AMOR VERDADEIRO

Família proibida de criar porco muda para sítio para viver com o animal: ‘sofremos com a distância’

Mariana Dandara | Redação ANDA

Criado na mamadeira quando era filhote, o animal é membro da família de Michele, mas estava longe dos tutores há quase um mês por conta de uma ordem da Vigilância Sanitária


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José é amado e tratado com respeito pela família (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

Mudar de endereço foi a forma que Michele da Conceição encontrou para poder voltar a dividir sua rotina com o porquinho José, de um ano de idade. Criado na mamadeira quando era filhote, o animal é membro da família de Michele, mas estava longe dos tutores há quase um mês por conta de uma ordem da Vigilância Sanitária de Água Clara, no Mato Grosso do Sul.

No dia 22 de fevereiro, uma equipe do órgão municipal esteve na casa de Michele após receber a denúncia de que galinhas eram criadas no quintal da família. No local, os servidores públicos descobriram que um porco também vivia no imóvel. O Código de Posturas do município proíbe que porcos sejam criados em zona urbana e, por isso, a tutora teve que enfrentar um momento difícil: o da separação.

Para não ficar completamente longe do porquinho, que foi levado para uma fazenda, a família passou a visitá-lo. Mas não ter a companhia de José diariamente foi sofrido demais e, por isso, surgiu a ideia de se mudar para um sítio.

“Nós decidimos ir embora da ‘cidade’ e voltar a viver no sítio, assim fica mais fácil para todo mundo e a gente não precisa brigar pelo direito de termos o porquinho”, explicou Michele, em entrevista para o portal UOL, ao comentar a decisão anterior que havia tomado, e da qual desistiu, de acionar a Justiça para ter o direito de trazer José para casa novamente.

Michele e o porquinho José (Foto: Reprodução/Facebook)

De acordo com a tutora, foi bastante difícil ficar três semanas longe do porquinho, que também sofreu com a separação, já que porcos são extremamente sensíveis, carinhosos e se apegam aos humanos. “Meus filhos e a gente também, sofremos muito com a distância do porquinho, ninguém se acostumou”, desabafou.

“Ele [o porquinho] ficou mais agitado e toda vez que a gente ia visitar ele ficava todo feliz, me partia o coração”, disse. “Já estamos no sítio de novo e nosso porquinho está com a gente, feliz da vida”, completou.

Por que porcos podem ser mortos, mas não podem ser amados?

A triste história do porquinho José, que teve que viver longe de seus familiares, abre espaço para uma importante reflexão: o quão doentia é uma sociedade que acha correto fazer porcos sofrerem, mas não permite que um porco seja amado e cuidado por sua família apenas pelo fato do animal morar em área urbana?

Os porcos explorados para consumo humano vivem vidas miseráveis. Os machos ficam em baias, sem contato com a grama e com a lama nas quais adoram se esfregar. Quando filhotes, têm seus dentes cerrados, seus rabos cortados e são castrados sem receber anestesia durante todos esses procedimentos – a ausência de anestesia se dá por motivo de economia, já que o objetivo da agropecuária é aumentar os lucros, mesmo que isso submeta bebês inocentes a uma dor insuportável.

Filhote de porco é castrado sem anestesia e grita de dor (Foto: Mercy For Animals)

As fêmeas passam a vida aprisionadas em celas gestacionais tão pequenas que as impedem de se movimentar. Quando seus filhotes nascem, elas mal têm contato com eles, já que o máximo que a cela permite é que os porquinhos mamem. Isso quando não são forçadas a ver seus bebês serem maltratados. Uma investigação da ONG Internacional Mercy For Animals em uma granja cooperada da empresa Aurora, em Xanxerê, no estado de Santa Catarina, provou isso ao mostrar uma porca desesperada vendo seu filhote gritar de dor durante a castração sem anestésico.

Ao final de tanta tortura, todos esses animais têm o mesmo destino: o matadouro. O “método humanitário” – é assim que chamam o ato de tirar a vida de quem quer viver, uma ironia – não tem nada de humanitário. Para que fiquem atordoados, os porcos são eletrocutados. Quem já tomou um choque, sabe que é doloroso. Em seguida, são esfaqueados na jugular. Considerando os dados do IBGE – um porco morto por segundo no Brasil, o que dá 60 porcos assassinados por minuto -, percebe-se que a matança de animais é feita de maneira ágil nos matadouros. Com tanta rapidez, não é possível garantir que todos os porcos estarão inconscientes no momento da facada. Pelo contrário, é esperado que muitos deles estejam conscientes e sofram uma dor extrema ao terem sua jugular cortada.

Essa é, de maneira resumida, a vida de um porco na indústria – que também enfrenta transportes precários, em caminhões superlotados, em meio aos próprios excrementos, antes de chegar ao matadouro. José, o porquinho do Mato Grosso do Sul, não conhece nada disso. Mas criá-lo com respeito, em um lar repleto de amor, é proibido. Já submeter porcos aos horrores descritos acima, é legal perante a lei.

Porcos sendo agredidos por funcionário de matadouro (Foto: Reprodução/SOAMA/Imagem Ilustrativa)

De acordo com um ex-funcionário de um matadouro norte-americano, já aconteceu de porcos pedirem carinho para ele antes de serem mortos. O relato está no livro “Slaughterhouse: The Shocking Story of Greed, Neglect, and Inhumane Treatment Inside the U.S. Meat Industry”, da escritora Gail A. Eisnitz.

Entrevistado em uma cafeteria em Iowa, o ex-funcionário é um dos tantos trabalhadores de matadouros que concederam relatos à escritora. Segundo ele, os porcos se comportam como cães. Estudos provam que eles são tão inteligentes quanto crianças de três anos.

“Se você trabalha em um matadouro por qualquer período de tempo, você desenvolve uma atitude que te permite matar coisas sem que você se importe. […] Os porcos no matadouro já vieram até mim pedindo carinho como se fossem cachorrinhos. Dois minutos mais tarde eu tive de matá-los — bater neles até a morte com um cano. Eu não ligo.” (Prometheus Books, p. 87)

Presa em cela gestacional, porca mal consegue se movimentar e não tem momento de afeto com seus filhotes, que, sem espaço por conta das grades, têm seu contato com a mãe restrito à amamentação antes de serem definitivamente separados dela (Foto: Reprodução/SOAMA)

Não se engane, o caso aconteceu nos Estados Unidos, mas poderia ter sido no Brasil. E certamente casos semelhantes ocorreram aqui. A investigação feita pela Mercy For Animals em Santa Catarina e os próprios procedimentos que são padrão da indústria brasileira – como a castração sem anestesia, a eletrocussão e as matanças a facadas, citadas neste texto – provam que a crueldade contra os animais independe do território onde eles vivem.

O carinho, no entanto, é bem mais escasso. Falta amor, empatia e compaixão. A ausência de respeito é latente. E quando alguém decide nadar contra a maré e dedicar-se a cuidar de um porco com afeto, a lei diz que o certo é torturá-lo e matá-lo.

Confira vídeos de investigações feitas pela Mercy For Animals em granjas de porcos no Brasil:


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