FALÁCIAS REFUTADAS

Ambientalista critica parecer que incentiva exploração de cavalos em carroças

Mariana Dandara | Redação ANDA

A ambientalista e ativista pelos direitos animais Paula Brügger refutou falácias de um parecer que tenta naturalizar a exploração animal através do incentivo à manutenção dos veículos de tração animal


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Foto: Freepik

A ambientalista e ativista pelos direitos animais Paula Brügger publicou um artigo para refutar as falácias de um parecer intitulado “Reconhecimento, salvaguarda e valorização do ofício de carroceiro e carroceira e da carroça como tecnologia de trabalho do carroceiro em Belo Horizonte, ambos como patrimônio imaterial relacionado à cultura da cidade”. Bióloga e doutora em Sociedade e Meio Ambiente, Brügger tem uma extensa bagagem acadêmica sobre direitos animais e ambientais, além de ter um histórico de luta dentro do ativismo.

A ambientalista, que também é professora universitária e escritora, afirmou que o parecer “busca fazer uma apologia à utilização de cavalos como instrumentos de tração” por meio de “argumentações digressivas, repetitivas e falaciosas”.

Ao iniciar seu artigo, a ambientalista citou um trecho de seu livro “Amigo Animal” para criticar a exploração e os maus-tratos aos quais são submetidos os animais forçados a transportar cargas pesadas. “Em muitas de nossas cidades é comum a visão de cavalos maltratados, mal nutridos e explorados, puxando pesadas carroças muitas vezes carregadas de resíduos provenientes de nosso estilo de vida perdulário. Ao lado dessas humildes carroças, veículos movidos por um só cavalo, passam intermináveis filas de automóveis – veículos metálicos e brilhantes – dotados de uma força equivalente a dezenas, ou centenas de cavalos confinados em máquinas insensíveis que desconhecem o cansaço e as rotinas enfadonhas. Essa imagem contrastante pode ser violenta para olhos sensíveis, ou corriqueira para aqueles que estão anestesiados e intoxicados pelas falsas “verdades” de nossa cultura massificada. A questão é que nem sempre a técnica veio para libertar ou diminuir o sofrimento dos animais ou dos seres humanos, os “auto-móveis” que cansam, sofrem, e sentem”, diz o trecho do livro.

A citação foi feita, segundo Brügger, para servir como ponto de partida para o artigo. “É preciso salientar que além da construção da cidade de Belo Horizonte (BH), milhares de outras cidades e vilarejos mundo afora não teriam sido erguidas sem os VTA (Veículos de Tração Animal). Essa não é, portanto, uma “referência significativa para a memória da cidade de Belo Horizonte, presente em sua evolução histórica”. Esse é um caso de argumentação repetitiva, apelativa, e falaciosa que aparece nas p.06; p.08; p.16; p.28”, explicou.

Segundo a escritora, o próprio texto do parecer é contraditório e desmente “essa peculiaridade no que diz respeito a Belo Horizonte”. “Entretanto, o mais importante é destacar que muitas cidades, monumentos históricos, etc, foram erguidos também graças ao trabalho de escravos humanos. Será essa uma razão para fazer apologia a esse tipo degradante de exploração? De fato, o texto mostra essa conexão, na p.14: “Os primeiros transportes de carga e de víveres (…) foram feitos por indígenas e africanos escravizados, tendo sido substituídos parcialmente por carros de tração animal”. Ainda na p.14, o trecho “As vilas paulistas investindo na promissora terra mineira, objetivando (…) extrair ou espoliar as suas riquezas minerais”, reforça como as carroças estão historicamente ligadas à escravidão, e à exploração ambiental. Buscar preservar essa prática é manter viva essa memória de pobreza, exploração e
vulnerabilidade social (fato reconhecido na p.16)”, argumentou.

“Na tentativa de mostrar uma imagem politicamente correta dos VTA argumenta-seque “uma cidade que se presa (seria “preza”?) logo entende que quilombos, ciganos, índios, mulheres, são também parte desta cidade”. Mas nessa busca de legitimação de “transmissão de saberes, e modos de fazer e viver” (p.07), apela-se para a tese de que tais segmentos sociais, étnicos, etc estariam necessariamente ligados aos VTA, algo falso, e sem lastro”, continuou.

Brügger lembrou ainda que o parecer tenta naturalizar a exploração animal ao dizer, entre outras coisas, que “a vida carroceira é possível graças às complexas relações interespecíficas constituídas nas relações cotidianas entre humanos e animais de tração. Muito embora a história de domesticação e coevolução entre humanos e cavalos (…)”. Em seguida, a escritora explicou que “é preciso sublinhar o uso equivocado do termo coevolução”.

“Conforme o Glossário de Ecologia (1), coevolução “é a interação ecológica entre duas ou mais espécies, da qual decorrem modificações genéticas”, algo totalmente descabido no contexto em questão. O que houve foi domesticação e escravização, e não coevolução”, disse.

Para a ambientalista, outro ponto importante é que, “diante do que vemos no mundo real, é bastante difícil crer que “carroceiros e carroceiras revezam os animais nos dias de trabalho, permitindo o descanso adequado” (p.10), ou que (p.11) “os animais são sujeitos que fazem parte das comunidades carroceiras, parceiros e companheiros de trabalho”. Esse pode ser o desejo de alguns, mas fato é que, pelo contrário, muitos animais são alugados para outrem e cumprem jornadas exaustivas, duplas, triplas, até não suportarem mais e sucumbirem à morte”.

Em relação aos cuidados ofertados aos animais, Brügger argumentou que no próprio texto do parecer “reconhece-se que “é comum carroceiros deixarem os animais soltos parte do dia (p.24), o que pode provocar acidentes de trânsito e a busca por alimento em sacos de lixo”. Isso seria devido ao avanço da urbanização nas cidades, com redução de
áreas verdes e extinção da zona rural. Mas tal cenário de crescente urbanização não vai mudar, ao contrário! Quanto aos possíveis cuidados com os animais, mencionam-se algumas regras de trânsito e de conduta (p.15) sem que se diga a quem elas beneficiam. Há também várias passagens que buscam mostrar uma imagem bucólica da atividade (p.20-21), algo distante da realidade. Na verdade o que prevalece no texto é a visão dos animais como coisas (vide nota 6, p.14), e como meros elementos de uma “tecnologia” ultrapassada e cruel”.

De acordo com a escritora, na página 18 do parecer, é feita referência aos “10 mandamentos do carroceiro”, mas sem que eles sejam citados um a um. “Teria sido proveitoso citá-los, em vez de repetir tantos argumentos inconsistentes. Em termos de argumentação bizarra, na p.17, p.ex., diz-se que “A Comunidade Tradicional Carroceira não habita um único local geograficamente delimitado e circunscrito, (…) facilmente georreferenciável, devido a sua dinâmica de movimentação espacial, trata-se de uma comunidade constituída”; e que “seus membros são reconhecidos pelos demais membros da comunidade como pertencentes a um modo de vida próprio”; e que “O modo de vida carroceiro envolve uma extensa rede de relações interespecíficas e interétnicas que produzem formas singulares de socialidade e de territorialização (p.20). Mas o que há de distintivo ou digno de louvor, em tal argumentação, fora um apelo tosco à glamorização da mesma?”, questionou a escritora.

“Na p.24 há menção a um suposto “importante saber ecológico dos carroceiros sobre a taxonomia e ecologia de espécies de capim” e outros “saberes tradicionais” (p.23; 24; também p.10, quando citam-se tipos de pelagens). Porém, não se trata aqui de “saber ecológico” acerca de tais espécies, e sim de um conhecimento ligado à exploração animal”, continuou.

A sustentabilidade ambiental também é colocada em cheque pela escritora, que faz inúmeras outras reflexões sobre os animais explorados para carregar veículos de tração animal, suportando o peso das cargas sobre seus corpos. Brügger aborda ainda a necessidade da sociedade evoluir, deixando para trás práticas arcaicas que são prejudiciais para os animais.

“Não duvido que a tração animal tenha sido “fundamental para o processo da neolitização” (p.12). Mas isso não
legitima uma apologia às tecnologias da Idade da Pedra em pleno século XXI. Que a tecnologia venha a cumprir o seu papel social e ético na sustentabilidade em todos os níveis”, afirmou.

“De fato, no texto em questão, há uma passagem onde um carroceiro comenta (p.07-08) que aprendeu com os mais velhos: “(…), os jovens hoje em dia não sabe passa nada não”. Não seria esse um indicativo da extinção dessa prática primitiva? Que Minas Gerais e BH sigam o exemplo de tantas outras cidades brasileiras – e mundo afora – que aboliram os VTA, uma prática rude, covarde, cruel e extemporânea”, concluiu.


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