ATROCIDADE

Espanha inicia matança de 895 vacas presas por meses em navio em condições precárias

Mariana Dandara | Redação ANDA

Ativistas pelos direitos animais condenaram tanto o abandono das vacas dentro do navio por meses, quanto a decisão de matá-las. Um grupo de veterinários que examinou as vacas atestou que elas se feriram durante o transporte


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Nos navios, os animais ficam confinados em espaços reduzidos (Foto: Reuters/Tallia Shipping Line CO. SRL)

O governo espanhol iniciou no último sábado (6) a matança de 895 vacas que passaram mais de dois meses presas em um navio no Mar Mediterrâneo. O tenebroso transporte marítimo, que condena inúmeros animais a sofrimento todos os anos, neste caso teve início em dezembro do ano passado, na Espanha. O objetivo era levar as vacas até a Turquia, mas na chegada ao país, a embarcação Karim Allah não teve autorização para desembarcar os animais por conta da suspeita de que eles estivessem contaminados pelo vírus da doença da língua azul. A enfermidade não contamina humanos, mas se dissemina entre os animais e é transmitida por insetos.

Com a negativa da Turquia, o navio tentou atracar em outros locais, mas não recebeu autorização de nenhum país. Com isso, as vacas sofreram por mais de dois meses, com escassez de água e comida, confinadas em meio aos próprios excrementos.

Após a decisão do governo de matar os animais, uma ação movida na Justiça levou ao impedimento da matança. No entanto, o Tribunal Superior de Madri suspendeu a medida cautelar que proibia que as vacas fossem mortas, mesmo sem que tenha ficado claro se elas realmente estão infectadas pela doença.

Ativistas pelos direitos animais condenaram tanto o abandono das vacas dentro do navio por meses, quanto a decisão de matá-las. Segundo eles, esses animais suportaram condições precárias dentro da embarcação. Um grupo de veterinários que examinou as vacas atestou que elas se feriram durante o transporte.

A exportação de animais vivos os condena a extremo sofrimento (Foto: Reuters/Tallia Shipping Line CO. SRL)

Embora não tenha sido feito nenhum esforço por parte das autoridades para salvar as vacas ou ao menos amenizar o sofrimento delas, após a decisão de matá-las rapidamente construiu-se uma estrutura temporária no porto de Cartagena para que equipes sanitárias pudessem tirar suas vidas e transportar seus corpos em contêineres.

A barbárie do caso, no entanto, não se restringe ao navio Karim Allah. Isso porque outra embarcação, denominada Elbeik, que também saiu da Espanha em dezembro do ano passado, está até o momento atracada nas proximidades da costa do Chipre, com cerca de 1,8 mil bois que também foram proibidos de desembarcar por suspeita de estarem infectados pela doença.

Diante do sofrimento extremo vivido pelos animais nos dois navios, o Ministério da Agricultura da Espanha se limitou a dizer que segue as normativas europeias que estabelecem a venda de “cargas” recusadas para outros países de fora do bloco ou a “destruição” em seu país de origem. Os termos usados – carga e destruição – reforçam o que é exposto por ativistas: animais explorados para consumo são objetificados e tratados como coisas.

Em entrevista ao jornal El País, representantes do Partido Animalista da Espanha afirmaram que esse caso demonstra a “crueldade da indústria pecuária e a cumplicidade da administração pública”. De acordo com a organização Animal Welfare Foundation, a exportação de animais vivos é pouco controlada e os animais se tornam “vítimas de arbitrariedades e erros”.

Ferimentos e mortes são comuns durante as longas viagens de navio as quais os animais são submetidos (Foto: Reuters/Tallia Shipping Line CO. SRL)

Crueldade intrínseca

A crueldade é uma prática intrínseca à exportação de animais vivos. A afirmação, frequentemente feita por ativistas, consta em um laudo técnico elaborado por uma médica veterinária que realizou uma perícia no navio NADA em fevereiro de 2018, no Porto de Santos, no litoral de São Paulo. Mais de 27 mil bois estavam confinados na embarcação.

A médica veterinária Magda Regina concluiu “que a prática de transporte marítimo de animais por longas distâncias está intrínseca e inerentemente relacionada à causação de crueldade, sofrimento, dor, indignidade e corrupção do bem-estar animal sob diversas formas”. A inspeção foi realizada após determinação da Justiça Federal.

Bois são transportados amontoados em meio aos próprios excrementos dentro de navios (Foto: Magda Regina)

De acordo com o parecer da especialista, os andares inferiores do navio são os que possuem pior condição de higiene, considerada precária pela especialista. Segundo Magda, a imensa quantidade de urina e excrementos produzida e acumulada no período de sete dias – desde o início do embarque, em 26 de janeiro, até o dia 1 de fevereiro, quando a inspeção foi realizada – propiciou impressionante deposição no assoalho de uma camada de dejetos lamacenta. “O odor amoniacal nesses andares era extremamente intenso tornando difícil a respiração”, afirma.

Magda relata ainda que em alguns andares da embarcação o sistema de ventilação artificial buscava atenuar o efeito do acúmulo de gases e odores, resultado também da decomposição do material orgânico bovino. Para isso, provocava poluição sonora (em decibéis), classificada pela especialista como claramente inoportuna “dado seu elevado grau de ruído”.

É descrito também pela veterinária a presença de um setor específico do navio denominado “graxaria”. No local, um equipamento tritura os animais que morrem durante a viagem. Os restos mortais são lançados ao mar – prática poluidora que acarreta graves prejuízos ao equilíbrio ambiental.

A morte de animais durante o trajeto, devido à insalubridade e aos maus-tratos, é frequente. De acordo com Magda, “o óbito de animais está intrinsecamente ligado à prática de transporte marítimo de carga viva”. Os ferimentos também são constantes. As oscilações “intrínsecas e naturais das correntes oceânicas” e os “movimentos pendulares da embarcação” podem ocasionar a perda de equilíbrio dos animais, que são de natureza terrestre e não marítima, e “causar acidentes traumáticos e sério desconforto fisiológico”. Além disso, acidentes também podem acontecer quando animais deitam no chão, reduzindo o espaço dos outros bois que estão ao seu lado, o que facilita “a ocorrência de tombos ou acidentes assemelhados”.

A superlotação não só do navio, mas dos caminhões, também é extremamente prejudicial aos animais. Segundo a veterinária, “no interior dos caminhões não há mínima possibilidade de mudança de posição do animal uma vez embarcado. No navio, embora haja possibilidade de mobilidade animal mínima em alguns bretes, para o caso de sua lotação não ser extrapolada, a mobilidade em geral é também severamente reduzida e/ou comprometida”. A ausência de espaço impede ainda que os animais descansem ou se movimentem livremente. E, segundo a especialista, quando um dos animais deita, exausto, no chão, ele não só diminui o espaço dos outros bois como também é obrigado a ter “contato íntimo com seus dejetos e os dejetos de outros animais”.

Os excrementos produzidos pelos animais são frequentemente abordados no laudo elaborado pela veterinária. Segundo ela, “a produção de dejetos (excrementos e urina) pelos animais nesses ambientes fechados, os expõe de maneira íntima e constante a um cenário de intensa insalubridade”.

Quanto à ventilação, níveis de temperatura e umidade dos locais onde são mantidos os bois, a veterinária conclui que “a embarcação realiza ventilação e exaustão dos pisos inferiores provocando severa poluição sonora e garantindo incompleta circulação e renovação dos gases lá encontrados. Decorre daí o registro de temperaturas elevadas nesses recintos assim como taxas de umidade extremas que comprometem claramente o bem-estar animal”.

Magda afirma ainda que o transporte de animais por longos períodos, seja por meio terrestre ou marítimo, sujeita os bois a uma experiência completamente alheia à sua natureza originária. “A insalubridade a que são expostos, o movimento dos veículos (tais como frenagem, balanço, variação de velocidade, manobras veiculares bruscas), o confinamento demorado, as restrições hídricas e alimentares, etc, por longos períodos e distâncias, seja por meio terrestre como por meio marítimo, sujeita estes organismos a uma experiência completamente alheia à sua natureza originária”, diz a médica veterinária.

Foto feita pela médica veterinária Magda Regina dentro do navio NADA expõe a crueldade da exportação de animais (Foto: Magda Regina)

Nas considerações finais do laudo, Magda conclui que “são abundantes os indicativos que comprovam maus-tratos e violação explícita da dignidade animal, além de ultrapassar critérios de razoabilidade elementar as cinco liberdades garantidoras do bem estar animal” (confira o parecer da médica veterinária na íntegra clicando aqui).

A crueldade da exportação de animais vivos, no entanto, não se limita ao transporte marítimo realizado pelo Brasil. Isso porque as péssimas condições as quais animais de diferentes espécies são submetidos dentro dos navios representam um padrão nesse tipo de transporte. Na Austrália, uma investigação feita pelo especialista em integridade do setor público, Philip Moss, revelou os abusos sofridos pelos animais que são exportados vivos em embarcações. Antes do relatório feito por Moss, a Animals Australia já havia feito outras denúncias, agindo nos últimos 15 anos como o principal órgão de fiscalização do setor.

“Embora seja um alívio que a verdade esteja no registro público, a grande tragédia é o número de animais que sofreram abusos extremos e prolongados nas mãos dessa indústria”, afirmou White. “Nunca devemos esquecer que as exportadoras foram preparadas para fornecer animais quem estariam prestes a enfrentar facadas, marretas, sofrimento e mortes por insolação em navios”, completou.

Na Índia, ativistas pelos direitos animais também denunciam o sofrimento de ovelhas e cabras exportadas vivas. A Federação das Organizações Indianas de Proteção aos Animais (FIAPO) escreveu uma carta ao gabinete do ministro principal de Maharashtra (CMO) falando sobre a exportação cruel de mais de 3.600 ovelhas e cabras vivas para Sharjah, através do aeroporto de Nashik.

“A exportação de animais vivos é extremamente cruel, pois os animais sofrem negligência, sofrimento e muitos morrem a caminho do destino. Esse tratamento dos animais não condiz com nossa cultura. Essa exportação também está ocorrendo sem qualquer documentação, orientação e formalidades e sem seguir o procedimento obrigatório estabelecido pela lei indiana. É, portanto, ilegal e viola várias disposições de nossas leis”, declarou a carta da FIAPO à CMO.

“Além disso, o aeroporto Nashik não possui instalações de quarentena obrigatórias onde os animais podem ser mantidos, observados e cuidados. Eles são deixados em aberto, nenhum certificado de saúde de veterinários certificados foi fornecido e as diretrizes de transporte não foram seguidas. Todas as diretrizes citadas acima são desprezadas. Apesar de ter fortes leis de proteção animal, a exportação ao vivo da Índia é um escárnio da vida desses animais, bem como o estatuto. Pedimos que você seja sensível ao sofrimento desnecessário dos animais sendo enviados para fora do país”, completou.

Vacas e bois são animais dóceis, carinhosos e que devem ter seu direito à vida respeitado (Foto: Pixabay)

Em Portugal, a PATAV – Plataforma Anti-Transporte de Animais Vivos também luta para por fim à exportação de animais vivos. Membro da Sociedade Protectora dos Animais, de Portugal, Rita Lavado expôs o sofrimento de ovelhas e vacas transportadas em navios que partem dos portos das cidades portuguesas de Setúbal e de Sines, com destino a Israel. A ativista abordou, em um artigo publicado no portal Notícias ao Minuto, a sensibilidade e inteligência das ovelhas, condenadas a tamanha crueldade. 

“Além de abanarem a cauda quando estão felizes, as ovelhas utilizam diferentes expressões faciais para comunicar as suas emoções. Também conseguem captar as expressões emocionais de outras ovelhas ou de seres humanos. Formam laços fortes umas com as outras e com humanos”, explicou.

Tímidas, as ovelhas ficam facilmente amedrontadas. Como possuem audição apurada, ficam incomodadas e assustadas com ruídos altos. Essas características tornam o transporte marítimo ainda mais cruel para elas, já que a sensibilidade das ovelhas amplia o sofrimento vivenciado nos navios. O sofrimento também é imenso para as vacas, que são seres sensíveis e dóceis.

“O transporte de animais vivos é um atentado aos seus direitos e ao seu bem-estar. Nestas viagens, que têm a duração de vários dias, estes animais são tratados como objetos. São amontoados, sem espaço suficiente para se deitarem, ficam cobertos de fezes e urina, doentes, desidratados, gravemente lesionados… muitos não chegam vivos ao seu destino”, concluiu a ativista.


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