MADAGASCAR

Crise climática condena um milhão de pessoas à fome e à morte

Beatriz Kaori | Redação ANDA

Segundo a ONU, a desnutrição aguda quase dobrou este ano e pessoas estão comendo cupins e argila


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Foto: Ilustração | Pixabay

A pior seca de Madagascar em 40 anos deixou mais de um milhão de pessoas enfrentando um ano de escassez de alimentos desesperadora.

O sul da ilha produzirá menos da metade de sua safra normal nos próximos meses devido às chuvas leves, prolongando uma crise de fome que já afeta metade da população da área do Grande Sud, estima a ONU.

O sul teve 50% de suas chuvas habituais durante a época de plantio de outubro, no seu quarto ano de seca.

Julie Reversé, coordenadora de emergência em Madagascar para os Médicos Sem Fronteiras, disse: “Sem chuva, eles não poderão retornar aos campos e alimentar suas famílias. E alguns não hesitam em dizer que é a morte que os espera, se a situação não mudar e não chover”.

De acordo com a Rede do Sistema de Alerta Antecipado contra a Fome, a maioria das famílias pobres depende da busca por alimentos silvestres e folhas que são difíceis de consumir e que podem ser perigosas para crianças e mulheres grávidas. Agências de ajuda relataram pessoas comendo cupins e misturando argila com tamarindo.

Reversé disse que violentas tempestades de areia (conhecidas como tiomena) em dezembro pioraram a situação por cobrir terras agrícolas e alimentos, como a fruta de cacto, que costuma ser consumida durante o período de escassez.

“A maioria das pessoas que vivem no sul de Madagascar dependem essencialmente de sua colheita para alimentação e renda. Devido à seca e à falta de chuva, as pessoas não conseguem cultivar o que costumam comer ou vender no mercado”, disse Reversé.

Jean-Louis Tovosoa, 52, pai de 15 filhos, mora nos arredores de Ambovombe, em Androy, região mais ao sul de Madagascar. Ele disse que a vida se tornou muito difícil. “Este ano, não temos nada para comer. Contamos com a providência de Deus para nossa sobrevivência. Também estamos pedindo ao governo que nos ajude. Se não, morreremos”, disse ele.

“Nos últimos cinco anos, as tiomenas têm se tornado cada vez mais frequentes. Elas têm afetado uma ampla gama de territórios. Não choveu nos últimos três anos. Por causa da seca persistente, ventos violentos varreram o solo bom para o cultivo. Eles mataram os cactos, que são vitais para nós em tempos de fome. Eles também destruíram plantações e mataram animais como zebus [gado], ovelhas e cabras.”

O Programa Mundial de Alimentos da ONU afirma que a desnutrição aguda em crianças com menos de cinco anos quase dobrou nos últimos quatro meses na maioria dos distritos do sul. Ambovombe possui as taxas mais altas.

Na sexta-feira, a Classificação da Fase de Segurança Alimentar Integrada (CIP), um órgão de várias agências que monitora a segurança alimentar global, emitiu um alerta de “deterioração contínua na insegurança alimentar no Grande Sul de Madagascar de abril a dezembro de 2021”.

Ele disse: “Mais de 1,1 milhão de pessoas sofrem com insegurança alimentar aguda devido à falta de chuvas, aumento dos preços dos alimentos e tempestades de areia. Espera-se que a temporada de escassez comece mais cedo do que o normal para este ano de consumo, já que as famílias esgotarão seus baixos estoques de alimentos devido à produção mínima.”

Voriandro Tiandrainy, 42, pai de quatro filhos do distrito de Toliara II, na costa oeste, disse que a seca deixou muitos agricultores incapazes de cultivar arroz. “Antes tínhamos um clima úmido. Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais seco. Os agricultores tiveram que abandonar o cultivo de arroz”, disse ele. Muitas pessoas agora comem apenas uma refeição por dia.

“Os pais também não podem pagar as taxas escolares de seus filhos. Além disso, uma nova doença afetou nossos zebus. Nunca conhecemos esta doença; matou de 10 a 20% do gado”.

Em resposta à crise, MSF começou a administrar uma clínica móvel no final de março e até agora tratou mais de 800 crianças com desnutrição, um terço das quais estavam em estado grave.

Reversé disse que a equipe de MSF também está percebendo outras doenças nas áreas em que trabalha, incluindo bilharzíaze (uma doença transmitida pela água causada por vermes parasitas), diarreia, malária e infecções respiratórias. Eles disseram que as doenças eram causadas pela desnutrição, bem como pela falta de água potável.

De acordo com a Agência de Alimentos da ONU, o número de pessoas que passam fome aumentou cerca de 85% no ano passado por causa dos efeitos cumulativos de anos de seca e as pessoas precisando vender gado e pertences para comprar comida.

As pessoas no Sul ainda estão enviando parentes para as cidades em busca de trabalho, mas com pouco sucesso porque a pandemia COVID-19 fechou pequenos negócios e acabou com o trabalho sazonal criado pela indústria do turismo, que proporcionava uma renda crucial.


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