Mortandade alta

Mais da metade dos cães resgatados de carro na Bahia morreram após maus-tratos

Por se tratar de cães explorados para venda, o caso reforça a necessidade de não tratar animais como mercadorias, optando pela adoção ao invés da compra

(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Mais da metade dos cachorros resgatados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em um carro na Bahia não resistiram às condições inadequadas as quais foram submetidos e morreram. Dos 66 filhotes da raça shih-tzu, quatro morreram nas mãos das pessoas que os exploraram para venda, dois morreram durante internação em Itaberaba, sete em Juazeiro e 15 em Salvador. Outros nove não foram encontrados e, por isso, não puderam ser resgatados – a suspeita, porém, é que também tenham morrido. Ao todo, pelo menos 36 animais não teriam resistido aos maus-tratos. Os sobreviventes permanecem em tratamento.

Os filhotes que sobreviveram estão sob a tutela do Instituto Patruska Barreiro. O responsável pela instituição, que leva seu nome, acredita que os cães que não foram encontrados também morreram devido aos maus-tratos que sofreram.

Donos de pet shops que compraram os animais chegaram a receber 36 deles, mas tiveram que devolvê-los após o Ministério Público acionar a Justiça. Na última semana, outros quatro shih-tzus foram resgatados em Feira de Santana – a suspeita é que a rota seja usada frequentemente para a prática de crimes contra animais explorados para venda.

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O resgate dos 66 filhotes transportados nos bancos e no porta-malas de um veículo foi o maior que Patruska Barreiro acompanhou em 25 anos de ativismo pelos animais. “Na sexta-feira houve denúncia de mais filhotes em Feira de Santana, que devem vir da mesma rota de comércio ilegal. Eu fui buscar mais quatro filhotes. O estado desses filhotes dá vontade de sentar no chão com eles no colo e chorar, mas eu preciso controlar o emocional nessas horas porque precisamos fazer com que esses crimes sejam registrados e a justiça seja feita”, afirmou o ativista ao jornal Correio 24 Horas.

A alta mortandade desses animais, segundo especialistas, está relacionada aos maus-tratos aos quais foram submetidos. “Quando esses animais nascem, o sistema imune deles está desprovido de defesa. Então, o estado como eles foram transportados gera um estresse, o fato de terem sido muito precocemente retirados de perto da mãe, tudo isso deu mais vulnerabilidade a eles, que não devem nem ter se alimentado. Isso tudo vai impactando um sistema imune que já não é eficiente”, explicou médica veterinária e doutora em ciências veterinárias Larissa Duarte, uma das profissionais que atendeu os cães.

“Diante de uma alta mortalidade como essa, a gente também desconfia que a qualidade do aleitamento desses animais, em virtude de condições provavelmente muito ruins que as mães estavam, não é boa. O leite é o que protege o filhote antes da vacinação, é o que protege o animal temporariamente até que eles sejam vacinados”, completou.

Especialistas reforçam ainda que os filhotes não podem ser separados da mãe antes da sexta semana de vida, quando a vacinação é iniciada. A suspeita é que os shih-tzus tenham sido retirados das cadelas antes de completar um mês de vida. O transporte também deve ser feito com cautela e em um ambiente adequado.

“O ideal é que a cada duas ou três horas o condutor pare e veja como está o animal. Isso com certeza não aconteceu com esses, que estavam aglomerados. Uma caixa que tem espaço para um cão estava com quatro ou cinco animais”, explicou o médico veterinário e conselheiro do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (CRMV- BA), João Maurício Andrade.

No caso dos shih-tzus resgatados, as mortes foram causadas pela cinomose e pela parvovirose. “São doenças virais que não têm tratamento específico, um medicamento específico e acaba variando muito da resistência do animal. É um vírus, como o coronavírus para humanos. Tem gente que pega o vírus e não desenvolve a forma mais grave da doença. Vai ser a mesma coisas com os animais para essas doenças, mas os filhotes são grupo de risco”, disse Andrade.

Larissa lembrou ainda que os cachorros já estavam doentes quando foram resgatados e que, por isso, o tratamento pode ter sido iniciado de maneira tardia, já que eles não receberam cuidados por parte das pessoas que eram responsáveis por eles antes do resgate. “São dois vírus muito agressivos para os filhotes, e a possibilidade de escapar já não é tão alta. Em animais que tem um histórico de estresse e com um sistema imune debilitado, fica ainda mais difícil de salvar”, comentou.

“É preciso chamar atenção para essa compra de animais de raça. São animais que muitas vezes vem de criadouros ilegais em que as condições básicas de saúde e sanitárias não são respeitadas”, acrescentou.


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