RESPEITO À NATUREZA

Reflorestamento pode reduzir o risco do surgimento de doenças zoonóticas

Lucas Araujo Faro Correa | Redação ANDA


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Foto: Pixabay

Cientistas brasileiros descobriram que a transmissão do hantavírus, uma infecção mortal, poderia diminuir em 45% se o Brasil restaurar a Mata Atlântica aos níveis obrigatórios da Lei de Proteção da Vegetação Nativa.

O hantavírus, espalhado pelo contato com roedores infectados, pode se tornar mais predominante através do panorama de quando as florestas são derrubadas e a população de roedores aumenta como consequência.

Enquanto as simulações do estudo devem ser confirmadas por estudos de campo, a pesquisa inicial que mostra redução do risco de doenças zoonóticas através do reflorestamento mantém a promessa do estudo.

A pandemia de Covid-19 trouxe as doenças zoonóticas aos holofotes globais de uma maneira que nada alcançou o mesmo nível por um século, mesmo as zoonoses (doenças passadas entre humanos e animais) sempre sendo colocadas como ameaça à saúde pública. A pandemia do coronavírus, entretanto, nos forçou a confrontar a relação entre os humanos e a saúde ambiental e as consequências dolorosas do desmembramento dessa relação.

A pesquisa já ligou o desflorestamento ao aumento do risco de doenças zoonóticas, descobrindo que na medida que um habitat é perdido, as dinâmicas ecológicas não são mais adeptas como reguladoras da doenças. Mas o reflorestamento pode possivelmente nos proteger de doenças zoonóticas?

Possivelmente, diz um estudo recente dirigido por Paula Ribeiro Prist, uma pesquisadora da EcoHealth Alliance, uma organização não-governamental sediada em Nova York.

Simulações realizadas por Prist e seus colegas descobriram que restaurar a Mata Atlântica brasileira poderia reduzir a predominância da síndrome cardiopulmonar causada pelo hantavírus, uma doença zoonótica altamente letal, reduzindo a população de pequenos mamíferos que abrigam a doença. A equipe concluiu que, se as florestas forem restauradas aos níveis obrigatórios pela lei brasileira, a transmissão do hantavírus poderia reduzir em 45% na região mais populosa do Brasil.

Para ver o quanto o reflorestamento pode impactar na predominância das doenças zoonóticas, Prist e sua equipe obtiveram a vantagem de dados abundantes sobre os roedores de áreas, florestadas e desflorestadas, através do estado de São Paulo. A equipe usou estes números para estimar a prevalência do hantavírus num cenário sem mudanças contra um cenário com os níveis de reflorestamento obrigatórios da Lei De Proteção da Vegetação Nativa.

“Este foi o primeiro estudo que visou (doenças zoonóticas e restaurações) em áreas tropicais,” disse Prist, “e pelo menos até onde sabemos, o terceiro que liga doenças zoonóticas e restauração no mundo todo.”

A síndrome cardiopulmonar, ou hantavírus, é espalhada pela urina, fezes e saliva de roedores infectados. A transmissão aumenta quando a população de roedores de transmissores são grandes, e a densidade populacional é alta. As taxas ficam ainda mais altas quando a temperatura local aumenta, que acontece quando florestas são derrubadas.
O aumento da prevalência do hantavírus em roedores pode fazer com que surtos surjam em populações humanas próximas. Enquanto o hantavírus é altamente letal a humanos, ele dificilmente se espalha entre pessoas. Isso significa que, enquanto é improvável que comece uma pandemia global similar com a da Covid-19, o vírus ainda pode ser devastador em regiões locais.

As descobertas dos cientistas são adicionadas a uma lista crescente de incentivos para restaurar florestas, incluindo a Mata Atlântica.

O reflorestamento é um grande objetivo internacional pretendido para enfrentar as mudanças climáticas, salvar espécies, e melhorar a vida de comunidades dependentes das florestas, disse Matthew Fagan, um professor na Universidade de Maryland, e colegas em um artigo na Conservation Letters. O mais notável, o desafio de Bonn, iniciado pela Alemanha e pela União Internacional para Conservação da Natureza em 2011, que visa restaurar 350 milhões de hectares de floresta até 2030 por meio de compromissos voluntários pelos países participantes.

A Mata Atlântica brasileira é importante para o ecossistema global, com uma diversidade notavelmente alta e potencial grande para o armazenamento de carbono. A crescente pressão humana pelos séculos, entretanto, cobrou um preço. Antes da chegada dos europeus a 500 anos atrás, a Mata Atlântica cobriu mais de 150 milhões de hectares do que hoje é o leste do Brasil, uma área equivalente ao tamanho da Mongólia. Hoje, onde já foi a extensa Mata Atlântica, mantém mais de dois terços da população brasileira, incluindo as megacidades de São Paulo e Rio de Janeiro, e têm perdido mais de 90% da cobertura florestal original.

Enquanto a pesquisa de Prist e seus colegas descobre que o reflorestamento poderia ajudar a mitigar o hantavírus, o conservacionista Niall McCann diz que é mais complicado na prática.

“Ecossistemas intactos com dinâmicas de predador-presa estabelecidas naturalmente regulam o número de roedores e outras espécies que transmitem doenças com grande potencial zoonótico,” disse McCann, o diretor de conservação do National Park Rescue, presidente, por meio de sistema de rotação, na nova organização chamada EndPandemics. “É a complexidade desses sistemas que precisa ser protegida e restaurada, não apenas a cobertura com árvores.”

Mas mesmo com pesquisadores pedindo por mais restauração e proteção no combate de doenças, os líderes brasileiros têm retirado as proteções florestais.

“O ‘antigo código florestal’ … garantia a manutenção de florestas e outras formas de vegetações naturais em áreas consideradas fundamentais, como fontes e margens de rios”, disse Prist ao Mongabay, se referindo a legislação inovadora aprovada em 1965 que requisitava os donos de terra as preservarem uma certa porcentagem da floresta.

Em 2012, entretanto, trocas no poder político conduziram à introdução de um novo código florestal, a Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN). Embora a LPVN ainda obrigue a ter uma área mínima de vegetação nativa em terras privadas, isso enfraqueceu dramaticamente as diretrizes do antigo código florestal, permitindo o aumento do desmatamento.

A perda de florestas não é o único condutor possível de um aumento no risco de hantavírus. A mudança climática já pode estar piorando a situação. Um estudo de 2017 conduzido por Prist e publicado na revista Doenças Tropicais Negligenciadas encontrou pequenos aumentos na temperatura, mesmo sem o desmatamento de florestas, poderia colocar 30% a mais de risco de contrair a doença mortal.

Prist disse que eles visam validar suas descobertas com estudos de campo em sítios de restauração. Ele acrescentou que a equipe espera desenvolver um entendimento um pouco diferente de como comunidades de animais se reagrupam na medida que florestas são restauradas.

“Nós também queremos avaliar se a restauração teria o mesmo benefício com outras doenças zoonóticas aqui no Brasil, como a febre maculosa e febre amarela”, disse Prist ao Mongabay. “E qual seria a configuração mais adequada para panoramas restaurados para fornecer este serviço.”

A pandemia da Covid-19 tem mostrado o quanto é a participação de quando doenças saem dos animais para humanos por causa dos impactos em florestas e na fauna. Enquanto o risco de propagação de doenças zoonóticas nunca é zero, a questão da potencial redução do hantavírus de acordo com o reflorestamento no Brasil, mostra que comunidades e governos têm atuação em reduzir a probabilidade de ‘transbordar’.


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