DISCURSO DE ÓDIO

‘Tem que matar no tiro. Se eu passar por cima, nem olho pra trás’, diz vereador sobre cães abandonados

Mariana Dandara | Redação ANDA

O incentivo à matança de animais através de atropelamentos e tiros, proposto pelo vereador mineiro Eli Corrêa (DEM), incorre em crime de apologia aos maus-tratos aos animais


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Vereador Eli Corrêa (Foto: Reprodução/Facebook)

“Eu, se passar por cima de um cachorro, nem olho para trás”. Essa frase, que configura crime de apologia aos maus-tratos a animais, foi dita na última segunda-feira (19) pelo vereador Eli Corrêa (DEM) durante Reunião Ordinária da Câmara Municipal de João Pinheiro, em Minas Gerais.

Dentre as diversas frases de ódio ditas pelo parlamentar, está também o incentivo a matar cães a tiros. O discurso de Corrêa foi aceito dentro da Câmara, tendo sido rebatido exclusivamente por um vereador. No entanto, logo após Eli Corrêa encerrar sua fala, o presidente da Casa Legislativa, Pedro Gil Cardoso (PDT), afirmou que a “democracia é importante”, ignorando que discurso de ódio não é democrático, já que através dele foi incitada a violência contra animais em situação de vulnerabilidade.

O posicionamento de Corrêa foi exposto durante a votação do projeto de lei 079/2021. De autoria do vereador Cabo Vieira (PP), a proposta aprovada pela Câmara institui, em abril, o mês de prevenção contra à crueldade animal e estabelece a obrigatoriedade de promover projetos para prevenir crimes contra os animais e orientar escolas a conscientizar os alunos sobre a Lei Sansão, que pune maus-tratos a cachorros e gatos.

Na justificativa do PL, Cabo Vieira citou as mais de 4 mil denúncias de maus-tratos a animais recebidas neste ano pela Polícia Militar de João Pinheiro, o que garantiu uma média de 34 ocorrências por dia. Para Eli Corrêa, no entanto, essas estatísticas não significam nada. O sofrimento dos animais não lhe comove, pelo contrário, seu intuito é causar ainda mais sofrimento, incentivando a matança de cães e gatos em situação de rua.

“Esse negócio de cachorro está me incomodando. Na Ruralminas [região da cidade de João Pinheiro], eu vi três pessoas morrerem por causa de leishmaniose de cachorro e gato. Lá em casa tem dois, eu não tive coragem de matar. Já arranjei um para matar. Tem uns gatos lá que estão doentes e minha mãe com 90 anos, eles sobem no sofá junto com ela. E rua não é lugar de cachorro”, disse Corrêa ao iniciar sua fala.

A fala do parlamentar a respeito da leishmaniose demonstra ignorância e desinformação, já que há tratamento que, se realizado corretamente, controla os sinais da enfermidade e impede a transmissão a humanos. Dessa forma, sacrificar cães ou gatos é inadmissível, matá-los por atropelamento ou a tiro é ainda pior e configura crime, embora tenha sido essa a sugestão dada por Eli Corrêa, inclusive ao falar sobre a raiva canina – que também não deve ser motivo de matança indiscriminada de animais e pode ser combatida por meio da vacinação em massa.

“Cachorro de rua tem que matar. E cachorro de rua do jeito que vemos por toda banda aí, trazendo problema para a saúde da população.. Quando tinha uma carrocinha que pegava cachorro doente, morrendo, de todo tipo aí, só ficava o que tinha certeza que era saudável, sadio mesmo, o resto morria tudo”, continuou Corrêa, incentivando o retorno da cruel carrocinha, que condenava inúmeros animais à morte sem lhes prover tratamento e negando a eles a chance de viver uma vida digna e feliz.

Cães abandonados são protegidos por lei. Agredi-los ou matá-los é crime (Foto: Pixabay)

Durante sua fala, o parlamentar também criticou a luta para por fim aos veículos de tração animal, que submetem animais como cavalos, burros e jumentos a extremo sofrimento. “Já estão querendo acabar com os cavalos que puxam carroça, dizendo que isso aí é escravo. Em toda banda já estão acabando com isso. E os coitados dos carroceiros que vivem catando areia, cascalho, um trem ou outro..”, criticou Corrêa, sem considerar a possibilidade das famílias de baixa renda substituírem cavalos por veículos alternativos – com pequenos motores, por exemplo – para livrar os animais da exploração e ao mesmo tempo ter como garantir o próprio sustento.

“Cachorro na rua, pra mim, é perder tempo. Eu, se passar por cima de um cachorro, nem olho para trás. Cachorro na rua é proibido, fica atentando os outros, pega um coitado aí, as vezes está doente, o cachorro pega, a pessoa até morre por conta de uma mordida de um cachorro. Principalmente essas épocas, agosto e setembro, que cachorro fica doido, fica louco, morde qualquer um. Tem que matar é no tiro”, reiterou Corrêa.

O discurso de ódio do parlamentar foi rebatido pelo vereador Elson Barbeiro (MDB), que disse que Corrêa tinha “razão em certa parte”, mas que afirmou discordar do incentivo à matança e aos maus-tratos a animais. “Tinha que punir era os donos, porque o cara chega da roça com um saco cheio de gato, cheio de cachorro… Se multar R$ 1 mil por cada cachorro desse. Depois que está na rua, a desordem é grande demais”, disse o parlamentar, pontuando que concordava com Corrêa exclusivamente em relação à necessidade de ser proibido animais na rua.

A solução apontada por Barbeiro segue uma linha semelhante a que é proposta por ativistas e especialistas da área de medicina veterinária: promover o controle populacional dos animais através da castração. “Tem que ter uma proteção dos animais, mas tem que proteger desse jeito: castrando as fêmeas, castrar os machos se for possível para não viver de casa em casa e punir quem está trazendo da zona rural e soltando na cidade para os outros cuidarem”, disse Barbeiro.

“Porque tem que ter um controle. A menina lá na zona rural faz um belíssimo trabalho com uma ONG”, afirmou. “Não quero judiar dos cachorros que estão lá não, mas tem que ter um controle rigoroso com a população de animais em situação de rua”, completou.

“Os animais só estão nas ruas por causa da negligência humana”

Nas redes sociais, a fala do vereador Eli Corrêa foi recebida com indignação. No Twitter, uma internauta afirmou que o parlamentar não faz nada para ajudar e “ainda quer matar os animais que estão nas ruas”. “Não existe animal de rua! Os animais só estão nas ruas por causa da negligência humana”, asseverou.

Outro internauta fez um comentário semelhante e defendeu que animais abandonados sejam protegidos. “O certo seria cachorro abandonado e não cachorro de rua. Estão lá por causa de pessoas como esse infeliz deputado. Diferente dos cachorros que nos dão amor, deputados (em sua maioria) só servem pra roubar”, criticou.

“Quem elegeu esses estrumes merece padecer igual a eles. Se acham que seres humanos são mais valiosos do que os animais, simples, doem os vossos salários! Políticos são os cânceres desse país! Vocês fazem uns desserviço à população! Espero do fundo do meu coração que percam vossos mandatos!”, comentou um terceiro internauta.

Leishmaniose e raiva: informação para combater o ódio

A única ferramenta eficiente no combate à ignorância é a educação. Para por fim aos mitos disseminados pelo senso comum, que insistem em perpetuar ideias descabidas e infundadas a respeito dos animais em situação de rua, a ANDA trás informações sobre a leishmaniose e a raiva, duas doenças que podem ser evitadas por meio da prevenção – e não da matança de seres sencientes, que sentem, sofrem e merecem viver em paz.

De acordo com o médico veterinário Ricardo Henz, da Clínica São Francisco, localizada em Fortaleza, no Ceará, não há cura para a leishmaniose, mas é possível controlar a doença e impedir a transmissão para humanos. “Não existe uma cura definitiva, mas é possível realizar tratamentos que podem acabar com os sinais clínicos e epidemiológicos desta zoonose nos cachorros, livrando-os dos sintomas da doença e da chance de transmitirem o problema, precisando ter acompanhamento o resto da vida, pois recidivas podem ocorrer”, explicou o especialista ao falar sobre a enfermidade também conhecida como calazar. ” “Na Europa, por exemplo, o tratamento é a regra. Só não são tratados animais em estágio terminal”, completou o profissional, que é pesquisador e defensor do tratamento da leishmaniose.

Tutores de cachorros com leishmaniose também se unem ao coro favorável ao tratamento da doença. Um desses tutores é a engenheira civil Aline Bessa, que resgatou Angeline, uma pit bull com leishmaniose. Mesmo tutelando outros cães, ela optou pelo tratamento. “O último exame feito – punção da medula – deu negativo para leishmania, mas a luta contra a doença é permanente”, explicou Aline, que tem uma filha de um ano que convive com a cadela.

Já a ativista da causa animal, Stefânia Rodrigues, resgatou há mais de 15 anos uma cadela do Canil da Polícia Militar, que seria morta por ter calazar. “A Mole conviveu comigo todas as minhas gestações. Claro que sempre tive os devidos cuidados. Desde então, venho com uma luta constante para provar a eficácia do tratamento, mostrando, assim, que animais com leishmaniose podem e devem ser tratados”, pontuou.

A leishmaniose canina é transmitida por meio da picada do mosquito-palha (flebotomíneo) infectado, sendo mais comum em áreas onde o saneamento básico deixa a desejar, havendo, dessa forma, fatores facilitadores para a propagação do inseto. Por conta disso, os casos de leishmaniose estão diretamente ligados à desigualdade social e à falta de políticas públicas para prover melhores condições de vida a humanos e animais nas cidades.

Como em qualquer doença, é melhor prevenir do que tratar. No entanto, nenhum método sozinho é capaz de proteger 100%, por isso devem ser usados em conjunto. Dentre as formas de prevenção, estão: vacinar, colocar coleiras repelentes, sprays inseticidas, pipetas repelentes, resguardar o animal à noite em lugar com telhado, entre outras medidas.

Campanha incentiva o tratamento da leishmaniose (Foto: Divulgação)

A prevenção também é a solução quando se trata da raiva – doença que, ao atingir humanos, tem cura, com tratamento disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas que não é curável em cachorros. Entretanto, pode ser facilmente evitada através da vacinação anual dos cães.

Em seu site oficial, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) traz informações coerentes acerca da doença e da vacinação e revela, inclusive, que há alguns anos, não são os cachorros os principais transmissores da enfermidade no Brasil. “A raiva é uma zoonose conhecida desde séculos, e apesar dos esforços de governos e organizações, ainda atinge mais de 150 países e territórios, e estima-se que 59 mil pessoas morrem todos os anos devido a essa zoonose. Cabe ao médico veterinário atuante na Saúde Única avaliar fatores de risco quanto à transmissão do vírus da raiva no ambiente e em animais, visando alertar os órgãos de saúde e prevenir a ocorrência da doença, interagindo com as instituições e segmentos ambientais”, informou o CFMV.

“A vacinação periódica de animais de companhia e de criação e a orientação técnica quanto a formas de prevenir o desenvolvimento desta enfermidade, realizada pelo profissional médico veterinário é a chave no sucesso da prevenção e redução da transmissão”, completou.

No artigo publicado no site, o Conselho Federal de Medicina Veterinária informa que “a raiva urbana está em processo de controle no país” e que “esse destacado alcance foi possível em virtude da participação de médicos-veterinários que atuaram e atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), como coordenadores, responsáveis técnicos pelos Programas de Controle nas três esferas de Governo”.

“Diferente de uma bactéria, que é combatida com antibióticos, a ação mais efetiva no controle da raiva no ambiente doméstico é a campanha anual de vacinação. Em cães e gatos, por exemplo, a aplicação da vacina faz com que o sistema imune destes animais produza anticorpos. Se por acaso ele for exposto ao vírus da raiva, o organismo saberá reagir e eliminar as partículas de vírus antes que cheguem ao cérebro. Evitar deixar que cães/gatos acessem a rua sem supervisão do tutor; nunca mexer com animais desconhecidos e se por acaso for agredido, lavar bem o ferimento com água e sabão; e procurar imediatamente um posto de saúde mais próximo de sua residência; são as orientações”, pontuou o CFMV.

“No Brasil, observou-se a partir do ano de 2004 uma mudança no perfil epidemiológico da raiva em relação à transmissão de casos para os humanos: os morcegos passaram a ser o principal transmissor no país, uma vez que a raiva urbana existente em cães e gatos teve um avanço significativo de seu controle, apenas mantendo-se ainda de forma esporádica em algumas limitadas áreas do país”, acrescentou.

No lugar de tiros, amor e respeito

Se desinformação deve ser combatida através da educação, o ódio só pode ser extinto por meio do amor. E é por isso que, em resposta à inaceitável apologia aos maus-tratos a animais presente no discurso do vereador Eli Corrêa, a ANDA reforça que negligenciar, maltratar e matar animais é crime. No caso dos cães e gatos, alvos do ataque do parlamentar mineiro, o agressor pode ser punido com prisão de até cinco anos, além de multa e da proibição de tutelar animais.

Cães são seres sencientes e devem ser tratados com amor e respeito (Foto: Freepik)

No lugar de tiros em cachorros abandonados, amor e respeito. Até porque incentivar a sociedade a ter um olhar compassivo em relação aos animais abandonados não configura crime e o único risco imposto por esse incentivo é o de se criar um mundo melhor, mais compassivo e ético, onde humanos possam conviver em harmonia com os não humanos, sempre lhes estendendo a mão e recebendo em troca olhares sinceros de amor e demonstrações de afeto através de cães abanando o rabo e de “rom rons” carinhosos de gatos.

Já o incentivo à matança de animais através de atropelamentos e tiros incorre em crime de apologia aos maus-tratos aos animais e propaga um discurso violento, repleto de ódio, que não só colabora para o aumento da violência contra cachorros e gatos, como faz a sociedade retroceder e se tornar cada vez pior, inclusive para os humanos.

Confira os vídeos que mostram as falas dos vereadores Eli Corrêa e Elson Barbeiro:


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