Sônia T. Felipe

Ética e abolicionismo

Na década de 1970, iniciou-se, nos círculos acadêmicos dos países de língua inglesa, um amplo debate em torno de questões éticas envolvendo animais não-humanos. Entre os proponentes estavam os filósofos Peter Singer, Tom Regan, Richard D. Ryder, entre outros. No Brasil, a discussão é recente, mas já temos um grande nome nessa área. Referência internacional, a Profa. Dra. Sônia T. Felipe é voz e pensamento ativos em ética animal.Nesta entrevista exclusiva concedida a Rafael Mendonça e Luciano Carlos Cunha para a Agência de Notícias de Direitos Animais, a professora Sônia Felipe, que é também colunista da ANDA, esclarece que “muitas pessoas chamam de ‘ético’ seu empenho em abolir o uso da carne e derivados de animais na alimentação, quando na verdade o fazem por razões afetivas. Nossos afetos não são éticos. Podemos ser altruístas de forma apenas animalesca (altruísmo parental, grupal ou de reciprocidade), sem alcançarmos o padrão ético do altruísmo, que objetiva realizar uma ação para o benefício daquele que a sofre. Se somos genuinamente éticos ao adotarmos o veganismo, então não podemos calar a boca e deixar que os outros simplesmente continuem a comer produtos de origem animal, porque se o objeto da minha ação ética é o benefício do animal, não estou sendo ética ao parar de fazer mal ao animal e ficar observando passivamente o mal que os outros continuam a fazer a ele. Isso é perversão, não é ética.”Ela explica, ainda, as diferenças entre a posição abolicionista e bem-estarista, e faz uma reflexão sobre se a esfera de inclusão de seres na comunidade moral estaciona nos animais ou deve ir além da inclusão destes.

ANDA – Quando e como teve contato com a questão do respeito pela vida animal? O que mais lhe interessou nesse debate?

Sônia T. Felipe – O primeiro contato é difícil de rastrear, pois desde a infância ouvi e li textos que defendiam que não devíamos maltratar os animais. Obviamente, esses textos da igreja católica jamais se referiam aos animais mortos para alimentação. Já na universidade, o que me despertou foi a questão da incoerência que sustentamos, ao defender que temos o direito de não sermos torturados nem mortos (fiz a graduação em filosofia durante os tempos duros da dita), e o direito de torturar e de matar. A par da descoberta dessa incoerência, vieram os conceitos de opressão, injustiça, desigualdade, discriminação, violência. Sempre me angustia e inquieta a questão da incoerência de um argumento que defende que temos de ser respeitados porque somos todos iguais, enquanto negligencia o outro, que tem exatamente a mesma característica que nos leva a declarar que devemos ser tratados com respeito, por exemplo, a capacidade de sofrer e sentir dor, ou de ser prejudicado com o abandono.

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ANDA – Como se desenvolveram seus estudos? Há dificuldade em pesquisar o tema no campo da Filosofia?

Sônia T. Felipe –
Na filosofia, estudei Pensamento Oriental, uma disciplina optativa, no Mestrado da PUC de Porto Alegre. Li alguns livros de Zen Budismo, nos quais era defendido o princípio da ahimsa, não-violência em atos, palavras e pensamentos, contra quaisquer seres sencientes, humanos e não-humanos. Isso foi por volta de 1978. Dez anos mais tarde, já finalizando o doutorado na Alemanha, acompanhei o debate das teses de Peter Singer, enquanto me ocupava da argumentação de Max Horkheimer sobre o que este entendia por fazer filosofia crítica e teoria crítica da moralidade contemporânea. Na mesma época comecei a estudar a obra do filósofo norte-americano John Rawls, defensor da justiça distributiva nos moldes contratualistas. A vida animal não está contemplada pela concepção da justiça de Rawls. Eu precisava fazer algo na filosofia e na academia para tirar do marasmo a ética antropocêntrica. Introduzi Peter Singer no Brasil, John Rawls, e, quando realizei meu pós-doutorado em Bioética, com recorte na ética animal, tive oportunidade de conhecer os argumentos de Tom Regan, Gary L. Francione, Steven M. Wise, Richard D. Ryder, Andrew Linzey e Humphry Primatt, em defesa dos direitos animais. Esses autores passaram a ser lidos e debatidos no Brasil, após o trabalho de análise e crítica de suas concepções realizado com meu pós-doutorado, que, é bom esclarecer, não recebeu apoio financeiro do CNPq, que julgou meu projeto “relevante para o país”, mas não concedeu um centavo para custear minhas despesas em Portugal, durante um ano.

ANDA – Quais são os argumentos para levar em consideração a vida de outros animais além dos humanos?

Sônia T. Felipe – O argumento mais abrangente foi elaborado pela primeira vez de forma sistemática por Humphry Primatt, num pequeno texto que recebeu o título The Duty of Mercy, publicado em Aberdeen, em 1776. Segundo ele, quando se age com ética não se pode discriminar os que vão ser afetados pelo que fazemos, alegando que têm uma aparência muito distinta da nossa, por exemplo, são peludos, ou têm cauda, andam sobre quatro patas, não falam, não choram, a concentração de melanina em sua pele é muito alta (racismo), o sistema reprodutivo não é o bom (machismo) etc. O que importa, quando queremos que nossa ação seja ética, é não causar dor e sofrimento àqueles que estão em volta e sofrerão desdobramentos sem poderem se defender deles. Esse argumento, o da igualdade, nos permite ampliar o círculo da moralidade, contemplando os interesses sencientes de seres até hoje discriminados por seu aspecto exterior, sua configuração biológica, psicológica e mental. Um segundo argumento, mais polêmico do que o da igualdade dos interesses sencientes, está baseado na idéia de que, se há um valor inerente que não deve ser destruído, então temos que instituir um direito para a proteção legal desse valor. Nessa perspectiva, a vida de qualquer animal é considerada em seu valor inerente, quer dizer, um valor que não depende de cálculos ou interesses de mercado, nem de afetos ou predileções humanas. A vida, para o animal, tem um valor inerente que não pode ser compensado nem deve ser destruído. Em conseqüência disso, os animais não podem mais ser considerados objetos à disposição dos interesses, caprichos e necessidades humanas. Os humanos têm inteligência suficiente para resolver seus problemas por outras vias, deixando em paz os animais.

ANDA – O debate sobre o abolicionismo e direitos animais é uma questão da esfera da ética prática. É freqüente a posição, tanto no senso comum quanto nos círculos acadêmicos, de que todo o debate em torno dessa e de qualquer outra questão da ética prática chega, no máximo, a um resultado que apresenta várias opiniões totalmente divergentes, porém igualmente plausíveis – “ética é totalmente subjetiva – eu tenho a minha e você tem a sua, e nenhuma é melhor do que a outra”, ou “ética depende de cada sociedade e de cada época”, dizem. Contudo, guiando todo o seu trabalho e o de outros filósofos da ética
prática, como Peter Singer, Tom Regan, Paul Taylor, Gary Francione, James Rachels, entre outros, está uma posição que parece ir de encontro a essa perspectiva, e que dá um papel fundamental à razão na formulação dos juízos éticos. Poderia comentar em que sentido a existência de um raciocínio ético vai de encontro à perspectiva de que a ética é subjetiva ou relativa, e comentar um pouco sobre os critérios essenciais que distinguiriam o raciocínio ético do raciocínio não-ético?

Sônia T. Felipe – Em primeiro lugar, é bom deixar claro que, se cada indivíduo tem uma perspectiva moral singular, isso não significa ainda que cada um tenha sua ética. Os dois termos devem ser distinguidos. A perspectiva moral de cada ser humano é realmente única. Embora tenhamos sido formatados numa determinada cultura com determinados padrões de valor, cada um de nós faz seu recorte e elege os valores que considera centrais para orientar suas decisões, abandonando outros dessa mesma tradição. Não fosse essa liberdade, ainda estariam os “patrões” dormindo na noite de núpcias com a mulher de seus “empregados” (o direito patronal à primeira noite), ou jogando humanos nas arenas circenses para serem devorados pelos leões. Bem, nossa capacidade para romper com a teia de valores de nossa cultura é imensa e poderosa. Graças a ela, podemos vislumbrar algum progresso humano. Mas, se dizemos que cada um tem uma ética própria e que ninguém deve questionar a ética do outro, então cometemos um erro conceitual grave, que tem levado muitas pessoas a desistirem de debater sobre qualquer das concepções éticas correntes. É certo que há mais de um modelo de ética, mas todos têm em comum a necessidade de se fundamentar em um princípio moral capaz de ser julgado válido por qualquer sujeito racional. Aqui acaba o relativismo ético. Quanto a haver mais de um modelo, ainda é preciso julgar, quando estamos diante de uma proposta ética, a abrangência da concepção. Se já conseguimos dar um passo à frente, abolindo práticas de violência e discriminação que antes atingiam certos sujeitos, adotar hoje um modelo de ética que nos faça regredir mentalmente, a ponto de condenarmos a escravização de certos seres sencientes mas admitirmos a escravização de outros, só confirma que estamos assumindo uma regra de moralidade dúbia e equivocada. Os modelos antropocêntrico, senciocêntrico e biocêntrico, na ética prática contemporânea, estão aí para serem avaliados em sua capacidade de atenderem à exigência de validade universal, serem genéricos e imparciais, sem esquecerem da finalidade última da ética, qual seja, produzir o bem para aqueles que sofrem a ação do sujeito moral, mas não podem se defender de seus malefícios. O senso ético é necessário exatamente quando interagimos em condições de desigualdade. Ele serve para nos proteger da nossa tendência de querer levar vantagem em tudo, sem pensar no mal que deixamos atrás de nós ao passarmos em nossa corrida voraz na busca de nossos interesses hedonistas. Nessa perspectiva, os três modelos não podem ser considerados “igualmente” bons. Alguns são mais restritivos, outros mais abrangentes. Se a ética está fundada na racionalidade, é preciso então escolher o modelo que nos possa redimir com maior abrangência dos erros morais passados. Certamente o modelo antropocêntrico não nos permite tal redenção moral. Ele é especista e elitista. O modelo senciocêntrico, por sua vez, restringe o dever direto de consideração a seres dotados de uma mente psicológica. No modelo biocêntrico de Taylor, incluem-se animais e plantas, mas somente os ainda não-manejados. Precisamos formular um outro modelo que não incorra em nenhum dos erros desses três. Mas não o faremos bem, jogando fora o que esses três conseguiram elaborar. Temos que ser críticos, mas não perdulários.

ANDA – Pode nos explicar qual a diferença entre a posição abolicionista e a bem-estarista?

Sônia T. Felipe – Os bem-estaristas geralmente são profissionais ou ativistas que não vêem saída para seus interesses (econômicos e afetivos), a não ser no sistema atual de confinamento dos animais ao habitat humano. Essas pessoas tendem, então, a buscar minimizar a dor e o sofrimento causados aos animais pelas práticas institucionalizadas de confinamento, manejo e convivência doméstica forçadas. Sua convicção é a de que os humanos “sempre” usaram os animais e “sempre” o farão. Leis bem-estaristas fazem pequenas correções nos grandes abusos praticados pelos seres humanos, nada mais que isso. O sistema continua a ser fomentado e, pode-se dizer, até respira aliviado a cada nova lei coibindo práticas de crueldade contra animais. Mas, com a posição bem-estarista, jamais se alcançará o fim de tais práticas. A prova evidente disso é a luta bem-estarista que tem mais de duzentos anos e não apenas não conseguiu abolir a prática de exploração danosa dos animais, como ajudou a incrementá-las, ao introduzir o sistema industrializado de produção de animais.
Os abolicionistas, por outro lado, têm uma concepção ética abrangente. Talvez se possa dizer que, em vez do princípio da igualdade dos interesses sencientes, defendido pelos bem-estaristas, os abolicionistas adotam a perspectiva da liberdade para todos os seres que, ao nascerem, têm sua fonte de provimento cortada e precisam, então, formar uma mente própria de sua espécie para darem cabo do movimento em busca do provimento. A disputa entre essas duas concepções parece, então, polarizar-se nos dois princípios fundamentais da política: igualdade e liberdade.

ANDA – No seu entender, qual a principal razão para se sustentar uma posição abolicionista quanto ao uso de animais não-humanos enquanto recursos dos humanos?

Sônia T. Felipe – Penso que o argumento mais plausível é o de que a vida de cada indivíduo tem finalidade própria. Nenhum ser vivo “nasce para servir a quaisquer propósitos alheios”. Muitos seres vivos são “forçados a nascer” para atender propósitos humanos. Mas o que os humanos fazem, ao manejarem a vida alheia, é destruir o sentido próprio dessa vida, o que não prova que essa vida não tem sentido próprio. Quando humanos escravizam outros humanos também afirmam que a vida desses não tem sentido próprio. Com a escravização dos animais o argumento é sempre o mesmo: “animais não têm sentido próprio, podem ser usados e mortos para fomento dos interesses humanos”. Não procede. Se o sentido da vida dos animais fosse servir interesses humanos, não poderíamos imaginar a vida animal antes de ter aparecido a humana sobre esse planeta. A vida de outras espécies antecede e sucede a humana. A posição abolicionista defende a tese da libertação final de toda forma de escravização da vida, humana e não-humana. Nessa perspectiva, os animais são vistos como “centro auto-orientado” da própria vida, conforme o defende Paul W. Taylor, em seu livro, Respect for Nature, e por isso não podem ser “objeto de propriedade”.

ANDA – Em todo o seu trabalho e também nos dos principais expoentes da ética animal há um forte apelo à coerência do agente moral nas suas decisões. Um argumento bastante presente é a analogia com decisões que tomamos no caso de humanos destituídos da posse plena da razão e as decisões que tomamos com relação a animais não-humanos. Poderia explicar qual o argumento presente nessa analogia? Haveria, no seu entender, limites nesse argumento? Se sim, quais?

Sônia T. Felipe – Temos que levar em conta que toda argumentação fundada na razão tem como característica, em primeiro lugar, a pressuposição de algo como “igual”, e, em segundo lugar, a “expansão” dessa igualdade para âmbitos ainda não considerados. Nesse sentido, quando se faz qualquer analogia, está-se apenas a exigir que não se corte o fluxo natural de um pensamento, quando esse é guiado por um princípio racional. Se afirmamos, por exemplo, que a dor é uma experiência intrinsecamente má (da perspectiva de quem a sofre, não de quem a causa no outro), então não podemos impedir nossa razão de seguir o argumento até o último caso da possibilidade da senciência. Se a dor é uma experiência má para aquele que a sofre, a maldade da dor não acaba quando chegamos à fronteira biológica da espécie humana. Temos que continuar o raciocínio, aplicando-o a todo e qualquer ser capaz de sentir dor e de sofrer. Por isso, afirmo que o apelo à coerência é o mais forte apelo à racionalidade humana na ética contemporânea. Por outro lado, ao nos permitirmos pensar a igualdade para além da fronteira da espécie humana, alargamos a área sobre a qual aplicamos os conceitos práticos da ética. Ao fazermos isso, damos um passo na direção do aprimoramento moral da humanidade, ainda que esse passo seja dado, no início, por uns poucos indivíduos. Todas as grandes transformações morais seguiram esse molde: no início, apenas uma cabeça percebendo o erro, depois algumas, mais adiante muitas e, por fim, todas percebendo claramente o erro da moralidade anterior. Isso não quer dizer que todos os que conseguem entender o raciocínio e o apelo à coerência consigam redefinir seus padrões de interação com outros humanos e animais não-humanos. Mas, daí, já saímos do âmbito da ética para o da sociologia, psicologia, antropologia, história, geografia etc.

ANDA – Uma das perguntas freqüentes colocada a todo defensor dos animais é “E as plantas?”. Poderia comentar por que o argumento “(1) se animais têm direitos, então plantas também têm; (2) logo, animais não têm direitos” não prova que animais não têm direitos ou merecem respeito?

Sônia T. Felipe – Se olharmos da perspectiva da singularidade de uma vida que traz em si a habilidade para replicar-se, autoprover-se, resistir ou adaptar-se às agressões ambientais e sociais; e, se considerarmos que, via de regra, tirar a vida de tais seres é algo desnecessário, embora possa resultar em lucro para os que o fazem, não há distinção, da perspectiva ética, entre tirar a vida de uma planta e tirar a vida de um animal ou mesmo de um humano. Sabemos que o argumento da alimentação não procede, pois conseguimos nos nutrir e manter a saúde, se cuidamos de comer uma certa diversidade de alimentos, frutos de origem vegetal (leguminosas, sementes, grãos, frutas, cereais), sem precisar matar os animais ou extrair produtos processados em seus organismos (leite, ovos, mel), nem destruir árvores, por exemplo. Ao comer uma cenoura, uma maçã, castanha, ou cereal, não destruímos organismos autônomos. Comemos o fruto deles. Ao matarmos um animal, destruímos seu organismo e a mente que se formou nele para poder autoprover-se. Embora uma espiga de milho também possa ser plantada para originar novos milharais, o grão do milho comido não tem uma mente, no sentido psicológico, que resulte do empenho dele próprio em manter-se vivo contornando as situações hostis à sua sobrevivência. Acho que a tese de que as “plantas têm direitos”, tanto quanto os têm os animais, pode ser plausível num futuro não muito distante. Estou aprofundando a reflexão sobre tal distinção e espero poder contribuir para o debate, logo, logo.

ANDA – Filósofos defensores da ética animal e da ética ambiental, Tom Regan e Paul Taylor, para citar apenas dois, parecem ter como centrais em suas perspectivas o conceito de valor inerente. Pode explicar a essência dessa idéia?

Sônia T. Felipe – O conceito de valor inerente está formulado sobre a tese de que há algo que não pode ser substituído, quando se trata da vida de seres que têm interesses, ou de seres em relação aos quais podemos dizer que algo é, ou não, de seu interesse. O conceito de interesse próprio dá sustentação à idéia de que, se há algo que o sujeito-de-uma-vida procura defender com toda sua inteligência (ainda que nem sempre o consiga), por exemplo, a própria vida, então estar vivo e o fazer de forma boa é, para aquele que vive, algo valioso. No conceito de valor inerente está pressuposta a igualdade do valor da vida, não da perspectiva externa à do vivente, mas de sua perspectiva interna na condição de alguém “sujeito à vida”, que, por sua sujeição, deve cuidar de si para continuar em vida. Regan usa o termo sujeito-de-uma-vida, distinguindo assim, alguém vivo de algo que tem energia vital, mas não de modo a poder manter-se vivo com autonomia biológica. Outro elemento do valor inerente é sua natureza insubstituível e incomensurável. Quando a vida é levada a efeito pelo esforço e empenho do ser que a vive, o valor de estar vivo, para esse ser, não pode ser comparado externamente com o valor de estar vivo para um outro ser qualquer. Ao admitirmos o valor inerente à vida, não podemos cometer o erro de sermos “especistas eletivos”, isto é, escolher algumas espécies de vida e atribuirmos valor a elas, e descurarmos das outras, dizendo que não têm qualquer valor, ou que têm menor valor. O valor inerente deve ser pensado sempre da perspectiva biocêntrica, isto quer dizer, da importância da vida para aquele ser que se empenha dia e noite por manter-se em vida. Enfim, todos os seres vivos nessa categoria têm igualdade moral, e em relação a eles se deve pensar em termos do direito de proteção à vida, sem especismos de qualquer tipo.

ANDA – Contrariando a mera tentativa de levantar a questão das plantas para tentar negar direitos aos animais (e às plantas também), alguns filósofos da ética prática, como Paul Taylor, Tom Regan e Kenneth Goodpaster, sobre os quais escreve freqüentemente, demonstraram uma preocupação realista em expandir o círculo moral para além dos animais. Parece também, em seus escritos, seguir nessa direção, de defender a possibilidade de atribuir valor inerente para além da existência consciente. Estariam os defensores do critério da senciência errando, ao limitarem a comunidade moral da maneira que o fazem?

Sônia T. Felipe – Errando, não diria. Digo que o esforço realizado pelos filósofos sencientistas foi relevante para que pudéssemos prosseguir com a mesma linha de raciocínio, à qual me referi acima, fundada sobre a idéia de uma igualdade para além da formatação exterior, e da expansividade inerente à natureza da própria razão. Abertura para o outro, sob a perspectiva da igualdade, essa é a linha do pensamento fundamental à ética genuína. Bem, se entendemos por valor inerente um valor que não vem de fora para dentro, do observador para o objeto avaliado, mas aquilo que se torna evidente pelo esforço peculiar de cada indivíduo vivo em manter-se vivo e bem, nos padrões de sua espécie de vida, então é preciso continuar o esforço genuíno de pensar uma ética sem discriminação especista elitista e eletiva. Isso nos levará a redefinir o estatuto não apenas dos animais sencientes, mas também das plantas. Em resumo, tirar a vida de uma planta só deveria ser justificável se não houvesse como abrandar os efeitos de sua presença nociva naquele ambiente. Já tiramos excessivamente a vida de plantas (devastação florestal) e de animais não-humanos. Está na hora de parar com a destruição e preservar o que ainda não foi manejado, conforme o defende Taylor. E, a par disso, começar a pensar de que modo poderíamos fazer “justiça restitutiva” a ecossistemas naturais que sofreram manejo, devolvendo-lhes as condições originais da biodiversidade. Por isso, questionar o estatuto de plantas e ecossistemas, além do de animais sencientes, faz parte da reflexão ética contemporânea, ainda que as pessoas que levantem a questão o façam para provocar os defensores dos animais. Ao zombarem dos animalistas, elas indicam sinceramente a tarefa que ainda está por fazer. Mas, para fazer isso, é preciso antes criar conceitos éticos apropriados para abordar a singularidade e peculiaridade da vida de vegetais. Estamos caminhando nessa direção.

ANDA – Dentro do próprio movimento em prol do vegetarianismo e veganismo, é comum vermos uma posição sustentada por muitas pessoas: “sou vegetariano/vegano por motivos éticos, mas não há erro algum se outras pessoas, que não eu, resolverem fazer uso dos animais”. Essa posição é ética?

Sônia T. Felipe – Veja, outra vez temos um erro nessa afirmação. Muitas pessoas chamam de “ético” seu empenho em abolir o uso da carne e derivados de animais na alimentação, quando, na verdade, o fazem por razões afetivas. Nossos afetos não são éticos. Podemos ser altruístas de forma apenas animalesca (altruísmo parental, grupal ou de reciprocidade), sem alcançarmos o padrão ético do altruísmo, que objetiva realizar uma ação para o benefício daquele que a sofre. Se somos genuinamente éticos ao adotarmos o veganismo, então não podemos calar a boca e deixar que os outros simplesmente continuem a comer produtos de origem animal, porque, se o objeto da minha ação ética é o benefício do animal, não estou sendo ética ao parar de fazer mal ao animal e ficar observando passivamente o mal que os outros continuam a fazer a ele. Isso é perversão, não é ética. Eu me julgo, então, “melhor”, “mais pura”, “mais compassiva” que os demais… e é como se precisasse que eles continuem a fazer o mal que fazem aos animais para que eu possa aparecer como boazinha para os animais. Essa posição é fútil, não útil à causa animal. Daí, porém, concluir que você deve falar do tema na hora que o outro está comendo o bife, é um equívoco. Devemos falar do tema em espaços públicos, criados por nós para o debate e abertos para todas as pessoas que têm interesse em aprofundar seu raciocínio sobre o assunto. Agredir a pessoa na hora que ela está comendo não adianta nada. Ela só fica com raiva de nós e resiste ainda mais em ouvir qualquer argumento em defesa dos animais, porque ela se sente atacada, em vez de sentir que está atacando os bichos.

ANDA – Que mudanças práticas nós, enquanto indivíduos, deveríamos adotar em nossa vida cotidiana se reconhecermos a necessidade de respeitar a vida dos animais?

Sônia T. Felipe – Acho que a primeira é admitir que a abolição de todas as formas institucionalizadas de maus-tratos, abuso, exploração e extermínio dos animais é uma tarefa ética para o resto de nossas biografias. Sem essa clareza não adianta ingressar no movimento, porque a luta é tão ampla e minuciosa que poderá levar a maioria a desistir de tudo. Em primeiro lugar, portanto, é preciso estar consciente de que essa revolução não se dá primeiro fora de nós, quer dizer, primeiro vamos exigir que os institutos de pesquisa parem de torturar animais em laboratórios, para depois pararmos de comê-los. Se não conseguimos testar em nossa biografia de que modo se poderia viver sem fazer uso de qualquer produto de origem animal, não enxergamos o quão difícil pode ser para os outros deixarem de usar animais em suas atividades regulares. Em segundo lugar, a abolição da escravização dos animais depende dos veganos e daqueles que simpatizam com a idéia da libertação animal. Somos nós que temos a responsabilidade de, através de movimentos políticos e de outras formas de intervenção não-violentas, criarmos substitutivos ao uso de animais em todos os segmentos da atividade econômica. Precisamos abolir o uso de animais em circos em nosso país, os zoológicos (é preciso criar finalmente os zoológicos virtuais), o uso da tração animal nas cidades e no campo (temos energia solar para gerar), o uso de restos de animais e produtos de suas glândulas para alimento humano e animal (temos suficiente comida de origem vegetal em nosso país), o uso de animais como modelo experimental (temos que refinar o método, criando sistemas matemáticos, de computador, e outras formas de verificação da toxicidade e letalidade de elementos químicos) e, sobretudo, temos que cultivar o princípio da não-violência contra quaisquer seres vivos.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei demais da abordagem da drª Sônia e gostaria de saber seu emal para comunicar-me com a mesma a respeito de seu pós-doutorado em Portugal. Estou bastante interessada em cursar doutorado em bióetica e gostaria, se possível que ela me indicassealguns livros, artigos voltados a área em questão e orientações a respeito de doutorado nesta área. Sou docente da saúde da UNCISAL-AL e sempre tive vontade de estudar a respeito da ética ecocentrica num doutorado, mas estou sem saber aonde fazer. Agradeço sua atenção
    Luiza

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