Futuro

Mudanças climáticas e pandemias podem transformar nossas cidades

As emergências existenciais que enfrentamos exigem uma reinvenção total de como vivemos, trabalhamos e nos divertimos em espaços urbanos

Pixabay
Pixabay

É comum dizermos que estamos vivendo um momento sem precedentes. Mas nos centros das cidades, a crise do coronavírus apenas acelerou as tendências que já vinham se desenrolando há algum tempo. Em Leeds, onde moro, diversos bancos grandes e empresas de construção, cinemas, comércios e lojas de departamento foram prejudicadas ou desapareceram com a mudança da sociedade para o meio online. A pandemia fez com que o mercado de trabalho se contraísse e que muito mais pessoas trabalhassem em casa. Mas nas cidades de todo o país, os espaços de escritórios tradicionais estão sendo reduzidos há muito tempo, à medida que a tecnologia diminui a necessidade de contato pessoal, um número crescente de autônomos opta por espaços de coworking. Na verdade, a ideia de um prédio de escritórios tem apenas 200 anos; antes dos escritórios, muitas pessoas moravam no mesmo lugar em que era seu local de trabalho.

Apesar do “boom” econômico que algumas cidades do Reino Unido experimentaram nos últimos 20 anos, o centro de Leeds, como muitos outros centros urbanos, ainda não se recuperou da desindustrialização. Salões de bancos desocupados forneceram espaços glamourosos para bares e restaurantes em áreas de renovação; e as moradias voltaram para o centro, embora na forma limitada de pequenos apartamentos e acomodações estudantis mal projetadas. Mas a tendência contínua do “meanwhile use” (“uso temporário” – em tradução livre) e amplos estacionamentos térreos pela cidade são evidências de que a oferta ainda excede a demanda.

O coronavírus acelerou esses processos, mas eles não são novos. A cidade de Leeds também não é principiante em lidar com pandemias; a gripe espanhola de 1918, que infectou uma em cada três pessoas na cidade, sobrecarregou seus hospitais, fechou suas escolas e levou a escassez de coveiros. As novidades sobre a Covid-19 são que ela coincide com outra crise – a emergência climática – e que fizemos avanços tecnológicos extraordinários desde 1918.

FAÇA PARTE DO #DiaDeDoarAgora EM 5 DE MAIO

Os centros das cidades irão sofrer a curto prazo com os efeitos da pandemia e um grande número de trabalhadores ficará desempregado. Isso é uma tragédia, mas também é um incentivo para planejar soluções de médio e longo prazo. No passado, os desastres foram a base para o progresso social, principalmente na criação do Serviço Nacional de Saúde em 1948. E o que é positivo para lidar com os impactos da Covid-19 também é positivo para lidar com os impactos das mudanças climáticas.

O trabalho para mitigação e adaptação climática preparou o caminho para entender como os centros de nossas cidades deveriam mudar e forneceu as tecnologias para tornar isso possível. Em Leeds, a pandemia de Covid-19 deve ser uma oportunidade para acelerar o que já foi planejado para lidar com a emergência climática, como a instalação de uma rede de ciclismo no centro da cidade – que se conecta aos bairros vizinhos – e o engajamento da comunidade no plantio de 1 milhão de árvores.

Esta infraestrutura verde é crucial para a biodiversidade, para o sequestro de carbono, para a gestão de recursos hídricos, resfriamento de temperatura e qualidade de vida. É o primeiro passo para remodelar os nossos ambientes urbanos como uma “cidade de 15 minutos”, um conceito promovido pela primeira vez em Paris, que visa fornecer todos os serviços necessários à saúde e bem-estar dos seus residentes num raio de 15 minutos a pé. No passado, a infraestrutura verde também foi uma resposta às preocupações da saúde pública: O Central Park, em Nova Iorque, foi desenvolvido após um surto prolongado de cólera e o Victoria Park, no leste de Londres, o primeiro parque construído para esse fim na cidade, foi inaugurado como uma resposta às condições insalubres, superlotação e poluição no East End (bairro da cidade).

Mas temos de ir mais além. “Deveríamos estar usando o investimento público para construir uma rede de novos parques com playgrounds e centros esportivos e de lazer em locais subdesenvolvidos no centro da cidade”. Fornecer essa infraestrutura verde em nossos centros urbanos atrairia famílias para morar lá e obrigaria as empresas a segui-las. Claramente, haverá um lapso de tempo entre os efeitos imediatos do coronavírus e o cumprimento desses planos ousados. Mas estou otimista de que neste período veremos uma explosão de criatividade, do tipo que muitas vezes surge do colapso de sistemas ultrapassados.

O espaço vazio e barato pode atrair novos usuários e instituições, como aconteceu principalmente em Detroit após o fim de sua indústria automobilística. Nas cidades do Reino Unido, os espaços vazios de escritórios podem ser transformados em residências familiares modernas; a Park Square, em Leeds, uma bela área georgiana que foi adaptada para escritórios pôde retornar ao seu uso residencial original. Centros comerciais extintos podem se tornar locais para novas creches e centros comunitários. Nossa modernização motivada pelo coronavírus deve ser o trabalho de muitas mãos, um processo delicado de reconstrução de cidades para que sejam lugares duráveis, igualitários e sociáveis para viver e trabalhar, capazes de lidar com as “emergências gêmeas” da pandemia e da crise climática.

Irena Bauman é diretora da Bauman Lyons Architects, Leeds


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui