DESIGUALDADE

Negros de todas as classes sociais são mais expostos a fontes de poluição

Gabriela Souza | Redação ANDA

Estudos apontam que pessoas negras são desproporcionalmente afetadas por MP 2,5 na maior parte dos estados e áreas urbanas.


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Foto: Ilustração | Pixabay

Seja respirando a fumaça de fábricas e escapamento de caminhões em centros urbanos ou sufocando com poeira em estradas rurais, os negros enfrentam exposição a mais fontes de poluição atmosférica nocivas do que pessoas brancas, mostra um novo e abrangente estudo nacional.

Um grupo de pesquisadores ambientais de faculdades dos Estados Unidos buscou encontrar fontes de poluição do ar que contribuíam para a maior parte da disparidade racial. A esperança deles era de que as informações pudessem ajudar a moldar políticas para controlar essas fontes de poluição.

Mas, de acordo com Christopher Tessum, pesquisador da Universidade de Illinois e principal autor do estudo, a equipe foi surpreendida ao descobrir que o racismo se tornou muito mais difundido e sistêmico do que eles esperavam, e que as disparidades não seriam resolvidas apenas tratando alguns poucos tipos de poluidores.

“Nós estávamos esperando contar uma história de como poderíamos resolver o problema, mas o que descobrimos não era o que esperávamos”, disse Tessum.

Entre 85.000 a 200.000 mortes ocorridas nos Estados Unidos são atribuídas à poluição do ar por partículas finas (PM 2,5) a cada ano. Embora a nação tenha reduzido os níveis gerais de poluição do ar, ambientalistas permaneceram perplexos com o fato da carga de poluição do ar continuar caindo sobre linhas raciais nos Estados Unidos.

Ele diz que a vasta maioria de todos os tipos de fontes de poluição afeta pessoas negras mais profundamente do que a média – e essa afirmação se aplica à pessoas de todos os níveis de renda, tanto em ambientes rurais, quanto em urbanos.

Há muito se sabe que pessoas negras são mais afetadas pela poluição em geral, mas novas técnicas de dados permitiram aos pesquisadores desenvolver um modelo complexo de fontes de poluição do ar por MP 2,5 e acompanhar para onde o ar sujo viajava em âmbito nacional. Os pesquisadores descobriram que os negros foram desproporcionalmente afetados pela MP 2,5 em praticamente todos os estados e áreas urbanas.

O estudo analisou 14 tipos de fontes poluidoras, incluindo veículos leves, fábricas, construções, agricultura e caminhões a diesel, e descobriram que as minorias sofrem as consequências de quase todos eles. Houve apenas dois tipos de fontes de poluição que expuseram pessoas brancas mais do que a média: agricultura e geração de eletricidade movida a carvão.

As descobertas sugerem que os Estados Unidos precisam encontrar diferentes abordagens para lidar com a questão das disparidades raciais na exposição à poluição do ar, disse o pesquisador da Universidade de Washington Julian Marshall, coautor do estudo.

“Desde que a lei Clean Air foi aprovada em 1970, nós realmente despoluímos nosso ar,” disse ele – mas observou-se que, ainda assim, os negros respiram mais poluição do que o necessário.

Ele ainda diz que, embora seja benéfico enfrentar os problemas em cada bairro, “a natureza sistêmica de nossos resultados sugere que também é necessário haver alguma investigação nacional em todo o sistema”.

“Um dos alertas desse estudo é o quão profundamente enraizadas essas disparidades estão”, disse Joshua Apte da Universidade da Califórnia em Berkeley, outro coautor do estudo.

As descobertas não foram surpresa para a defensora da justiça ambiental do Norte da Califórnia, carinhosamente conhecida como “Srta. Margaret Gordon”.

Ela começou combatendo a poluição causada por caminhões a diesel, rodovias e plantas industriais em sua vizinhança no Oeste de Oakland, 30 anos atrás, após perceber que crianças de uma comunidade tradicionalmente negra tinham que armazenar inaladores para asma em cestas etiquetadas em sua escola primária. Ela também encontrou fuligem se acumulando nas paredes internas de sua própria casa, proveniente dos escapamentos de caminhões a diesel do Porto de Oakland.

Poluentes atmosféricos diminuíram na vizinhança desde então, disse ela, mas moradores desta área ainda tem uma maior probabilidade de sofrer com asma, problemas cardíacos e outros problemas de saúde decorrentes da poluição do ar, do que aqueles em outras partes da cidade. Gordon se diz espantada com o fato de moradias de baixa renda ainda estarem sendo construídas com janelas que se abrem para a rodovia, naquela parte da cidade.

“Essas pessoas vem morrendo pelos mesmos motivos por 50 anos e em 50 anos nós não encontramos uma solução,” disse Gordon, observando, em comparação, que a indústria levou menos de um ano para desenvolver uma vacina para o coronavírus. “Isso é um verdadeiro tapa em toda a humanidade”.

“Eu me comprometi a continuar lutando contra isso até não poder mais”, diz ela. “Aos 74, quanto tempo mais vocês acham que eu ainda tenho?”.

Mas o professor da Universidade do Sul do Texas, Robert Bullard, um dos pais do movimento pela justiça ambiental que escreveu 18 livros sobre o assunto em um período de 40 anos, diz que se sente esperançoso de que grandes mudanças finalmente estejam ocorrendo. Bullard acaba de ser nomeado para o novo Conselho Consultivo de Justiça Ambiental da Casa Branca do governo Biden, que, segundo ele, está elevando a urgência de abordar as disparidades raciais a um novo nível.

“Há 40 anos atrás justiça ambiental era a nota de rodapé, agora é a manchete,” disse Bullard. “Eu acredito que seja porque agora temos uma mobilização entre gerações e a consciência de que o racismo tem um papel importante em quem consegue respirar, tanto em termos de policiamento quanto em termos de proteção ambiental”.


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