GULA DESTRUTIVA

Hábitos alimentares ocidentais levam à perda de quatro árvores por consumidor a cada ano

Damian Carrington (The Guardian) | Traduzido por Luna Mayra Fraga Cury Freitas

A pesquisa vincula o consumo de alimentos como café e chocolate ao desmatamento em escala global.


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Foto: Pixabay

O consumidor ocidental médio de produtos como café, chocolate, carne, óleo de palma e outras commodities é responsável pela derrubada de quatro árvores a cada ano, muitas em florestas tropicais ricas em vida selvagem, calculou a pesquisa.

A destruição das florestas é uma das principais causas tanto da crise climática quanto das drásticas perdas nas populações de animais selvagens, já que os ecossistemas naturais são arrasados para dar espeço à agricultura. O estudo é o primeiro a vincular totalmente mapas de alta resolução do desmatamento global à ampla gama de commodities importadas por cada país em todo o mundo.

A pesquisa estabelece as ligações diretas entre os consumidores e a perda de florestas por todo o planeta. O consumo de chocolate no Reino Unido e na Alemanha é um importante motor do desmatamento na Costa do Marfim e em Gana, descobriram os cientistas, enquanto a demanda de carne bovina e soja nos EUA, União Europeia e China resulta na destruição florestal no Brasil.

Os consumidores de café nos EUA, Alemanha e Itália são uma causa significativa de desmatamento no Vietnã central, mostra a pesquisa, enquanto a demanda de madeira na China, Coreia do Sul e Japão resulta em perda de árvores no norte do Vietnã.

Como um país rico e populoso, os EUA têm uma pegada de desmatamento particularmente grande, sendo o principal importador de uma grande variedade de commodities originárias de países tropicais, incluindo frutas e castanhas da Guatemala, borracha da Libéria e madeira do Camboja. A China é a maior responsável pelo desmatamento na Malásia, resultante das importações de óleo de palma e outros produtos agrícolas.

O consumo nos países do G7 representa uma perda média de quatro árvores por ano por pessoa, diz a pesquisa; os EUA estão acima da média, com a derrubada de cinco árvores per capita. Em cinco países do G7 – Reino Unido, Japão, Alemanha, França e Itália – mais de 90% de sua pegada de desmatamento está em países estrangeiros e metade disso está em nações tropicais.

O Dr. Nguyen Hoang, do Instituto de Pesquisa para a Humanidade e a Natureza, em Kyoto, Japão, liderou a pesquisa e disse que os mapas detalhados poderiam ajudar a direcionar ações para deter o desmatamento.

Ele acrescentou: “Os formuladores de políticas públicas e as empresas passam a ter uma ideia de quais cadeias de suprimentos estão causando desmatamento. Se eles sabem disso, podem se concentrar nessas cadeias de suprimentos para encontrar problemas e soluções específicos, direcionados.

Consumo de commodities no Reino Unido está ligado ao desmatamento em todo o mundo

O Dr. Chris West, da Universidade de York, no Reino Unido, que não fazia parte da equipe de pesquisa, disse: “O consumo pode ter grandes efeitos em países estrangeiros, dada a nossa dependência das cadeias internacionais de suprimentos. Embora as políticas públicas a nível governamental estejam frequentemente focadas em preocupações domésticas, o fato é que, se não enfrentarmos também essa pegada internacional, continuaremos a gerar impactos ambientais devastadores em escala global.

“Isso não pode ser enfrentado apenas por nações separadamente e também não é apenas uma questão ocidental”, disse ele. “O aumento da pegada de desmatamento da China é particularmente impressionante, e chama atenção para a necessidade de uma ação multilateral.”

A pesquisa, publicada na revista Nature Ecology and Evolution, combinou dados de alta resolução sobre perda florestal e seus motores/motivadores com um banco de dados global sobre relações comerciais entre 15.000 setores industriais internacionais entre 2001 e 2015. Isso permitiu que os pesquisadores quantificassem a pegada de desmatamento de cada país com base no consumo de sua população.

Os cientistas da pesquisa disseram: “Apesar do crescente reconhecimento da gravidade do desmatamento nos países em desenvolvimento, as pegadas de desmatamento [em nações ricas] permaneceram em grande parte inalteradas [desde 2000].” China, Índia e os países do G7 aumentaram a cobertura florestal em seus próprios países, mas também aumentaram suas pegadas de desmatamento fora de suas fronteiras.

Uma limitação do estudo, reconhecida pelos pesquisadores, é que a falta de dados significa que não é possível vincular claramente o consumo a áreas específicas dentro de cada país. “Precisamos de uma análise em escala mais fina, onde isso seja possível”, disse West.

O projeto Trase, no qual o cientista trabalha, permite estreitar as correlações para algumas paisagens e, principalmente identificar os atores envolvidos no desmatamento. Os dados também não foram capazes de separar as florestas naturais das cultivadas – estas últimas são importantes em países como o Canadá.

Paul Morozzo, ativista do Greenpeace UK, disse: “O relatório acende uma luz sobre o consumo excessivo e mostra que as escolhas individuais – como reduzir o consumo de carne e laticínios, por exemplo – são importantes. Mas as empresas não estão sendo honestas. Eles não estão assumindo a responsabilidade pelo impacto ambiental de seus produtos e isso tem que mudar.”

Reverter a perda florestal deve ser uma prioridade para a próxima cúpula do G7, que será organizada pelo Reino Unido, acrescentou.

A ideia de que os consumidores ocidentais poderiam plantar quatro árvores para compensar sua pegada de desmatamento foi, infelizmente, falha, disse West. “Cortar uma floresta tropical não pode ser compensado com o plantio de um pinheiro.”


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