quarta-feira, agosto 5, 2020

Direitos Animais

Bruno Frederico Müller – Historiador, doutorando em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tradutor inglês-português, português-inglês. Co-editor e colaborador da Revista Eletrônica de Direitos Animais Pensata Animal. Vegano e ativista independente desde 2007, ministra palestras e faz ações de conscientização em prol do veganismo e direitos animais na cidade do Rio de Janeiro.

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Direitos animais – Bruno Müller

Ética e ateísmo

Certa vez conheci uma pessoa que me disse que, ao saber que eu era ateu, sentiu-se receosa, mas que, com o tempo, percebeu que apesar disso eu era uma pessoa boa – como se o ateísmo fosse um entrave para o desenvolvimento ético de um ser humano. No entanto, essa mesma pessoa era perversa, manipuladora, mentirosa, arrogante – para resumir, uma hipócrita. Com o tempo, entendi que não havia uma contradição em sua personalidade. Não que pessoas religiosas sejam necessariamente hipócritas, mas aquelas mais fanáticas e que se consideram ungidos de uma missão divina, como era o caso dela, frequentemente o são, mesmo sem se dar conta. Isso porque é necessária uma boa dose de arrogância para acreditar conhecer os segredos do universo, ter “linha direta” com um deus e sentir-se apto a revelar – impor – esses segredos aos demais.
Direitos animais – Bruno Müller

Viver a mudança: os fins e os meios

Viver a mudança na prática, ter uma conduta de vida coerente com nossos valores e princípios, não é apenas “um” dentre muitos caminhos possíveis – é a pedra fundamental, a base de toda transformação real. Sendo fundamental para se alcançar qualquer objetivo, a coerência é o caminho mais lógico e mais correto. Porém, e aqui reside o “problema”, nem sempre o caminho correto é o mais fácil e mais rápido de ser percorrido. Mas nunca deixará, por isso, de ser o caminho correto. Nós que lutamos por um mundo melhor, portanto, não temos outra opção.
Direitos animais – Bruno Müller

A metáfora do atavismo e a exploração animal

Evolução, na biologia, significa a mudança qualitativa pela qual as espécies vivas se transformam ao longo do tempo, dando origem a outras espécies. Segundo a teoria darwinista, a evolução se dá pela seleção natural, o que significa que mudanças genéticas aleatórias modificam as características dos seres vivos; a interação com o meio ambiente, em que determinadas características que favorecem a sobrevivência de seus portadores, leva a que tal mudança genética seja perpetuada nas gerações futuras, até que os “menos aptos” se extingam. No entanto, discute-se se o ser humano, por sua capacidade altamente desenvolvida de interferir e transformar a natureza, não poderia também interferir na própria evolução. Nesse caso, poderíamos falar numa evolução social que interferiria na evolução natural ou biológica.
Abolicionismo animal – Bruno Müller

Traçando o limite

No último domingo, 27 de setembro de 2009, a Folha de São Paulo publicou matéria de duas páginas sobre abate humanitário e bem-estar animal. O que ela revela sobre o bem estarismo? O que um defensor dos animais deve dizer sobre o abate humanitário?
Direitos Animais – Bruno Müller

A Frente de Libertação Animal e os (Des)Caminhos do Movimento pelos Direitos Animais no Brasil – Parte I

No dia 30 de março de 2009 foi lançado um comunicado à imprensa, declarando que o incêndio ocorrido no dia 21 de março de 2009 numa das fábricas da Perdigão foi, na verdade, um ato de sabotagem da Frente de Libertação Animal (ALF, na sigla em inglês). Não houve confirmação do fato, de modo que não se pode dizer até que ponto ele é verdadeiro. Mas, se foi mesmo um ato de um grupo de defesa dos animais, ele foi mal concebido, mal planejado, um absoluto desperdício de tempo, dinheiro e energia e um ato totalmente incoerente com os princípios dos Direitos Animais.
Direitos Animais – Bruno Müller

A Frente de Libertação Animal e os (Des)Caminhos do Movimento pelos Direitos Animais no Brasil – Parte II

Mais do que não ter trazido nenhuma vitória parcial para o movimento, tal ação pode ter sido extremamente danosa para sua expansão no contexto brasileiro, especialmente se servir de inspiração para outras ações igualmente precipitadas e impensadas.
Direitos Animais – Bruno Müller

A Frente de Libertação Animal e os (Des)Caminhos do Movimento pelos Direitos Animais no Brasil – Parte Final

Só se pode concluir que, se for verdadeira a alegação de que o incêndio na fábrica da Perdigão foi sabotagem, tal ação foi um total equívoco para o movimento dos direitos animais no Brasil:
Direitos animais – Bruno Müller

Da autoconsciência e da senciência – Parte 2

Um dos autores que se dispuseram a contestar as teses de Peter Singer sobre a autoconsciência e o princípio da igual consideração de interesses foi o advogado norte-americano Gary Francione, um dos expoentes do pensamento abolicionista. Francione ressalta que a autoconsciência, junto com a racionalidade e a linguagem, já era usada como critério para distinguir animais humanos e não humanos desde a filosofia clássica e moderna. Desse modo, a filosofia de Singer sequer pode ser descrita como paradigmática. A premissa singeriana de que os animais não se importam com a vida, mas sim com a forma como são tratados, também já está presente nos primeiros filósofos utilitaristas, como Jeremy Bentham. Decano do bem-estarismo, Bentham afirmava que o problema não é o uso de animais em si, mas a forma (cruel ou benevolente) como os usamos.
Direitos animais – Bruno Müller

Da autoconsciência e da senciência – Parte 1

Que animais sentem dor e são dotados, em diferentes graus, de senciência, é uma questão virtualmente consensual entre estudiosos e debatedores da questão animal. Uma outra questão, bem mais controversa, diz respeito à existência de autoconsciência e o papel que esta exerce na atribuição de direitos aos animais. Neste debate evidencia-se como em muitas circunstâncias o bem-estarismo está muito mais próximo do onivorismo que do abolicionismo, e acaba por fim servindo como força auxiliar do onivorismo, em vez de contribuir, como eles alegam, como uma via realista, reformista, incremental para a abolição da exploração animal.
Direitos animais – Bruno Müller

Um vegano deve usar remédios?

Todos sabemos que o princípio básico do veganismo é o boicote aos frutos da exploração animal. Também sabemos que todos os medicamentos disponibilizados no nosso país são testados em animais. Veganos, aspirantes a veganos e onívoros, portanto, fatalmente colocam esta pergunta, com objetivos diferentes: um vegano deve usar remédios? Veganos e aspirantes muitas vezes as colocam por se sentir diante de um dilema moral. Onívoros, com o objetivo de apontar outro tipo de dilema: entre a hipocrisia do vegano que se permite usar medicamentos e o radicalismo suicida daquele que se recusa a fazê-lo.
Direitos animais – Bruno Müller

Libertação em Movimento – Parte 2

No texto anterior, argumentei que as dificuldades contemporâneas que os veganos encontram, cotidianamente, para divulgar sua filosofia de vida e mesmo poderem ser totalmente coerentes com ela são momentâneos e que, na mesma medida que o veganismo se expande, abre-se espaço para um debate sobre a total e definitiva abolição da exploração animal.
Direitos animais – Bruno Müller

Libertação em Movimento – Parte 1

Hoje gostaria de falar sobre outro aspecto das críticas dos defensores da exploração animal: a suposta impossibilidade de se alcançar a abolição da exploração animal, o irrealismo e o ridículo de nossos objetivos. Geralmente esse raciocínio se desdobra nos seguintes argumentos: 1. A imensa maioria das pessoas não está disposta a se tornar vegana; 2. O que nós fazemos não passa de ilusão – nunca poderemos alcançar um estágio de abolição porque simplesmente é 'impossível' acabar com a exploração animal: ela está em todos os lugares; 3. Sendo impossível, inviável e utópico alcançar a abolição, o mais lógico, o mais prático e mais 'coerente' (na visão deles) para os defensores dos animais seria defender medidas de bem-estar: prover conforto e saúde, administrar anestésicos, abater 'humanitariamente' etc.