Artigo

Pondé: o filósofo de churrascaria que teme a ditadura da rúcula

Regina Schöpke*

03/01/2021


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Divulgação

Não sou muito de perder tempo com tolices, muito menos com aquelas que são proferidas por “filósofos-estrelas”, que são aqueles que transformaram a filosofia num rentável negócio para si mesmos. É claro que não se pode negar que não há nada melhor do que fazer aquilo que se gosta e ainda ganhar muitíssimo com isso, a não ser por um único senão. É que, no que diz respeito, especificamente, à filosofia, estas coisas não andam realmente juntas, e aqui não há muito espaço para relativismos: ou se trabalha duro ou se busca a fama fácil.

Dito isto, repito que não costumo dar muita atenção ao que alguns chamados filósofos pop e formadores de opinião divulgam por aí. No entanto, ao ler na coluna do jornal Folha de São Paulo (que realmente já teve dias bem melhores) o artigo do popularizador (ou seria “mediocrizador”?) da filosofia, o Sr. Luiz Felipe Pondé, intitulado “Quem crê em conspirações acha que é Einstein, mas não come ninguém” (aliás, um título bem de acordo com o alto nível do seu artigo) não pude, primeiramente, deixar de gargalhar (sou humana e sempre rio quando me deparo com bobagens muito gritantes). Mas, depois, levada por um senso de verdade ou, se preferirem, de sensatez (afinal, a verdade já não importa mais a ninguém, menos ainda ao autor do referido artigo), achei que os excessos de ignorância, preconceito e raciocínios pueris (para ser bem gentil) não poderiam ficar sem resposta. Num certo sentido, até começo a desconfiar que os rendimentos da fama já não estejam bastando (afinal, como diz Epicuro, “Para quem pouco não basta, nada basta”) e talvez novas frentes de negócios estejam sendo abertas, pois não dá para entender este prazer de atacar os veganos; que, aliás, nem sei por que aparecem neste artigo.

Sim, é um ódio tão mal disfarçado deste senhor ao veganismo, que nos faz pensar quais seriam suas razões mais profundas; ódio que parece muito bem partilhado, em outros momentos, pelo Sr. Leandro Karnal, e também por uma senhora igualmente midiática, que se proclama zen budista, chamada monja Coen, que parece ter grandes asceses e profundas elevações espirituais nas churrascarias. Sim, é interessante ver como alguém que deveria nos dar um exemplo de compaixão e empatia com todas as vidas (pois é isso que ensina tal doutrina, ainda que não condene o consumo de carne pelos monges que vivem de esmolas, na falta de outro alimento, é claro), faz questão de mostrar seu profundo desprezo e indiferença pelos sofrimentos indizíveis que infligimos aos animais, e por prazer tão somente, não por necessidade real.

Pois bem, Sr. Pondé, se pudesse lhe falaria, pessoalmente, que seu ódio o faz vítima de si mesmo, levando-o a perder a noção do que está propagando por aí. Afinal, de onde vem esta análise tão esdrúxula, tão superficial e rasteira, que não apenas coloca os veganos no mesmo “saco” de irracionalistas que defendem teorias conspiratórias ou são do grupo antivacina (ele coloca os veganos como uma das “três tribos delirantes” do nosso tempo), como ainda faz uma leitura pífia e falaciosa do veganismo que só parece mesmo reforçar o que foi dito acima: que não se pode ser um “arroz-de-festa” e ter tempo para produzir pensamentos profundos e coesos. O dito autor, ao invés de aproveitar um espaço tão ilustre, chamando a atenção para esta onda verdadeiramente irracionalista de pessoas que temem mais um conluio comunista mundial do que um vírus que está matando tantos todos os dias, ou mesmo para defender a necessidade da vacina neste momento, prefere, antes de tudo, aproveitar o ensejo para atacar os veganos, e, diga-se de passagem, com os argumentos mais infantis que se possa imaginar, sem qualquer ancoragem na realidade. Afinal, associar o veganismo a um delírio alimentar ou a uma espécie de religião de adoradores de alfaces, rúculas e frutas é tão bizarro que nem mereceria comentários – sem contar que ele ainda adverte que tais adoradores de frutinhas são autoritários, antissociais e, ainda por cima, não humanistas. De fato, essa gente é de dar medo!

Pois é, para além da difícil tarefa de ler asneiras, não deixa de ser curioso observar as contradições do pensamento do Sr. Pondé, pois fica mais do que claro que ninguém é mais autoritário do que aquele que se vale de seu poder de fala na mídia para destilar ódio e ataques infundados àqueles que tão somente decidiram romper com o ciclo vergonhoso e perverso da exploração e mercadorização de vidas, ou seja, que resolveram dizer “não” à lógica exploratória humana, absolutamente patológica, embora profundamente naturalizada, a qual o autor do artigo se mostra tão profundamente apegado.

Reprodução | Instagram

Trata-se, sem dúvida, de um ataque tão mal embasado, que não apenas demonstra um profundo desconhecimento da causa animal pelo referido autor, como acaba expondo seu desejo de “varrer” os veganos do mundo. Sim, é indisfarçável o desejo do Sr. Pondé de difamar o veganismo. E não, não me venha com já propaladas falácias que culpam a natureza pelo nosso excesso de tirania e despotismo. A natureza está bem longe de agir como age a “besta humana”, para usar as palavras do grande Leonardo da Vinci. De modo que a pergunta que precisa ser feita, e que acaba por evidenciar o próprio delírio do Sr. Pondé, é: será que ele teme mesmo uma ditadura vegana, ou seja, uma ditadura feita por aqueles que exatamente condenam toda forma de opressão e todo abuso de poder? Ou será que ele apenas sente sua lógica ameaçada; teme, por assim dizer, conscientemente ou não, que nos demos conta de que podemos ser diferentes do que somos, que podemos ser mais éticos e realmente mais humanos? Porque isso, de fato, denunciaria aqueles que, como ele, agem assim porque simplesmente não se importam, porque são mesmo frios e indiferentes à crueldade, pelo menos até que sejam vítimas dela, até que tenham suas próprias vidas e liberdades roubadas, é claro!

Pois bem, a causa animal está muito longe de ser uma causa ingênua de quem apenas ama bichos e alfaces (aliás, há muitos protetores de animais que sequer são veganos, o que não deixa de ser também uma profunda contradição); e também está longe de ser uma religião, a começar pelo fato de que os próprios filósofos, que estão na linha de frente desta problematização, nada têm de religiosos. O veganismo tem um fundamento essencialmente ético, pois deseja exatamente nos chamar à razão sobre o que fazemos com os outros seres do mundo, e com nós mesmos. Afinal, não temos sido apenas antiéticos em nossas relações com o mundo, temos sido, sobretudo, suicidários quando nos colocamos à parte da natureza, como se fôssemos de outra cepa, como se não fôssemos seres naturais, como se também não fôssemos animais. Este, sim, é o maior dos delírios humanos. E não é por outra razão que a luta pela libertação animal é a luta mais genuína de todas, porque é a única que encara o fato de que somos todos opressores de vidas, rompendo com a lógica dualista de dominadores e dominados das demais lutas humanas… ou seja, ela escancara o nosso problema mais estrutural: que nossa espécie se constituiu, desde os primórdios, como usurpadora de vidas, de todas as vidas, animais e humanas.

Bem, não nego que ouvir algumas feministas veganas chamarem os galos de machistas e opressores das galinhas (como foi muito divulgado nas redes sociais), não é algo que ajude muito o movimento, tanto quanto os veganos antivacina, mas não se pode, a partir destes delírios e outros mais (sim, há delirantes em qualquer movimento; isso é humano e não diz respeito aos movimentos em si), dizer esta sandice de que veganos desejam um mundo assexuado, um mundo onde todos os animais devem ser castrados. Seria bom, repito, que o Sr. Pondé encontrasse um tempinho, entre as inúmeras gravações e aparições que faz, para ler um livro sério sobre a causa animal (para não passar pelo ridículo de apresentar este veganismo caricato e boçal).

Em poucas palavras, não há, definitivamente, nenhuma sustentação nas coisas que são ditas a respeito do veganismo e dos veganos neste artigo, e muito menos nas ideias simplistas sobre os animais e a natureza que o autor e outros costumam proferir. Não há mesmo besta maior do que a humana e, certamente, não herdamos da natureza o que temos de pior. As espécies carnívoras matam para se alimentar por necessidade vital, nunca por diversão, esporte ou crueldade, e muito menos matam para satisfazer fetiches alimentares. Os animais não escravizam e nem abusam uns dos outros. Sem contar que o homem não é originariamente carnívoro, ponto. Isso já seria algo bastante importante para reter o nosso pensamento, sobretudo, porque este discurso da necessidade da carne, ou de qualquer produto de origem animal, sustenta uma indústria de morte terrível, que nunca esteve preocupada em matar a fome de ninguém, a não ser a fome infinita de lucros dos que cafetinam a vida animal.

Enfim, quando “autoritário” passa a se referir aos que lutam (e através do próprio exemplo e conscientização, e não pela força bruta) contra a opressão de todas as vidas, alguma coisa deve estar muito errada com os conceitos e com a própria razão. Aconselho também ao autor a ler mais sobre a vida natural e sobre o ecossistema que nossa desvairada tirania está destruindo de forma irremediável, embora imagine que isso não lhe interesse muito. Afinal, depois de deixar de ser ateu (e, quem sabe, também num momento de iluminação na churrascaria, entre uma picanha e uma linguiça), talvez o Sr. Pondé agora acredite em paraísos e infernos, de modo que esta coisa de se preocupar com animais e com a natureza só poderia mesmo ser, para ele, coisa de gente irracional como nós.

Cena do filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick

Pois é, a “razão” que o Sr. Pondé pretende contrapor à desrazão dos veganos só tem nos levado ao abismo (ou será que é tão difícil perceber que a pandemia atual é só o reflexo da nossa predatória existência?), assim como também têm nos levado ao precipício as religiões que ajudam a reforçar esta razão que continua firme no seu intento de hierarquizar vidas e submeter todas elas aos nossos interesses megalômanos e suicidários. Se é isso que é ser racional, então preferiria mesmo ser irracional, embora saiba muito bem que não somos nós os irracionalistas, mas, sim, os que insistem em manter algo moralmente deplorável e insustentável para a vida no planeta. Ah, sim, quem sou eu para falar assim? Antes de tudo, sou aquela que se dedica ao trabalho árduo e pouco rentável do pensamento. Mas se isso é o mesmo que ser ninguém para alguns, então eu digo com orgulho, repetindo Jorge Luiz Borges, “que meu nome seja Ninguém, como o de Ulisses”!

*Filósofa, historiadora e, atualmente, ocupa o cargo de Professora Adjunta do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UERJ. É autora dos livros Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze, o pensador nômade (Contraponto) – finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ciências Sociais –, Matéria em movimento – A ilusão do tempo e o eterno retorno (Martins Fontes) e Dicionário filosófico (Martins Fontes). É tradutora de diversas obras de filosofia e ciências humanas e, durante anos, foi resenhista de livros em jornais e revistas de grande circulação do país. No âmbito da causa animal, é fundadora do NEDA (Núcleo de Estudos de Direitos Animais), o primeiro grupo de estudos voltado para esta reflexão na Filosofia da UERJ. Atua, ocasionalmente, como colunista da ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), é vegana e defensora do abolicionismo como o primeiro passo na luta contra a tirania humana. Na área da proteção animal, tem um trabalho independente e, por vezes, em parceria com outros protetores, retirando cães e gatos do abandono das ruas para fins de adoção (tendo ela própria adotado vários deles). Publicou recentemente os livros “A alegria, a verdadeira resistência” e “As origens da opressão: a escravidão humana e animal” pela editora Confraria do Vento.

*Confira abaixo as sinopses dos livros:

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