DENÚNCIA

Cão abandonado seis vezes é resgatado e morre após ser hospedado em hotel

Mariana Dandara | Redação ANDA

Um laudo elaborado após necropsia apontou que Maylon, como era chamado o cão, sofreu traumatismo no tórax causado por "trauma contundente", que levou à insuficiência respiratória, com "provável quadro de dor aguda e intensa"


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Um cachorro sem raça definida que foi abandonado ao menos seis vezes morreu após ser hospedado em um hotel para cães na cidade de Lauro de Freitas, na Bahia. Maylon, como era chamado, conheceu o sofrimento de perto, mas também teve a oportunidade de experimentar o amor após ser resgatado pelo casal Ana Paula de Albuquerque e Mário Cardoso Júnior, responsável pelo projeto Vamos Alimentar um Pet. Um boletim de ocorrência foi registrado para que o caso seja investigado.

Hospedado no Smart Pet Resort – por meio de uma parceria entre o projeto de proteção animal e o hotel, que concedia descontos na hospedagem -, Maylon foi levado para o estabelecimento no início de março e morreu no dia 21 do mesmo mês. O hotel alega que o cachorro não sobreviveu após brigar com Galego, outro cão resgatado por Ana Paula e Mário e que também estava abrigado no local. Os protetores de animais, no entanto, questionam a versão dada pelos sócios do Smart Pet Resort.

“No momento do ocorrido, existiam dois animais nossos hospedados lá: Galego (vítima de um tiro nas ruas) e Maylon (abandonado mais de seis vezes nas área rural de Lauro de Freitas e Sergipe, por ser muito manso e não ser ‘capaz de tomar conta das roças’). Temos a publicação que fizemos para resgatá-lo afirmando isso. Levamos Maylon para o resort no dia 06 de março de 2021 e quando foi no dia 21 de março de 2021 a secretária do hotel ligou dizendo que Maylon e Galego brigaram, que Maylon passou mal a noite inteira e morreu pela manhã. Nós achamos muito estranho, pois existia um contrato de tutor que assinamos informando que poderiam nos ligar em qualquer situação e eles só ligaram após a morte”, afirmou Ana Paula em entrevista concedida à ANDA.

A protetora, na condição de tutora de Maylon e Galego, questionou se um médico veterinário foi acionado para socorrer o cachorro. Segundo ela, consta no contrato de hospedagem a obrigatoriedade de recorrer a um profissional da área em casos como esse. No entanto, ainda de acordo com Ana Paula, a secretária do hotel teria dito que a equipe não considerou necessário chamar o veterinário.

Em seguida, Ana Paula perguntou sobre o corpo de Maylon e teria sido informada que estava no crematório. “Achei um absurdo e falei que não autorizei. Ela disse que a proprietária do hotel foi quem ordenou mandar o corpo dele para o crematório. Perguntei qual crematório e ela disse que precisava desligar a ligação. Perguntei diversas vezes no WhatsApp e ela não me respondeu mais. Até que lembrei qual é o crematório de Lauro de Freitas: o Bye Bye Pet. Já que o hotel fica no bairro Vilas do Atlântico, seria o mais próximo. Eu e meu esposo fomos com o termo de tutores, retiramos o corpo e levamos para a Semeve, onde mandamos fazer a necropsia. Nesse tempo nós pressionamos os proprietários sobre o que de fato aconteceu e o sócio e namorado da proprietária confessou, através de texto no WhatsApp, que um funcionário, para separar a briga, usou a guia enforcadora, puxando forte. Isso já é muito sério, mas sabíamos que eles ainda não tinham contado tudo”, relatou a tutora.

O laudo da necropsia, assinado pelo médico veterinário Carlos Humberto da C. V. Filho, especialista em Patologia Animal, indica que a causa da morte foi insuficiência respiratória aguda. “Os achados anatomopatológicos ora relatados, são compatíveis com um quadro de traumatismo, causado por trauma contundente (não perfurativo e/ou cortante) na região lateral esquerda do tórax, com provável quadro de dor aguda e intensa, possível desenvolvimento de quadro de colapso circulatório agudo (choque neurogênico) com consequentes alterações circulatórias pulmonares. Agravado pelo edema na região cervical ventral (topografia de laringe) e grave colapso traqueal”, diz a conclusão do laudo.

“Maylon morreu sem socorro, morreu agonizando. Vítima de violência. No laudo não apontou uma mordida. Entrei em contato com o laboratório perguntando se tinha sinal de briga com outro cão e eles disseram: não! Busquei Galego, o cachorro que eles disseram ter brigado com Maylon, fiz diversas fotos dele e nenhum sinal de briga”, afirmou Ana Paula. Abaixo, uma foto de Galego que a protetora afirma ter registrado logo após buscá-lo no hotel.

Ana Paula afirma que Galego não tinha marcas pelo corpo que confirmassem a briga com Maylon (Foto: Divulgação)

“O resort, após a morte, disse que Maylon é agressivo. Tenho conversas com eles perguntando do comportamento de Maylon e diziam que ele é muito tranquilo, a única coisa que pediam era a castração. Nós os informamos que por ele acabar de ser resgatado iríamos esperar ele sair do quatro de desnutrição (como o laudo também aponta) e iríamos castrar”, completou. A protetora se refere a um trecho do laudo em que o especialista analisa o estado nutricional do cachorro e atesta que “o cadáver encontrava-se magro com visualização de extremidades ósseas”.

Diante da morte do animal, vários questionamentos sem resposta passaram a circundar a mente do casal que resgatou Maylon das ruas após uma vida de abandonos e sofrimento. “Em resumo, Maylon morreu após um forte puxão com guia enforcadora e traumatismo no tórax dentro de um hotel de luxo para cães. Se era agressivo, por que convivia com cães de pequeno porte? Tenho vídeos que provam isso. Por qual motivo aceitaram hospedá-lo, já que ele passou por uma avaliação? Ao mantê-lo hospedado, tinham ciência da castração após recuperação. Por qual motivo mandaram o corpo para um crematório sem autorização? Por qual motivo não prestaram socorro?”, perguntou Ana Paula.

Ana Paula de Albuquerque e Mário Cardoso Júnior são ativistas da causa animal (Foto: Divulgação)

A protetora de animais contesta ainda a versão dada pelo hotel de que Galego teria se ferido após brigar com Maylon. “Segundo a proprietária do hotel, Galego estava com feridinhas que ela tratou depois da briga. Eu o peguei, com meu esposo, e ele não tinha ferida nenhuma, só cicatrizes que ele já tinha. Eu desconfio que as feridinhas que ela disse que ele tinha, e que talvez ela realmente tenha foto, tenham sido de quando a gente levou ele pra lá. Ele tinha acabado de ser vítima de maus-tratos. Ele tinha furos, ele tinha tomado um tiro”, argumentou. Ana Paula contou ainda que levou Galego a uma clínica veterinária após retirá-lo do hotel e que o veterinário que examinou o cachorro atestou que as cicatrizes do animal não eram recentes.

O outro lado da história

O Smart Pet Resort argumenta que teve boas intenções ao acolher Maylon e que o cachorro “infelizmente veio a óbito” após brigar com “outro animal de rua levado pelo projeto” e ser “apartado para preservar a integridade física dos demais animais”.

Por meio de nota, o advogado do hotel, Marcel Ferraz, informou que “a empresa afastou o responsável no dia do ocorrido para apuração dos fatos”. Confira abaixo o comunicado do resort na íntegra.

“O Resort, de boa-fé e para ajudar o projeto ‘Vamos alimentar um pet’, que é autor da ‘denúncia’, acolheu alguns animais de rua resgatados.

Conforme explicado para a responsável, havia a necessidade de castração dos animais levados, o que não ocorreu.

A responsável pelo projeto, inclusive, reconhece tal necessidade, conforme conversas havidas entre ela e a proprietária da empresa por meio do aplicativo WhatsApp.

Após recebê-lo, o animal (que possuía um histórico de abandonos e agressividade, conforme relatado pelo próprio projeto em suas redes sociais) entrou em briga com outro animal de rua levado pelo projeto, também não castrado.

Em decorrência da briga, o animal precisou ser apartado para preservar a integridade física dos demais animais.

Infelizmente, acabou vindo a óbito.

Para não restar qualquer dúvida sobre a conduta tomada, a empresa afastou o responsável no dia do ocorrido para apuração dos fatos.”

Projeto transforma a vida de animais abandonados

Criado pela historiadora Ana Paula de Albuquerque e pelo técnico em radiologia Mário Cardoso Júnior, o projeto Vamos Alimentar Um Pet nasceu em 2020, após dificuldades financeiras trazidas pela pandemia de coronavírus impossibilitarem a continuidade do ativismo realizado pelo casal, que por anos contou apenas com os próprios recursos para resgatar animais abandonados e cuidar de muitos outros nas ruas de Salvador, na Bahia.

O projeto precisa de ajuda para comprar a ração especial para Dengoso, gatinho diagnosticando com doença incurável (Foto: Reprodução/Instragram/@vamosalimentarumpet)

“Eu e meu esposo, Mário Cardoso Júnior, somos protetores e ativistas da causa animal. Eu sou historiadora e Mário é técnico em radiologia, mas sempre dividimos o nosso tempo entre nossas profissões e estudos, conciliando a alimentação dos animais em situação de rua e resgates. Em 2020, estimamos ter alimentado mais de mil animais nas ruas de Salvador, retiramos mais de 50 animais das ruas também em 2020. Sempre cuidamos e fizemos tudo sozinhos até que, com a pandemia e o aumento dos abandonos na região que moramos, criamos no Instagram a página Vamos Alimentar um Pet (@vamosalimentarumpet), por meio da qual passamos a receber ração, medicamentos e auxílio financeiro voltados para tratamentos e pagamentos de hospedagens para os animais. Tratamos animais com deficiência, idosos, vítimas de maus tratos e em situações de urgência”, relatou Ana Paula.

As gatas Mimosa e Cristal, o gatinho Dengoso, os cães Pirulito, Mike, Apolo e Galego são alguns dos tantos animais que tiveram suas vidas transformadas pelo projeto, que tem como objetivo retirar cães e gatos das ruas e encaminhá-los para adoção. Nem sempre, entretanto, isso é possível. Se por um lado há histórias felizes – como a das gatinhas Mafalda e Lala, que foram adotadas -, por outro existem tristes casos de animais que não sobrevivem, por diversas razões. Foi o que aconteceu com Maylon, que não teve tempo de encontrar um adotante que mudaria seus dias, tratando-o como membro da família. Apesar disso, o cachorro pôde ser bem tratado, amado e respeitado antes de partir, e esse é consolo daqueles que por aqui ficaram e que dele sentem falta.

Doente, Pirulito foi resgatado das ruas recentemente e precisa de ajuda com seu tratamento (Foto: Reprodução/Instragram/@vamosalimentarumpet)

“Todos os dias lembramos de Maylon. Todos os dias nos perguntamos o motivo que nos tiraram o direito de lhe prestar socorro. Não entendemos! Nós sairíamos qualquer hora por ele, nós iríamos pedir ajuda! Agonizando ele não ia ficar! Não sabemos o motivo pelo qual o corpinho dele foi parar no crematório. Como teve briga entre cães a ponto de Maylon morrer e não tinha uma marca de mordida no corpo dele. Galego está perfeito! O que aconteceu para a necropsia de uma das instituições mais conceituadas da Bahia ter apontado traumatismo no tórax do bichinho? Meu Deus, nós não entendemos o sofrimento que Maylon viveu!”, lamentou o casal Ana Paula e Mário Cardoso em uma publicação no perfil criado nas redes sociais para arrecadar fundos para o projeto Vamos Alimentar Um Pet.

Confira abaixo vídeos de Maylon com outros cães:

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