somos nosso passado".
Olhar literário - laerte levai

Reflexos de luz

Prometi uma crônica poética de fim de ano e ainda estou aqui folheando, a esmo, este maldito pergaminho de Física que tanto me atormentava em tempos idos. Vejam só que curioso... Num trecho da apostila está escrito que o fenômeno da reflexão consiste no ato de a luz voltar a se propagar no meio de origem, após incidir sobre um objeto ou superfície lisa. Usada na projeção de imagens tridimensionais - prossegue a lição - essa técnica se aplica na construção dos espelhos e, também, nos sistemas de lentes dos telescópios. Décadas depois do colegial eu continuo sem entender nada. Para mim a capacidade de ver a própria imagem refletida ou o fragmento vivo do universo desconhecido que pulsa acima das nossas cabeças ainda causa uma sensação de perplexidade.
Olhar literário - laerte levai

A cruz

Deve ser Natal. Na noite que se extingue ainda dá pra ver as luzinhas pulsantes da cidade ao longe. Aos primeiros clarões da manhã percorro, com os olhos da imaginação, o cenário urbano embriagado pelo vinho amargo da véspera. Logo avisto a torre da Igreja e, maior do que ela, aquele pinheiro ornamentado com bolas vermelhas e uma estrela de prata pousada lá no alto. Na praça do espetáculo os sinos do campanário não resistiram ao carro de som cujo rumor pude ouvir aqui da estrada, a quilômetros e quilômetros de distância. Era gente a beber, gente a dançar, gente a comer até cair. Como diria um velho poeta quase esquecido, “tempo sagrado num espaço profano”.
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Arenas

Há quase dois mil anos, em Roma Antiga, as diversões mais populares ocorriam dentro do Coliseu. Esta grandiosa arena de espetáculos, cuja estrutura sobreviveu ao tempo e ainda hoje pode ser vista, quase inteira, foi um local de crueldade explicita. Historiadores contam que ali se promovia luta entre gladiadores, martírio de cristãos, execução pública de prisioneiros e desertores, da mesma forma que se protagonizavam caçadas a animais trazidos da África e contendas mortais entre bichos exóticos de espécies diferentes. Centenas de touros, ursos, leões, tigres, cavalos, girafas, rinocerontes, javalis, camelos e crocodilos perderam a vida, barbaramente, nesses eventos registrados em alguns bestiários. Tudo com muito sangue e areia, bem ao gosto da política imperial do pão e circo. O aspecto mais curioso a mover o povo daquele tempo era o inegável grau de sadismo que atraía multidões aos estádios.
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Analogias

Perpetuidade deveria ser uma palavra proibida. Sem pretender aqui subverter as normas da etimologia ou da semântica, a ideia contida naquele vocábulo – a bem da verdade - soa como coisa impossível de acontecer. Porque nada é permanente. Nada e ninguém. Embora pensemos, embora queiramos, não o somos. Nem a imagem sorridente na moldura do quadro, protegida pelo vidro, sobrevive à voragem do pó. Sim, de vez em quando é preciso passar um paninho para ver quem está ali.
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Cristina Beckert

O Jornal de Letras, de Portugal, deu em sua edição de julho a triste notícia da morte da filósofa Cristina Beckert, uma das maiores pensadoras contemporâneas da causa animal. Sempre atenta às questões éticas e seu alcance prático, referida docente lusitana criou em 1995, no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, um núcleo de estudos voltado à Filosofia da Natureza e ao Ambiente, trazendo assim os ecossistemas e todas as criaturas para seara das nossas preocupações morais. Sua contribuição acadêmica, no Departamento de Filosofia, foi marcada pela coordenação de numerosos projetos de pesquisa e pela organização de conferências e colóquios sobre o tema da Ética Ambiental.
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O Espelho

Estudos de comportamento animal revelaram, há tempos, que alguns primatas - chimpanzés, bonobos e orangotangos, por exemplo - têm a capacidade de se reconhecer no espelho, o que seria uma prova de autoconsciência. Golfinhos e elefantes também passaram nesse teste, após identificar no vidro refletor a imagem perfeita de si.
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Visão difusa

Parece que foi ontem aquela manhã nebulosa em que abri o jornal e só consegui ler as manchetes. Não era indisposição de noite mal dormida nem terçol coisa nenhuma, o fato é que ali minha visão começou a se tornar declaradamente avessa a certos tipos gráficos, especialmente textos com letrinhas, bulas de remédio e ingredientes de produtos alimentícios.
Olhar literário - laerte levai

Conto (quase triste) de natal

Eis que chego a São Paulo, mais uma vez, para me perder nas avenidas vertiginosas de seus descaminhos tantos. É um trafegar de um lado para outro, nesse labirinto vivo que se torna a própria pulsação da cidade-ciclope. Em dezembro parece que tudo se agrava, qual alarme do fim do mundo, o rumor das máquinas, a multidão de carros, os apelos natalinos, as nossas inquietações. Logo no início da marginal do Tietê, vindo da via Dutra, é impossível não ver aquele boneco vermelho gigantesco, inflado em seu monstruoso apetite de não sei o que, anunciando sua presença soberana a quilômetros e quilômetros de distância. Tento não desviar o olhar, concentrando-me na pista que acompanha o rio que um dia foi rio, mas é inútil.