SOFRIMENTO

Cadela explorada para segurança patrimonial passava horas presa em ambiente insalubre

Mariana Dandara | Redação ANDA

A ANDA solicitou a guarda provisória da cadela, que foi retirada do canteiro de obras após o delegado Fábio Hayayuki Matsuo se negar a conceder a guarda. Não há informações sobre o atual paradeiro da rottweiler


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Foto: Divulgação

Uma construtora da cidade de São Paulo manteve uma cadela da raça rottweiler, explorada para segurança patrimonial, presa 8 horas por dia em um ambiente insalubre, repleto de poeira e com pouco acesso à luz, em uma obra no bairro Bela Vista. Alvo de uma ação policial realizada a pedido do ativista e assistente jurídico da Agência de Notícias de Direitos Animais, Leandro Ferro, a empresa retirou a cadela do local após um delegado se negar a conceder a guarda provisória da cadela, solicitada pela ANDA.

Ferro lembrou que explorar cães para segurança patrimonial nas condições em que a cadela vivia é proibido por lei. Antes dela, outro cachorro vivia no canteiro de obras, mas foi retirado do local após ser atropelado.

“Isso é ilegal, não é permitido pelo ordenamento jurídico brasileiro um animal sendo usado sem o acompanhamento de vigia numa construtora. Então, é um serviço clandestino que está sendo prestado e que essa construtora contratou para economizar vigia, é claro. Ela tem dinheiro para erguer um prédio, mas não tem dinheiro para pagar um salário digno para um trabalhador fazer a segurança ou terceirizar com uma empresa”, criticou o assistente jurídico.

O primeiro cachorro a ser explorado para fazer a segurança da obra, segundo Ferro, fugiu em um dia chuvoso e foi atropelado por um carro que passava no local. “O cachorro estourou a porta da frente em um dia que estava chovendo. Ele estava muito assustado e foi atropelado na frente da construtora. Isso já era noite. A construtora veio, junto com o canil, foram lá e pegaram o cachorro. Passou uns dez dias, colocaram outro cachorro na construtora, em condições inadmissíveis, no meio da poeira, de objetos cortantes. O animal ficava preso oito horas por dia em uma baia sem azulejamento, sem contato com as pessoas. Mal entrava luz no lugar onde o animal estava. Ele ficava oito horas lá, respirando poeira, ouvindo aquela barulheira de construção. Porque os trabalhadores, em teoria – não sei se tem ou não -, mas deveriam ter protetor auricular, por ser um lugar com muito barulho que precisa dessa proteção. O cachorro não tem isso. Mas enfim, o que importa para a construtora é que ela estava economizando”, argumentou.

Diante do flagrante de maus-tratos a animais, o assistente jurídico da ANDA acionou a polícia, que enviou uma viatura ao local no último sábado (5). Segundo Ferro, com a chegada dos agentes, o encarregado Djalma Rocha da Costa Júnior “tentou defender a presença do animal”. “Com isso, a polícia deixou uma viatura [na obra] e a gente foi para a delegacia despachar com o delegado para pedir a posse desse animal, que no caso era uma rottweiler fêmea”, contou.

Foto: Divulgação

Acompanhado de uma médica veterinária que elaborou um laudo comprovando os maus-tratos, Leandro Ferro se dirigiu à delegacia, mas ficou surpreso ao receber uma resposta negativa do delegado de plantão do 78º Distrito Policial, Fábio Hayayuki Matsuo, ao solicitar a guarda provisória da cadela.

“Para a minha surpresa, o delegado de plantão do 78º DP Fábio, não nos deu a posse provisória do animal como depositários fiéis. Mesmo eu estando acompanhado de uma veterinária, que é uma técnica, com um laudo assinado por ela, com imagens, e com o boletim de ocorrência que já tinha sido realizado em relação à fuga do primeiro animal. É inadmissível que um delegado tenha uma postura como essa. Ele baseou-se em nada, nos achismos da cabeça dele”, lamentou Ferro, que se comprometeu a fazer uma representação na Corregedoria da Polícia Civil contra o delegado.

O assistente jurídico argumentou que a obrigação do delegado é tirar imediatamente o animal da guarda de quem estava submetendo-o a maus-tratos, mesmo que não fosse para entregá-lo à ANDA, que, conforme reforçado por Ferro, é “uma ONG que goza de bastante prestígio jurídico nessa área e já está há muito tempo estabelecida na sociedade, prestando esse serviço de filantropia e amparo aos animais”. “Vai ser provado o crime que eles cometeram contra esse animal, já estava sendo provado, o crime estava em curso, um crime permanente. Então, a correta atitude desse delegado era ter pegado esse animal e passado para a ONG”, continuou.

Além de Matsuo, outros delegados agem da mesma forma diante de denúncias de crimes cometidos contra animais, que muitas vezes ficam impunes. Esse tipo de postura, na opinião de Leandro Ferro, precisa ser combatida para que não mais ocorra. “Eu sei que isso acontece em muitas delegacias do Brasil”, afirmou. “Tenho notícias de outros delegados de polícia que agem de forma muito parecida, inclusive um na cidade de São Roque, eu vou despachar com ele ainda pessoalmente, mas senão também infelizmente a gente vai ter que usar os mecanismos que a sociedade tem. Porque ali estavam conversando dois operantes da lei, ele e eu. Eu como assistente jurídico da ANDA e ele como delegado. Eu sei dos direitos dos animais, faz 17 anos que eu trabalho com isso, e a gente vai tomar as medidas cabíveis”, acrescentou.

Foto: Divulgação

Nessas circunstâncias, explicou Ferro, caso o delegado não tenha conhecimento acerca dos direitos animais, a denúncia deve ser repassada por ele para outra delegacia, o que não aconteceu. “A gente tentou convencer o delegado até o último minuto, sem perder o respeito, mas nós estamos indignados, tanto eu quanto a veterinária Renata, que é uma pessoa que passou cinco anos estudando medicina veterinária, está cursando uma especialização em anestesia – ou seja, uma profissional supercapacitada e que explicou de uma forma muito didática e muito precisa para o delegado a situação que o animal estava. Ele, baseado no fato de que o animal estava com água e comida e, segundo esse delegado, como o animal não estava raquítico, num estado extremo de maus-tratos, não poderia tirar a posse”, afirmou.

Quando esteve na delegacia, Ferro explicou para o delegado que provavelmente a cadela seria retirada do local pela empresa caso nenhuma atitude fosse tomada pela polícia e o alerta se confirmou. Atualmente, não há informações sobre o paradeiro do animal.

“Eles [os responsáveis pela construtora] tiraram o animal, sumiram com a prova, sumiram com a vítima. E agora, o que a gente faz com esse cachorro? Onde está esse cachorro?”, questionou Ferro. “A ONG ia se responsabilizar, eu iria me responsabilizar pelo cachorro”, completou o assistente jurídico, que disse ainda que, caso o delegado tivesse entregue a cadela à ANDA, ele teria informações sobre o local para onde o animal seria levado.

Foto: Divulgação

“E com relação à construtora e o senhor Djalma da Costa Júnior, a construtora chama Evo Construções e o arquiteto é o Márcio Vaz. A construtora, pessoa jurídica, direito privado, responde pelo crime; senhor Djalma Rocha da Costa também, como preposto da construtora, porque era o responsável ali no momento; e eu não sei se o Márcio Vaz também é responsável pela obra, isso vai ter que ser explicado perante a Justiça”, explicou.

O assistente jurídico da ANDA e ativista pelos direitos animais também se comprometeu a lutar contra a exploração de cachorros para segurança patrimonial. “Já estou em contato com alguns vereadores do município de São Paulo e vou contatar também alguns deputados para a gente acabar de vez com essa prática no estado de São Paulo que é esse uso clandestino de animais para segurança patrimonial”, prometeu o ativista, que orientou a população a denunciar crimes de maus-tratos contra animais. Segundo ele, o correto é acionar a polícia e pedir a guarda do animal. “O animal não pode ficar mais um minuto com os agressores deles”, concluiu.

Confira abaixo um vídeo no qual a cadela aparece em meio a entulhos da obra:


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