AMOR INCONDICIONAL

Ex-policial luta para adotar cavalo explorado pela PM: ‘A casa dele é comigo e ele precisa voltar para casa’

Mariana Dandara | Redação ANDA

Em entrevista exclusiva à Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), a advogada e ex-policial Kelly Thimóteo contou que tem com o cavalo um dever de proteção e que quer adotá-lo para dar a ele uma vida digna, repleta de amor, cuidados e respeito. "Eu devo isso a ele", reforçou


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Nanquim se alimenta ao lado da ex-policial Kelly Thimóteo, que construiu um forte laço de afeto com o cavalo (Foto: Arquivo pessoal)

A advogada e ex-policial Kelly Thimóteo luta há mais de uma década pela adoção de Nanquim, um cavalo que foi explorado por anos pela Brigada Militar de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Durante três anos, enquanto Kelly era policial, Nanquim ficou sob sua responsabilidade. A proximidade entre os dois fez com que a dupla criasse um profundo laço de afeto. Atualmente vivendo distante do cavalo, a advogada sofre e enfrenta uma batalha para tentar trazê-lo para perto.

Tanta luta resultou em um abaixo-assinado com mais de 86 mil assinaturas favoráveis à adoção de Nanquim pela advogada e na Lei nº 15.106/18, a Lei Nanquim, que regulamenta o processo de adoção de cavalos e cachorros explorados por órgãos vinculados à Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Sul e determina que eles sejam destinados prioritariamente para funcionários do poder público que foram responsáveis por eles em algum momento, como é o caso de Kelly. Além disso, a legislação proíbe que os animais sejam leiloados, como acontecia antes, e que sejam adotados para serem explorados para fins de comercialização ou qualquer outra atividade econômica.

Em entrevista exclusiva à Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), a advogada falou sobre sua luta para adotar o cavalo e contou que sente que a casa dele é com ela. “E ele precisa voltar para casa”, afirmou. O amor entre os dois é tamanho que Nanquim sabia que a advogada estava se aproximando dele quando a ouvia gritar por seu nome e, em retribuição, relinchava.

“Quero poder gritar, como eu fazia quando eu chegava perto dele – eu tinha um grito especial e ele relinchava assim que eu falava o nome dele. Quero viver isso com ele de novo e cuidar dele até que um de nós passe desse mundo para o outro”, desabafou. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

ANDA: Como começou a sua história com o Nanquim? 

Kelly Thimóteo: Sou protetora de animais, hoje tenho 18 cães na minha casa. Não como carne há 11 anos. Já fui presidente de uma ONG que tutelava 400 animais. Faz muito tempo que eu trabalho em prol dos animais e o Nanquim é um cavalinho que representou bastante para muitos outros animais. Mas ele era da Brigada, então ele foi pago para mim como um objeto, como qualquer outro objeto, como a minha arma, como o meu colete, como qualquer outro objeto ele foi pago para mim. Só que não era assim que eu o tratava. Eu o tratava como um ser que sentia dor, que sentia fome, e era assim que eu tratava todos os animais do Pelotão. Eu fui a primeira mulher a trabalhar no Pelotão aqui do 3º Regimento, eu fiz um curso de doma racional – e eu nem gosto de chamar de doma, eu gosto de chamar de iniciação, que é quando a gente domestica um animal para que ela possa viver com a gente, é uma forma não agressiva de você conquistar o animal e ao conquistar o animal, você tem a obrigação de ter responsabilidade sobre o bem-estar daquele animal e inclusive sobre os sentimentos daquele animal.

ANDA: Qual é a situação atual do cavalo?

Kelly Thimóteo: Hoje o Nanquim está em uma instituição que ajuda crianças com deficiência. O cavalo tem mais de 18 anos, ele merece descansar. É isso que eu quero dar pra ele. O meu intuito não é montar nele, é cuidar dele. Não vou fazer cavalgada. Eu quero deixá-lo num lugar que ele possa descansar, possa pastar, solto, porque ele nunca pôde fazer isso na vidinha dele. Embora nos quase 4 anos que estive com ele, eu fiz tudo para dar o mais próximo ao natural possível. Eu não gostava que ele ficasse tanto tempo dentro da baia. Depois que eu deixei a polícia, ele ficou um tempo solto no campo e para o cavalo é a mesma coisa que você soltar um cachorro na rua. Um cavalo acostumado a ficar em baia, solto no campo vai sofrer demais. Não é isso que pretendo fazer com ele. Ele não tem condição de ficar solto no campo porque ele definha e morre.

ANDA: Como teve início sua luta pela adoção do cavalo?

Kelly Thimóteo: Começou assim.. Fiz um post há uns três anos, porque já faz 10 anos que estou tentando adotá-lo. Na época, fiz um post sobre a minha luta e aquilo viralizou. Houve um abaixo-assinado, que até não fui eu quem fiz, depois fui eu que fiquei como a pessoa que teve a iniciativa e nós não encontramos a pessoa que iniciou, não conseguimos encontrar. Tiveram mais de 86 mil assinaturas. Disso tudo resultou uma lei. Porque o que acontecia antes – que não deve acontecer mais, mas ainda está acontecendo: os animais que estavam sob a tutela do Estado eram tratados e infelizmente ainda são – apesar da lei, ainda têm alguns resquícios – absolutamente como coisas, eram tratados como bens, como qualquer outro bem. Então quando a polícia não tinha mais interesse neles, eles eram leiloados como qualquer outro bem para quem desse maior lance. Não importava o destino desses cavalos e cães da Brigada. Se alguém quisesse comprar um lote de cavalo para matá-los para consumo, poderia, ou para colocar em uma carroça, um cavalo com 18 anos de Brigada, poderia. Depois de toda essa luta, com a Lei Nanquim, os cães e cavalos da Brigada não podem mais ser leiloados, essa é a intenção da lei. Infelizmente, nós tivemos mais um leilão depois da lei, em março de 2020, em Santa Maria, mesmo contrário à lei

ANDA: Qual é, na sua opinião, a importância da Lei Nanquim?

Kelly Thimóteo: A intenção da lei é tratar os animais com dignidade pelo menos na hora da aposentadoria, quando o Estado não tem mais interesse neles. Para humanizar ainda mais a lei, teve no artigo terceiro, parágrafo único, a prioridade de adoção para quem trabalhou com o cavalo ou cachorro, porque a intenção da lei é deixar de tratar os animais como se fossem coisas. E a proximidade com a pessoa que trabalhou com o animal é muito maior e a prioridade tem que ser dada para essa pessoa, porque a adoção desses animais deve ser feita por quem quer cuidar, por quem ama.

Como no RS a gente tem essa cultura de ter cavalo, de utilizar cavalos, tinha-se muito cavalo dentro dos regimentos da Brigada Militar, eles eram leiloados em lotes de mais de dois, três animais. Eu viajei muitas vezes para Porto Alegre, ia aos leilões para acompanhar, porque até a lei sair eu não podia fazer nada, só poderia acompanhar, ver se eles estavam bem cuidados e estavam indo para alguém que não fosse usar para carroça. Essa lei, a princípio, tem grande utilidade, principalmente no Rio Grande do Sul.

A lei levou o nome dele por essa luta minha dentro do ativismo em prol dos animais que estão na Brigada. Eu me criei lá dentro, meu pai tem 35 anos de polícia, iniciou dentro dos regimentos, antes mesmo de caminhar eu já andava a cavalo, nós dois temos uma ligação muito especial com todos os animais, mas principalmente com cavalos. Meu avô era criador de cavalos. Temos uma proximidade muito grande.

ANDA: O Nanquim foi adquirido pela Brigada Militar (BM) ou já nasceu na instituição? Qual era a idade dele quando passou a conviver com você?

Kelly Thimóteo: O Nanquim nasceu na Brigada, ele era de uma égua que pertencia à BM. Chegou aos meus cuidados com cerca de 4 anos, antes de ser domado. Até os 4 anos, ele morou na fazenda da Brigada. A mãe dele faleceu logo depois que ele nasceu e ele foi criado com leite de vaca e sobreviveu. Foi um soldado que gostava muito da égua, mãe dele – tem histórias bonitas dentro de tudo isso, até no lodo mais escuro nasce flor -, que cuidou dele, não deixou que ele morresse de fome. Porque normalmente um potrinho que a mãe morre, acaba morrendo junto com ela. Mas ele tomou leite de vaca e chegou até os 4 aninhos. Ele é um cavalo pequeno, mirrado, por conta de toda essa situação que ele passou.

Eu sai da Brigada em 2010 e ele ficou mais 10 anos na Brigada. Ele tinha quatro anos e ficou comigo mais uns três. Já está prestes a completar 11 anos que sai. Ele deve ter cerca de 18 anos e permaneceu na BM até o dia 22 de janeiro de 2021. Saiu da polícia nesse dia.

O Nanquim, quando eu estava na polícia, foi entregue para mim, e ele era um potrinho xucro. Eu fiz um curso dentro da Polícia Militar, mesmo contra o meu comando, que não queria que eu fizesse o curso por eu ser mulher, eu fiz o curso e eu iniciei o Nanquim na Patrulha, fui a primeira pessoa a montar nele, a levá-lo para a patrulha montada, passamos muitas coisas juntos, chuva, sol, ele é um animal muito especial. Depois que sai da polícia e me formei, – hoje sou advogada -, eu tentei adotar o cavalo, falei inclusive com o comandante geral na época, mas ele era um bem do Estado e não era bem assim para desafetar esse bem. Nós precisaríamos de uma lei diferente.

O Nanquim ficou três anos desaparecido do quartel, me falavam que ele estava na fazenda da Brigada, que é perto da cidade, só que lá é de difícil acesso, é um lugar muito grande. Eu ia visitar e nunca o encontrava, cheguei a pensar que ele tinha morrido e não queriam me falar. Só que um dia, após eu e minha mãe percorrermos a fazenda a pé por dois dias, encontramos o Nanquim. Ele estava em um estado deplorável, muito magro. Eu e uma amiga, que também é ativista, fomos tirar satisfação com os responsáveis, e essa amiga minha saiu presa de dentro do quartel. Eles não me prenderam porque sou advogada, mas minha amiga saiu presa e responde processo por desacato, mas nunca desacatou, isso foi uma retaliação pelo fato de eu enfrentar esse sistema e não concordar com o jeito como os animais são tratados – eram tratados, pelo menos, na época, mas vem melhorando.

Aí começou toda essa campanha para que eu pudesse ficar com o cavalo e eles colocaram o Nanquim para trabalhar de novo por mais dois anos. Agora ele está na idade limite, eles levaram o animal até a idade máxima, mesmo tendo outros animais lá, eles colocaram o Nanquim para trabalhar para não dar o cavalo para mim, essa é a minha opinião. Agora saiu a descarga do cavalo, ele é considerado “inservível” por causa da idade e eu tinha prioridade, fui uma espécie de “garota propaganda” da lei que leva o nome do cavalo e eles acharam uma brecha ali dizendo que eu não sou mais funcionária pública e não posso mais ficar com o cavalo – na verdade, nem me deram resposta, isso foi um “disse me disse” que chegou até mim.

Aí mandaram o cavalo, mesmo com os meus requerimentos, para o Patronato de Erechim. Entrei em contato com a instituição para ver se desistiam da adoção e eles disseram que não porque tinham interesse no cavalo porque colocam as crianças com necessidades especiais para fazer equoterapia. Fiquei muito triste com a resposta que tive deles.

Estou nesta luta há 10 anos, desde que sai da polícia. E eu prometi para ele, no meu último dia de trabalho, que eu ia ficar com ele, que eu ia dar um descanso para ele. Está na hora da gente dar um descanso para ele, ele precisa pastar, correr solto, ir para a baia e dormir, sem cela, sem horário de trabalho, está na hora dele descansar. A gente precisa saber que os animais, assim como nós, também precisam descansar.

ANDA: De que forma você analisa a resistência da Brigada Militar para aceitar o seu pedido de adoção do Nanquim, mesmo após a sanção da legislação que versa sobre os animais explorados pelo Estado?

Kelly Thimóteo: A lei foi feita para humanizar o destino dos animais, visando a luta que eu tenho para dar uma destinação digna para os animais da Brigada, mas também para o caso do Nanquim especificamente. A prioridade teria que ser para mim e eles acharam uma brecha dentro da própria lei. Mas a lei não deve ser analisada friamente, não é matemática, ela não pode ser usada para prejudicar os outros, não pode ser interpretada de uma forma restritiva, a prioridade era minha sim.

Eu tenho com ele um dever de proteção, é um sentimento de proteção. Porque a gente tem uma ligação muito forte. Não é um simples capricho, porque se fosse por isso, eu tenho muitos animais aqui para me preocupar. Então não é um simples capricho. Eu devo isso a ele.

Quem não gosta de animal, não entende esse tipo de ligação. Nós, que gostamos, vivemos ao mesmo tempo uma benção e um fardo por gostar deles e sofrer junto com eles. Sinto que a casa dele é comigo e ele precisa voltar para casa. Quero poder gritar, como eu fazia quando eu chegava perto dele – eu tinha um grito especial e ele relinchava assim que eu falava o nome dele. Quero viver isso com ele de novo e cuidar dele até que um de nós passe desse mundo para o outro.


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