REFLEXÃO

Touradas: covardia e sadismo elevados à categoria de arte e tradição

Regina Schöpke *


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Foto: Reprodução | Vímeo

Hoje, revendo o debate sobre as touradas entre o filósofo galego Oscar Horta e o filósofo espanhol Fernando Savater (por quem, um dia, eu nutri certa consideração), fiquei realmente impressionada com os argumentos usados, pelo segundo, em favor desta cruel tradição. O debate já tem sete anos, mas é de uma atualidade absoluta e, mesmo contra todo o esforço de Savater para defender este espetáculo dantesco (que, sinceramente, só pode ser do gosto de pessoas que, há tempos, perderam qualquer mínima sensibilidade ou empatia com o sofrimento alheio ou, simplesmente, nunca as tiveram), a verdade é que o público das touradas na Espanha vem caindo consideravelmente nos últimos dez anos, chegando, nos últimos tempos, à metade do que era.

É claro que isso quer dizer alguma coisa, sobretudo, que não foi em vão o embate teórico de Horta, um crítico reconhecido do especismo com o mais do que convicto especista Savater (que não deixou, é claro, de fazer uso de todos os lugares-comuns para defender o indefensável: que podemos, sim, dispor de todas as vidas animais, sem qualquer pudor, simplesmente porque os animais não têm direito algum, ou porque simplesmente “a ética e a moral foram feitas pela nossa espécie e para servir a nossa espécie”, disse mais ou menos assim o filósofo defensor desta dita “arte” sanguinária). De fato, a moral e a ética são mesmo uma invenção nossa, e não uma condescendência divina, de modo que também se pode deduzir daí, e com ainda mais convicção, que também nós não temos, na realidade, qualquer direito real a nada (inclusive o direito de explorar e escravizar todas as espécies do mundo; se o fazemos, é por pura tirania).

Sim, o direito é uma invenção humana, tanto quanto a moral e a ética, mas será que, por esta razão, eles só são aplicáveis a nós, humanos, ou dizem respeito às nossas ações em geral? Como fica, por exemplo, a nossa relação com o meio que nos cerca e, sobretudo, com os outros animais que partilham conosco este mundo e também a mesma “mortalidade”. Refiro-me “a mesma mortalidade” para expandir um pouco mais a ideia de Savater, que coloca a humanidade irmanada em sua mortalidade, como se os animais estivessem fora deste ciclo de vida e morte. Claramente, há neste discurso algo de bem agostiniano e hedeggeriano que subjaz nas considerações sobre as diferenças entre nós e os animais – algo inconfessadamente teológico, apesar de Savater alegar que são as religiões, e não a moral, que pensam estas irmandades entre humanos e não humanos. Mas aqui trata-se também de mais uma falácia, pois só pouquíssimas religiões realmente consideram os animais como seres dignos de respeito; a maior parte delas se apresenta, ao contrário, como uma “boa” fonte do próprio especismo.

Foto: Reprodução | Internet

Em tudo e por tudo, a questão é: se um homem abusa de um outro animal (sim, somos também animais, por mais que alguns insistam em fingir que não), o espanca, o maltrata, o mata impiedosamente, e com requintes de crueldade, este homem não cometeu nenhum mal apenas porque este outro pertence a outra espécie, é isso mesmo que Savater quer dizer? Nossos atos abusivos só dizem respeito aos humanos? Só eles são dignos de consideração, compaixão ou empatia? Então quando se violentam outras vidas, quando se roubam delas sua liberdade ou a tratam como objetos, mesmo sabendo que elas sofrem, e muito, não se está sendo abusivo, é isso?

Sim, o abuso é algo que diz respeito apenas aos humanos (que foi para quem a moral foi criada), é o que nos deixa claro o filósofo espanhol. Mas é sobre os humanos mesmo que estamos falando; é isso que Horta busca mostrar, em todo o debate, quando fala de um ser moral, de um ser ético, entre uma fala arrogante e outra de Savater (típicas de quem está amparado em séculos de ideias e valores irrefletidos) e os sorrisos mal disfarçados do mediador que claramente simpatizava mais com o defensor das touradas, ou, eu diria, defensor de qualquer forma de exploração e aviltamento dos animais, já que, segundo Savater, eles não são dignos desta consideração. Simplesmente não são, e ponto. Afinal, Deus fez o mundo assim! Esta parte eu mesma acrescentei, porque é o que resta quando as ideias são defendidas sem problematização, sem críticas, sem reflexões maiores.

Sendo bem direta, para os que não pensam muito ou que têm, igualmente, uma moral bem limitada (e por moral limitada eu quero dizer uma moral bem parcial; “só se pode chamar de mal o que fazemos com seres semelhantes a nós”), talvez Savater lhes sirva bem. Mas para quem pensa e sabe que o que faz de nós seres morais é exatamente ter a consciência de que não devemos fazer mal aos outros, a qualquer outro, que não devemos nos beneficiar com o sofrimento alheio, etc., é difícil explicar, diria aqui Schopenhauer, como isso não se estenderia também aos animais, já que eles também sofrem como nós. Mas parece que até isso Savater deseja roubar do animal, o fato de ele ser também um outro; e, mais ainda, um outro de nós mesmos, pois, como animais, pertencemos todos a um mesmo Reino. Não somos outra coisa; não somos de outra cepa. Somos seres naturais, somos animais, somos mortais. Tudo isso já nos coloca em uma mesma comunidade, goste disso ou não o filósofo espanhol.

Foto: Reprodução | Internet

Se um homem não sente nada diante do sofrimento que ele próprio está causando a um outro animal, no caso aqui, o touro, e isso meramente por diversão ou por uma tradição evidentemente sádica (já que extrai prazer do sofrimento de outrem), pode-se mesmo defini-lo como um ser verdadeiramente moral? Savater acha que sim, já que, para ele, repetimos, os animais não merecem qualquer consideração desta natureza. Mas a pergunta é: aquele que maltrata um ser senciente, um ser que sofre e que tem consciência deste sofrimento (e, sim, ignóbil Descartes, não há mais como fingir que não!) só por prazer e distração, pode ser considerado um bom ser humano? Schopenhauer diz que não; e eu também.

Enfim, o filósofo da Galícia, Oscar Horta está de parabéns por este enfrentamento corajoso e, segundo penso, vitorioso (há sete anos e ainda hoje), mesmo que, para os mais desavisados e preguiçosos no que tange ao pensamento, Fernando Savater pareça trazer argumentos bem sólidos. Ele parece trazer argumentos sólidos exatamente porque fala do alto de uma moral de ideias prontas e repetidas há séculos, que, aliás, não conseguiu, em nenhum momento, dar certo para os próprios seres humanos, exatamente porque existe um nó difícil de desatar. O nó é o corte metafísico-religioso que se fez no seio do ser, e que criou a falsa ideia de que temos uma natureza diversa da natureza. Enquanto não enfrentarmos esta última fronteira, que nos arrancou da imanência da vida, ainda traremos em nós a famigerada hierarquia dos seres, que continuará impedindo a própria humanidade de atingir sua maioridade, ou seja, de pôr em prática uma verdadeira ética da vida, onde não existiriam mais seres superiores e inferiores, mas apenas e tão somente vidas; vidas que se entrelaçam, que se encontram e também se desencontram, no eterno devir do mundo.

Debate Oscar Horta Vs Fernando Savater from PACMA TV on Vimeo.

*Filósofa, historiadora e, atualmente, ocupa o cargo de Professora Adjunta do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UERJ. É autora dos livros Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze, o pensador nômade (Contraponto) – finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ciências Sociais –, Matéria em movimento – A ilusão do tempo e o eterno retorno (Martins Fontes) e Dicionário filosófico (Martins Fontes). É tradutora de diversas obras de filosofia e ciências humanas e, durante anos, foi resenhista de livros em jornais e revistas de grande circulação do país. No âmbito da causa animal, é fundadora do NEDA (Núcleo de Estudos de Direitos Animais), o primeiro grupo de estudos voltado para esta reflexão na Filosofia da UERJ. Atua, ocasionalmente, como colunista da ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), é vegana e defensora do abolicionismo como o primeiro passo na luta contra a tirania humana. Na área da proteção animal, tem um trabalho independente e, por vezes, em parceria com outros protetores, retirando cães e gatos do abandono das ruas para fins de adoção (tendo ela própria adotado vários deles). Publicou recentemente os livros “A alegria, a verdadeira resistência” e “As origens da opressão: a escravidão humana e animal” pela editora Confraria do Vento.

 


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