DEVASTAÇÃO

Como o fogo se espalhou em partes intocadas do mundo

Redação | Maria Luiza Santos

Incêndios sempre foram uma parte natural do nosso mundo. Mas eles estão se movendo para ecossistemas que até então permaneciam intocados pelo fogo - e isso preocupa cientistas


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Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Incêndios florestais estão se movendo para lugares abundantes em combustível que eram até então menos propensos a queimadas, de acordo com uma nova análise de mais de 20 anos de dados do The Guardian.

Apesar do número geral de áreas que queimaram no mundo ter permanecido relativamente estático no período, a pesquisa indica uma mudança no padrão regional de incêndios que afeta mais florestas e menos áreas de pasto.
Nos últimos anos, incêndios devastaram partes da Califórnia, Austrália, Sibéria e do Pantanal, que são áreas que normalmente não eram afetadas. Na África, acontece o contrário, havendo uma redução nos incêndios nas savanas.
Especialistas acreditam que mudanças no padrão dos incêndios são causados por fatores humanos: o aquecimento global, que deixou a florestas em ponto de combustão, e a conversão de terra, que transforma os pastos em áreas plantio, conurbação e estradas.
As causas e as consequências ainda estão sendo estudadas, mas cientistas se preocupam porque essa mudança colocará mais dióxido de carbono na atmosfera das florestas, enquanto há a erosão da vitalidade biológica única das terras gramadas, que são melhores adaptadas às queimadas.
“Desde o início dos anos 2000, nós temos visto um menor número de incêndios em áreas gramadas, que dominava os números globais. Ao mesmo tempo, há um aumento disso em ambientes altamente combustíveis como o Oeste americano que vários estudos fzem relação com a mudança climática”, diz Niels Andela, expert em medição remota da Universidade de Cardiff. “Essa tendência não está visível em todos os lugares, mas é tem se tornado mais perceptível em alguns lugares do mundo”.
Secas fazem as florestas australianas mais vulneráveis
Na Austrália, no ano passado, a estação dos incêndios foi excepcional principalmente devido à localização das queimadas mais do que pelo número de quilômetros quadrados que queimaram.
A área afetada também havia sido atingida em 2019 – mas a nuvem de fumaça foi 3 vezes maior do que jamais havia sido vista. Cientistas descrevem “um novo marco da magnitude estratosférica da perturbação”.
Na maioria dos anos, grandes incêndios se espalharam pela regiões escassas do norte e oeste. Mas na temporada de incêndios de 2019-2020, as queimadas atingiram o sudeste e consumiu florestas que normalmente não eram atacadas por fogos dessa magnitude.
Dr. Pep Canadell, cientista chefe de pesquisa no Centro de Ciência Climática na Organização Comunitária de Ciências e Pesquisas Industriais da Austrália, culpa a temperatura mais quente dos últimos 100 anos pela seca de 2 anos que atingiu várias partes do sudoeste australiano, acabou com florestas e forneceu combustível para o fogo. Ele avisa que essas tedências vão continuar.
“Não há dúvidas que a mudança climática global foi um fator significativo para as atividades extremas de incêndios na última temporada. Nós sempre temos secas e ondas de calor que levam a condições extremas de incêndios, mas nossos registros de temperatura a longo prazo mostram uma tendência de 1 grau (C) acima do nível na era pré-industrial, com ondas de calor muito mais quentes e extensas do que antes, além da consistente elevação na temperatura, as nossas secas agora são mais quentes e caminham para combustíveis mais secos que queimam mais rapidamente”.
Fogo californiano se espalha em direção ao norte
Assim como na Austrália, os incêndios na Califórnia estão se espalhando para novos lugares conforme seu tamanho e sua frequência batem recordes.
John Abatzoglou, professor na Universidade da Califórnia, disse: “Em sistemas de florestas, incluindo aqueles que servem como forma de supressão ao fogo nos EUA e no Canadá, nós temos visto um aumento nas áreas queimadas e no número de incêndios de grande porte nas últimas décadas”.
Ele diz que parte da culpa pode ser atribuida a um clima quente e seco que deixa vulneravel ao fogo os potenciais combustiveis. “A confluência do aumento do fogo em um clima mais quente e seco com certeza tem contribuido para um grande aumento em áreas de floresta queimadas em parte do oeste dos EUA.”
Dr. Mathew W Jones, pesquisador senior no Tyndall Centre para Pesquisa sobre Mudança Climática na Universidade de East Anglia, diz: “Nos ultimos 20 anos houve um aumento surpreendente de oito vezes na area queimada por incendios florestais na California. Mudanças dessa magnitude não são vistas apenas na Califórnia, mas foi maior nas florestas a oeste dos EUA.”
“A água tem ficado mais escassa e as florestas estão secando mais regularmente durante a primavera, o verão e o outono. Florestas estão literalmente se transformando em um barril de pólvora cheio de combustiveis fadados a queimar mais frequentemente como consequencia da mudança climática.”
Padrão de secas se repete no sudoeste europeu
Secas relacionadas as mudanças climáticas também contribuem para um aumento na atividade do fogo no sudoeste europeu em países como Portugal.
De acordo com Dr. Jacquelyn Chase, professor de geografia e planejamento na Universidade Estadual da Califórnia, “há um concenso entre os pesquisadores de incêndios de que a mudança climática está esticando a estação das secas e contribuido para mega incêndios, apesar da vegetação e mudanças demográficas nas áreas rurais também são importantes fatores que aumentam a severidade e a localização de incêndios na região.”
“O clima no mediterrâneo sempre causa incêndios na época de secas mas o tamanho deles tem se mostrado claramente associado com as mudanças recentes”.
Florestas tropicais como a Amazônia também sofrem – por motivos diferentes
A Amazônia brasileira tem sofrido mais incêndios recentemente e apesar de quase todos terem sido causados pelo homem, especialistas dizem que a mudança climática ainda tem grande culpa na situação.
Dra. Erika Berenguer, pesquisadora senior nas Universidade de Oxford e Lancaster, disse que todos os tipos de queimadas na Amazônia são causadas pelo homem e relacionadas à agricultura, estando principalmente dentro de 3 categorias: deflorestação (com queimadas para limpar o campo); pastagem (queimadas mantém o pasto limpo e fértil para criar bois); e subsistência (com fogos sendo usados para tirar a plantação atual e preparar para a próxima).
Em cada caso, incêndios estão destruindo a vegetação e aumentando de frequência – e a floresta em si tem ficado mais seca e mais vulnerável por causa da mudança climática.
Ela diz que “a mudança climática transformou a Amazônia em uma floresta mais seca em alguns lugares e muito mais quente. Isso faz que seja mais difícil para a floresta agir de forma a conter o fogo, e está a tornando mais vulnerável.”

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