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Governo do RS aprova edital de concessão de zoo que permite que animais sejam explorados em espetáculos

Mariana Dandara | Redação ANDA

A privatização de zoológicos é uma prática que gera preocupação aos ativistas pelos direitos animais, já que insere os animais em um contexto de maior exploração em nome do lucro


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Imagem ilustrativa de animal selvagem explorado em espetáculo circense (Foto: Divulgação/Circo Zanchettini)

O Governo do Rio Grande do Sul aprovou, na última terça-feira (20), o novo edital de concessão do Parque Zoológico de Sapucaia do Sul que permite que os animais sejam explorados em espetáculos, o que os colocaria em situação de exploração ainda maior do que a vivida atualmente. A previsão é de que o edital seja publicado no início de maio para que o recebimento dos e envelopes e a sessão de abertura ocorra em agosto, a convocação para assinar o contrato em setembro e a assinatura em dezembro.

A privatização de zoológicos é uma prática que gera preocupação aos ativistas pelos direitos animais, já que insere os animais em um contexto de maior exploração em nome do lucro. No caso dos espetáculos, os animais seriam submetidos a ainda mais estresse do que já vivenciam ao suportar o barulho dos visitantes que frequentam o zoo.

Se, de fato, a nova empresa que assumir a gestão do zoológico de Sapucaia do Sul envolver animais em shows para entreter o público, esses animais também sofrerão na ausência dos visitantes, já que terão que ser treinados para que possam participar dos espetáculos.

A Secretaria Extraordinária de Parcerias do Rio Grande do Sul informou ao jornal Correio do Povo que obras poderão ser feitas no local pela nova empresa que vier a assumir a gestão do parque, onde atualmente 1.213 animais silvestres vivem em condição de aprisionamento, privados da vida em liberdade e dos prazeres de desfrutar do próprio habitat.

A pasta afirmou ainda que o projeto do edital foi reestruturado em cima de três pilares e que o primeiro deles tem o objetivo de “aumentar a flexibilidade para que o gestor possa criar novas atrações, novas receitas”. A secretaria argumenta que as mudanças só poderão ser feitas se não prejudicarem “o bem-estar dos animais”, mas não considera que forçar um animal silvestre a participar de espetáculos é, por si só, interferir em seu bem-estar, que já está prejudicado pela manutenção em cativeiro para entretenimento humano – prova disso é que muitos animais presos em zoológicos desenvolvem comportamentos repetitivos característicos de estresse extremo.

“O investidor terá mais liberdade para criar fontes de receitas envolvendo os próprios animais. Como exemplo, a criação de show com aves, apresentações com leões, museu de répteis ou até mesmo a possibilidade de um safári (passeio de carro). Desta forma, criando atrações extras que podem ter uma cobrança adicional. Tudo isso, claro, com autorização prévia do Meio Ambiente. E as áreas para que isso possa acontecer já foram delimitadas”, afirmou a secretaria.

O segundo pilar proposto pelo edital é a criação de estabelecimentos às margens da BR-116, onde o zoo está localizado. Poderiam ser criadas lanchonetes, lojas e restaurantes para gerar mais receita. Esses estabelecimentos seriam usados por visitantes do parque e também por pessoas que estivessem passando pela rodovia, mas provavelmente atrairiam mais visitantes para o zoo, o que iria piorar a condição de estresse dos animais.

O terceiro pilar é a liberdade dada ao investidor para definir o valor do ingresso, com as únicas regras de que se respeite a lei da meia entrada e que se abra, em alguns dias da semana, “os portões para que os alunos da rede pública possam visitar o zoo gratuitamente”. Esse ponto valida mais uma vez os argumentos dos ativistas, que afirmam que os animais são aprisionados em zoológicos visando o lucro e, por isso, são tratados como objetos em exposição. No caso das regras estabelecidas, o incentivo à entrada de alunos de escolas no zoológico gera o risco de criar mais uma geração que normaliza o aprisionamento de animais para obtenção de lucro e entretenimento humano.

A concessão deve durar 30 anos, com um investimento mínimo de R$ 70 milhões. O último edital, lançado em agosto de 2019, foi encerrado em outubro do mesmo ano sem que nenhuma empresa se interessasse em gerir o parque.

Com o anúncio do lançamento do novo edital, a Prefeitura de Sapucaia do Sul se posicionou a favor de conceder a gestão do zoo à iniciativa privada. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente disse que espera “que o novo modelo de edital possa tornar o local mais atraente turisticamente, claro que respeitando as diretrizes técnicas e ambientais do local, além do respeito ao bem-estar animal”. A pasta afirmou ainda, em tom de orgulho, que “Sapucaia do Sul é conhecida em todo o Estado como a Terra do Zoo” – título que, sob a perspectiva dos direitos animais, deveria ser extinto para dar lugar a uma nova denominação por meio da qual a cidade passasse a ser conhecida como um lugar que incentiva santuários e é contra o aprisionamento de seres vivos em zoológicos.


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