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‘Assassino invisível’: combustíveis fósseis causaram 8,7 milhões de mortes no mundo em 2018

Redação | Tainá Fonseca

Poluição de usinas elétricas, veículos e outras fontes causaram uma em cada cinco mortes naquele ano, revela uma análise mais detalhada


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O petróleo é um combustível fóssil (Foto: Pixabay)

A poluição do ar causada pela queima de combustíveis fósseis como carvão e petróleo foi responsável por 8.7 milhões de mortes no mundo em 2018, um número impressionante de uma em cada cinco pessoas que morreram naquele ano, segundo nova pesquisa.

Países com o consumo mais prodigioso de combustíveis fósseis em usinas elétricas, casas e veículos estão sofrendo com os índices mais altos de morte, com um estudo apontando que mais de uma em dez mortes tanto nos Estados Unidos quanto na Europa foram causadas pela poluição, junto com quase um terço das mortes na Ásia Oriental, incluindo a China. Taxas de morte na América do Sul e África foram significativamente mais baixas.

Uma média de mais de 30% de mortes de pessoas com mais de 14 anos na Ásia Oriental são causadas pela poluição de combustíveis fósseis.

O enorme número de mortes é maior que as prévias estimações e surpreende até mesmo os pesquisadores. “Inicialmente, nós estávamos bastante hesitantes quando obtivemos os resultados porque eles eram surpreendentes, mas estamos descobrindo cada vez mais sobre os impactos da poluição,” disse Eloise Marais, uma geógrafa na Universidade de Londres e co-autora no estudo. “É generalizado. Quanto mais procuramos por impactos, mais achamos.”

As 8.7 milhões de mortes em 2018 representam o “principal contribuinte para a carga global de mortalidade e doença”, afirma o estudo, que é resultado da colaboração entre cientistas da Universidade de Harvard, Universidade de Birmingham, Universidade de Leicester e Universidade de Londres. A taxa de mortalidade excede a soma total de pessoas que morreram no mundo todo a cada ano por conta do cigarro mais aqueles que morreram de malária.

Cientistas estabeleceram links entre poluição atmosférica generalizada provinda da queima de combustíveis fósseis e casos de doença cardíaca, doenças respiratórias e até perda de visão. Sem as emissões de combustíveis fósseis, a média de expectativa de vida da população mundial aumentaria em mais de um ano, enquanto a economia global e custos de saúde cairiam em torno de 2.3 trilhões de dólares.

A nova estimativa de mortes, publicada na revista “Environmental Research” (“Pesquisa Ambiental”), é mais alta que prévias tentativas para quantificar o custo mortal de combustíveis fósseis. Um importante relatório da revista “The Lancet”, publicado em 2019, por exemplo, apontou 4.2 milhões de mortes causadas por poluição atmosférica vinda de poeira e fumaça de incêndios, assim como combustão de combustíveis fósseis.

De todas as mortes infantis abaixo de cinco anos na Europa causadas por infecção respiratória, 13.6% são atribuídas a combustíveis fósseis.

Essa nova pesquisa implanta uma análise mais detalhada do impacto de partículas em suspensão no ar liberadas por usinas elétricas, carros, caminhões e outras fontes. Essa matéria particulada é conhecida como MP2.5 já que as partículas têm menos de 2.5 micrômetros de diâmetro – cerca de 30 vezes menor que a média de diâmetro de um fio de cabelo humano. Esses pequenos pedaços de poluição, quando inalados, fixam-se no pulmão e causam uma variedade de problemas de saúde.

“Nós não apreciamos que a poluição atmosférica é um assassino invisível,” disse Neelu Tummala, um otorrinolaringologista na Escola de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade George Washington. “O ar que respiramos tem um impacto na saúde de todos, mas particularmente crianças, idosos, aqueles com baixos salários e pessoas de cor. Geralmente pessoas em espaços urbanos sofrem os piores impactos.”

Ao invés de depender somente de estimativas médias das observações de satélites e da superfície que estudam a MP2.5 de várias fontes, os pesquisadores usaram um modelo 3D global da química atmosférica supervisionado pela Nasa, que tem uma resolução mais detalhada e distingue fontes de poluição. “Ao invés de depender de médias tiradas em grandes regiões, queremos mapear onde a poluição está e onde as pessoas moram, para sabermos exatamente o que as pessoas estão respirando,” disse Karn Vohra, estudante graduado na Universidade de Birmingham e co-autor do estudo.

Os pesquisadores então desenvolveram uma avaliação de riscos baseada em uma parcela de um novo estudo que encontrou um nível de mortalidade por emissões de combustíveis fósseis mais alto do que o imaginado anteriormente, até em concentrações relativamente baixas. Informações foram tomadas de 2012 e também de 2018 para representar um rápido melhoramento na qualidade do ar na China. Mortes de pessoas com 15 anos ou mais foram contadas.

Os resultados mostraram um quadro global variado. “A qualidade do ar da China está melhorando, porém a concentração de partículas finas ainda é espantosamente alta, os Estados Unidos estão melhorando, embora ainda há hotspots no nordeste, na Europa há uma mistura e a Índia definitivamente é um hotspot,” disse Marais.

O número de mortos descrito no estudo pode até ser uma subestimação do quadro real, segundo George Thurston, um especialista em poluição atmosférica e saúde na Escola de Medicina na Universidade de Nova Iorque que não estava envolvido na pesquisa. “Sobretudo, porém, esse novo trabalho clarifica mais do que nunca que quando falamos sobre custos humanos da poluição atmosférica, as maiores causas são as mesmas – combustão de combustíveis fósseis,” disse ele.

Philip J. Landrigan, diretor do programa de saúde pública mundial e bem comum, afirmou: “Pesquisas recentes estão explorando o uso de novas funções de terapia de exposição, e vários papéis que usam essas novas funções produziram estimativas mais altas de mortes relacionadas a poluição do que a análise do Estudo Global de Carga de Doenças.” Ele adicionou: “Eu considero importante que diferentes modelos de avaliação de riscos estejam sendo desenvolvidos, porque seu desenvolvimento forçará a re-examinação de suposições que fundamentam os modelos atuais e os melhorarão.”

Ed Avol, chefe da divisão de saúde ambiental da Universidade do Sul da Califórnia (USC), afirmou: “Os autores melhoraram metodologias para melhor quantificar os níveis de exposição e os resultados de saúde, a fim de chegar à conclusão preocupante, mas não surpreendente, de que a poluição causada por combustão de combustíveis fósseis é mais prejudicial para a saúde humana global do que o estimado. Os especialistas na interpretação de imagens de satélite à distância e epidemiologistas da saúde no time de pesquisa são altamente competentes investigadores e estão entre os acadêmicos mais talentosos nesse ramo dinâmico.”

“Combustíveis fósseis têm um grande impacto na saúde, clima e meio ambiente e precisamos de uma resposta imediata,” disse Marais. “Alguns governos têm metas referentes à redução da emissão de carbono, mas talvez nós precisamos aumentá-las dado o grande dano à saúde pública. Nós precisamos de muita mais urgência.”


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