GANÂNCIA

O último refúgio de vida selvagem dos EUA está prestes a ser leiloado para exploração petrolífera

Kim Heacox | Traduzido por Luana Capela

13/01/2021

Dez mil anos de natureza intocada logo estarão em leilão, começando com US $25 o acre


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Imagem: Pixabay

Aqueles que defendem a exploração petrolífera no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico (Arctic National Wildlife Refuge – ANWR), um lugar de beleza selvagem estonteante no extremo nordeste do Alasca, raramente o chamam do que realmente é – um refúgio.

Em vez disso, o nome é reduzido a um acrônimo: ANWR. Eles falam em “abrir”, como se estivesse fechado. Não está. É uma terra pública. Eles falam em “explorar” o petróleo porque é isso que fazemos. Encontramos coisas, desenterramos, processamos, vendemos e depois queimamos ou, eventualmente, jogamos fora. Eles falam sobre a prospecção de uma maneira “ambientalmente segura” sem mencionar as centenas de derramamentos de óleo em Prudhoe Bay e ao longo do oleoduto Trans-Alaska, incluindo um derramamento de 267.000 galões que não foi detectado por dias. Eles falam sobre o “espírito empreendedor” da América e invocam o presidente Calvin Coolidge, que disse: “Afinal, o principal negócio do povo americano são os negócios”.

É um discurso de vendas adequado para um leiloeiro: — Se aproximem!

Em 6 de janeiro, o Escritório de Gestão de Terras, dirigido pela administração Trump, programou a realização de uma venda virtual de arrendamento de petróleo e gás – um “programa agressivo e competitivo de exploração e desenvolvimento” – para perfuração no ANWR. Mais especificamente na planície costeira de 1,5m de acre, o coração biológico do refúgio: o local de nascimento do rebanho de Porcupine caribous, a principal área de tocas para ursos polares no Mar de Beaufort (uma espécie ameaçada, com apenas 900 representantes) e a reprodução local de pássaros que todos os anos voam pelos oceanos e continentes para criar seus filhotes em uma tundra intocada bordada com flores.

Dez mil anos de beleza natural e equilíbrio – o último grande deserto dos Estados Unidos – logo estará “aberto” para quem der o lance mais alto, a partir de US $25 o acre. O vencedor pode iniciar o teste sísmico: sacudir a terra com enormes caminhões, despertando ursos polares em suas tocas. Se o teste mostrar uma promessa de petróleo (atualmente desconhecida), pode-se construir um complexo industrial de estradas, poços, usinas de dessalinização, pistas de pouso e oleodutos, todos ligados a Prudhoe Bay, cerca de 120 km a oeste. Do contrário, o teste sísmico sozinho produzirá muitas cicatrizes visíveis por décadas.

Como isso é possível? Simples. Na última página do enorme projeto de lei tributária federal de 2017, a senadora do Alasca, Lisa Murkowski, acrescentou a exploração de petróleo e gás como um “propósito” da ANWR. Ela e seus colegas republicanos disseram que isso injetaria uma receita significativa no tesouro, uma reivindicação que a Taxpaypayers for Common Sense, uma organização não-partidária fiscalizadora do orçamento federal, chamou de “abertamente irresponsável e fiscalmente imprudente”.

O Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico é a principal área de proteção para a população de ursos polares do Mar de Beaufort. Fotografia: Patrick J Endres / Getty Images

É assim que a beleza morre, como os lugares mudam para sempre, como os modos de vida tradicionais desaparecem. Tudo por dinheiro, com a falta do sagrado. “Por que a destruição de algo criado por humanos é chamada de vandalismo”, o autor Edward Abbey perguntou uma vez, “mas a destruição de algo criado por Deus é chamada de desenvolvimento?”

Meses atrás, quando cinco grandes bancos – JP Morgan Chase, Citigroup, Goldman Sachs, Morgan Stanley e Wells Fargo – anunciaram que não financiariam a extração de combustível fóssil no refúgio do Ártico, a delegação parlamentar republicana do Alasca foi à loucura. Os republicanos acusaram os bancos, na prática, de discriminação. Foi uma jogada desesperada feita por aqueles viciados em petróleo. O pouco conhecido Office of the Comptroller of the Currency (OCC) propôs então uma nova regra para impedir as instituições financeiras de se recusarem a emprestar a setores específicos em nome da “igualdade de acesso”. Outro movimento desesperado, um evidente momento de insensatez, quando Bank of America se juntou a seus irmãos.

“A perfuração do Refúgio do Ártico não faz sentido na realidade atual em que há alta volatilidade do mercado de petróleo e todos os grandes bancos dos EUA e muitos bancos internacionais estão relutantes em investir em projetos de petróleo árticos arriscados e caros”, afirmou Adam Kolton, diretor executivo da Alaska Wilderness League disse. “O governo está simplesmente correndo para vender um dos lugares mais inabitados que sobraram na terra por centavos de dólar antes que o presidente eleito Biden tome posse em janeiro”.

Nossa economia de combustível fóssil é, no longo prazo, suicida. Mas no Alasca conservador, politicamente falando, onde o petróleo financia 85% do orçamento operacional do estado e cada residente recebe um cheque anual de dividendos do petróleo, muitas pessoas se recusam a reconhecer isso. Eles preferem uma ilusão confortável à dura verdade. Eu sei. Moro aqui. O cheque de dividendos não é mais um presente: é um direito.

Quando o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou uma conclusão recente com base em mais de 600 estudos científicos revisados por especialistas, Elizabeth Kolbert, escrevendo no New Yorker, disse: “As descobertas … foram quase universalmente – e justificadamente – descritas como ‘terríveis’”. Devemos cortar nossas emissões de CO2 pela metade até 2030 e deixar 80% de todas as reservas de petróleo conhecidas no solo, sem queimá-las. Do contrário, nosso planeta experimentará um aumento estimado de quatro graus Celsius em 2100, uma geração a partir de agora, transformando a Terra em uma estufa. A vida não vai acabar. Mas a civilização como a conhecemos vai.

Este novembro foi o mais quente já registrado no mundo todo. Uma tempestade monstruosa, gerada pelo clima quente do Pacífico Norte, atingiu o sul do Alasca com chuvas, inundações e deslizamentos de terra nunca vistos. Casas arrastadas pelo mar, levando vidas. No norte, verões quentes bateram recordes, derreteram o permafrost e liberaram grandes quantidades de metano, um gás do efeito estufa com 80 vezes o impacto do CO2 para o aquecimento. Em algumas fozes de rios, salmões que ainda não tinham desovado morreram em números sem precedentes.

Por outro lado, o Banco Mundial estima que a energia renovável criará três vezes mais empregos por dólar investido do que o petróleo e o gás. Além disso, um novo estudo da University of Alaska conclui que as energias renováveis mitigarão os impactos climáticos que podem custar ao estado até US $700 milhões por ano.

O povo Gwich’in chama o Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico de Gwats’an Gwandaii Goodlit – “o lugar sagrado onde a vida começa”.

Por milênios, eles caçaram caribus e colheram frutos, contaram histórias e ensinaram a seus filhos o respeito por todas as coisas vivas. Para salvar o refúgio, os Gwich’in entraram com processos judiciais em conjunto com outros grupos nativos e visitaram os principais bancos, vestidos com suas roupas tradicionais. Eles falam com reverência e conhecem os costumes do caribu e da Terra selvagem.

Sabem ouvir.

Nós sabemos?

* Kim Heacox é autor de alguns livros, incluindo “The Only Kayak”, um livro de memórias, e “Jimmy Bluefeather”, um romance, ambos vencedores do National Outdoor Book Award. Ele mora em uma pequena cidade na costa do Alasca.


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