Espiral mortal

Mudança climática provoca cenário crítico no Ártico

Layse Ventura | Redação ANDA

02/01/2021


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Imagem ilustrativa: Pixabay

No fim de julho, 40% da plataforma de gelo de 4 mil anos Milne, localizada no topo noroeste da Ilha Ellesmere, partiu-se no meio do oceano. A última plataforma de gelo totalmente intacta do Canadá não existia mais. No outro lado da ilha, na parte mais norte do Canadá, a calota de gelo St. Patrick’s Bay desapareceu completamente.

Duas semanas depois, cientistas concluíram que o manto de gelo da Groelândia pode já ter passado do ponto sem volta. A queda de neve anual já não é o suficiente para repor a neve e o gelo perdidos durante o derretimento no verão das 234 geleiras do território. Ano passado, o manto de gelo perdeu uma quantidade recorde de gelo equivalente a 1 milhão de toneladas métricas a cada minuto.

O Ártico está se desmanchando. E isso está acontecendo mais rápido do que qualquer pessoa poderia ter imaginado há apenas algumas décadas. O norte da Sibéria e o Ártico canadense estão se aquecendo três vezes mais rápido do que o resto do mundo. Na última década, as temperaturas no ártico aumentaram quase 1°C. Se a emissão de gases de efeito estufa permanecer na mesma trajetória, nós podemos esperar que o norte se aqueça 4°C durante o ano todo até a metade do século.

Não há faceta na vida no Ártico que permaneça intocada pela imensidão das mudanças lá, exceto talvez a dança eterna entre a luz e as trevas. O Ártico como o conhecemos – uma vasta paisagem gelada onde renas vagueiam, ursos polares se banqueteiam e as águas fervilham de bacalhau e focas – logo ficará congelado apenas na memória.

Um novo estudo da Nature Climate Change prevê que o banco de gelo flutuante na superfície do Oceano Ártico no verão pode desaparecer totalmente até 2035. Até relativamente recentemente, os cientistas não pensavam que atingiríamos esse ponto até 2050, no mínimo. Reforçando esta descoberta, no mês passado o banco de gelo do Ártico atingiu o recorde de sua segunda menor extensão em 41 anos de monitoramento por satélite.

“Os últimos modelos estão basicamente mostrando que não importa o cenário de emissão que sigamos, nós vamos perder a cobertura de banco de gelo nos verões antes do meio do século”, diz Julienne Stroeve, uma pesquisadora sênior no Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos Estados Unidos. “Mesmo que nós continuemos a esquentar menos de 2°C, é ainda o suficiente para perder o banco de gelo nos verões em alguns anos”.

Em postos avançados no Ártico canadense, o permafrost está degelando 70 anos antes do que o previsto. As estradas estão sendo danificadas. As casas estão afundando. Na Sibéria, crateras gigantes desfiguram as tundras conforme as temperaturas sobem, alcançando 38°C em julho na cidade de Verkhoyansk. Nesta primavera, um dos tanques de combustível da usina de energia russa desabou e vazou 21 mil toneladas métricas de diesel em uma via de água próxima, sendo atribuída a causa do derramamento ao permafrost diminuído.

O desgelo do permafrost libera dois potentes gases de efeito estufa, dióxido de carbono e metano, na atmosfera e exacerba o aquecimento planetário. O calor crescente leva a incêndios violentos, agora comuns em partes mais quentes e secas do Ártico. Nos últimos verões, incêndios invadiram a tundra da Suécia, Alasca e Rússia, destruindo a vegetação nativa.

Isso prejudica os milhões de renas e caribus que se alimentam de musgos, líquens e restolhos. Eventos desastrosos de água-neve também aumentaram em frequência, aprisionando no gelo os alimentos forrageiros preferidos dos ungulados; entre 2013 e 2014, cerca de 61 mil animais morreram na península russa de Yamal, devido a fome em massa durante um inverno chuvoso. Ao todo, a população global de renas e caribu diminuiu até 56% nos últimos 20 anos.

Tais perdas devastaram a população indígena, cuja cultura e meios de subsistência estão entrelaçados com a condição das renas e caribus. Os inuítes usam todas as partes do caribu: tendão para linha, pele para roupa, chifres para ferramentas e carne para comida. Na Europa e na Rússia, o povo Sami pastoreiam milhares de renas pela tundra. Invernos mais quentes forçaram muitos deles a mudar a forma como conduzem seus meios de subsistência, por exemplo, fornecendo alimento suplementar para suas renas.

Ainda assim, alguns encontram oportunidade na crise. O derretimento do gelo tornou os abundantes depósitos minerais da região e as reservas de petróleo e gás mais acessíveis aos navios. A China está investindo pesadamente na Rota do Mar do Norte, uma região cada vez mais livre de gelo no topo da Rússia, o que promete reduzir o tempo de transporte entre o Extremo Oriente e a Europa em 10 a 15 dias.

Imagem ilustrativa: Pixabay

A Passagem do Noroeste através do Arquipélago Ártico Canadiano pode em breve produzir outro atalho. E na Groelândia, o gelo que está desaparecendo está desenterrando uma riqueza de urânio, zinco, ouro, ferro e outros raros elementos da terra. Em 2019, Donald Trump afirmou que ele estava considerando comprar a Groelândia da Dinamarca. Nunca antes o Ártico desfrutou de tal relevância política.

O turismo disparou, pelo menos até o fechamento pelo Covid, com multidões de visitantes ricos atraídos para esta fronteira exótica na esperança de capturar a selfie perfeita sob a aurora boreal. Entre 2006 e 2016, o impacto do turismo de inverno aumentou em mais de 600%. A cidade de Tromsø, na Noruega, apelidada de “Paris do Norte”, recebeu apenas 36 mil turistas no inverno de 2008-09. Em 2016, esse número subiu para 194 mil. Subjacente a esse interesse, no entanto, há um sentimento implícito: que esta pode ser a última chance que as pessoas têm de experimentar o Ártico como antes.

Parar a mudança climática no Ártico requer uma enorme redução na emissão de combustíveis fósseis, e o mundo fez poucos progressos, apesar da óbvia urgência. Além disso, muitos gases de efeito estufa persistem em nossa atmosfera por anos. Mesmo que interrompêssemos todas as emissões amanhã, levaria décadas para que esses gases se dissolvessem e as temperaturas se estabilizassem (embora algumas pesquisas recentes sugiram que o período poderia ser mais curto). Nesse ínterim, mais gelo, permafrost e animais seriam perdidos.

“Deve haver tanto uma redução nas emissões quanto na captura de carbono neste ponto”, explica Stroeve. “Nós precisamos retirar o que já colocamos lá.”

Outras estratégias podem ajudar a mitigar os danos ao ecossistema e a seus habitantes. A aldeia yupik de Newtok, no norte do Alasca, onde o degelo do permafrost erodiu o solo sob os pés, será realocada em 2023. Os grupos de conservação estão pressionando pelo estabelecimento de várias áreas de conservação marinha em todo o Alto Ártico para proteger a vida selvagem que luta. Em 2018, 10 partidos assinaram um acordo que proibiria a pesca comercial em alto mar na parte central do Oceano Ártico por pelo menos 16 anos. E os governos devem ponderar mais regulamentações sobre novas atividades de transporte marítimo e extrativistas na região.

O Ártico do passado já se foi. Seguindo nossa trajetória climática atual, será impossível retornar às condições que víamos há apenas três décadas. No entanto, muitos especialistas acreditam que ainda há tempo para agir, para preservar o que um dia foi, se o mundo se unir para evitar mais danos e conservar o que resta deste ecossistema único e frágil.


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