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Porco resgatado por santuário protagoniza comercial de Natal

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O Santuário Voz Animal lançou recentemente um comercial de Natal protagonizado pelo porquinho Pingo. O animal, que é paraplégico, conheceu o sofrimento de perto, mas o deixou no passado no momento em que foi resgatado pelo santuário de Eldorado do Sul, no estado do Rio Grande do Sul.

O resgate foi realizado após o porco ser encontrado às margens de uma rodovia, sem o movimento das patas traseiras. Nas redes sociais, Pingo conquistou o coração dos internautas e, por conta de sua história comovente, foi escolhido para estrelar o comercial produzido pela Futuro Filmes.

No comercial, um chef de cozinha dá o recado: “vai ter porco para a ceia!”. Em seguida, Pingo aparece e participa da confraternização de Natal, degustando um delicioso brócolis e mostrando que o lugar dos porcos é ao lado dos humanos, não em seus pratos.

As imagens comoventes alcançaram, até o momento, mais de 1,7 mil visualizações. Postado em uma rede social, o vídeo recebeu dezenas de comentários de pessoas que integram a luta pelos direitos animais. “Único jeito possível de ter um porquinho na ceia”, escreveu um internauta. “Sensacional!! Parabéns pelo trabalho hercúleo de salvar vidas inocentes, vocês são muito guerreiros!”, disse outro.

Para saber mais da história de Pingo e conhecer um pouco dos bastidores da gravação do comercial, a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) entrevistou o sócio-fundador do santuário, Fernando Antunes. Confira abaixo a entrevista na íntegra e, ao final, o vídeo do comercial.

ANDA: Qual é a história do Pingo?

Fernando Antunes: Pingo foi encontrado às margens da BR 290, em Eldorado do Sul, por uma família de agricultores. Sem conseguir movimentar a parte traseira do corpo, foi diagnosticado com fratura da espinha dorsal com ruptura total da medula, o que significava que nunca mais voltaria a andar. A lesão teria sido provocada pela provável queda de algum transporte que o levava a um matadouro ou criadouro da região.

Diante da gravidade do problema, os veterinários que fizeram o primeiro atendimento do Pingo recomendaram o sacrifício. Apesar dos prognósticos desanimadores, o Santuário Voz Animal, que tutelou o animal a pedido da família que o encontrou, decidiu buscar novas opiniões sobre o estado de saúde de Pingo. Um veterinário especialista em ortopedia animal revelou que, apesar da gravidade do problema, Pingo poderia ter uma vida feliz no santuário se alguns tratamentos e cuidados fossem tomados.

No entanto, eram necessários três longos meses de fisioterapia em uma clínica especializada em Porto Alegre. O drama do porquinho paraplégico chamou a atenção nas redes sociais, e muitas pessoas se disponibilizaram a ser “casa de passagem” para ele até que o tratamento terminasse e ele pudesse ser levado em definitivo para o santuário. As pessoas que se revezaram como hóspedes e protetoras ficaram conhecidas como “as mães do Pingo”.

Passado o período de tratamento, Pingo pôde finalmente conhecer o santuário, onde vive feliz e livre junto com outros animais. Por sua condição especial, um terreno foi preparado com casa, grama, areia macia e muita lama para que ele pudesse viver plenamente como um porquinho livre.

Hoje, Pingo também faz sucesso nas redes sociais. Fotos e vídeos do cotidiano do Porquinho são postados quase que diariamente nas contas do Instagram e do Facebook, e muitos seguidores já anunciaram em mensagens a ele que deixaram de comer carne por causa de sua história.

Pingo também foi destaque em jornais do estado e do país por se tornar o primeiro porquinho do Brasil a ganhar uma carteira de identidade de animal doméstico, o que o descaracteriza da condição de “animal de produção”, em que é considerado um “bem substituível por outro da mesma espécie”, para colocá-lo numa situação sui generis, de reconhecimento de sua individualidade.

ANDA: Quantos animais vivem no Santuário Voz Animal?

Fernando Antunes: Hoje, o santuário abriga mais de 300 animais de diversas espécies em seus espaços, sendo aproximadamente 150 aves (entre patos e galinhas), 70 cães, 60 gatos, duas burrinhas, duas vacas, uma ovelha, um cavalo e cinco porquinhos. Os custos para manter esses animais giram em torno de 15 mil reais mensais, contando com alimentação, manutenção de espaços, limpeza, tratamentos veterinários e pagamento de funcionários.

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O território onde estes animais estão abrigados compreende uma área de aproximadamente 2,5 hectares, dividido de forma a preservar, dentro do possível, espaços que forneçam as condições e habitats necessários ao pleno desenvolvimento das espécies protegidas.

ANDA: Por quê o Pingo foi o animal escolhido para protagonizar o comercial?

Fernando Antunes: A ideia do comercial não partiu da gente, ela partiu do pessoal da Futuro Filmes. Eles nos procuraram e já vieram com essa ideia pronta do Pingo ser a estrela pela representatividade de luta e de resistência que ele tem. Inicialmente, nós não tínhamos aceitado porque somos contra a tentativa de humanização dos animais e na ideia original o Pingo sentaria na mesa e isso seria contra tudo o que a gente acredita. Mas aí eles explicaram que eles conseguiriam fazer de um jeito que não mudasse nada para o Pingo, que ele ficasse muito feliz com a gravação do vídeo, sem ter que usar nenhum adereço, e que seria rápido. Então aceitamos, mas ainda com o poder de veto caso o comercial não passasse a mensagem que eles nos prometeram passar, que era uma mensagem ao mesmo tempo leve e divertida e que não deixasse de fazer a sua função enquanto uma peça que provoca questionamentos sobre a exploração animal. E o Pingo foi a grande estrela porque ele tem uma personalidade única. Ele é um bichinho muito sociável. Sempre que rolava visitas lá no santuário, ele ficava muito feliz, porque como ele teve esse período de tratamento em Porto Alegre e ficou muito apegado às pessoas. Então ele adora receber pessoas, brinca, se diverte, é curioso, conversa.. E ele foi o escolhido para o comercial por conta dessa sociabilidade e pelo simbolismo que ele carrega.

ANDA: O comercial foi gravado no santuário? Como foi a gravação para o Pingo e para vocês?

Fernando Antunes: A parte do jantar foi gravada lá no santuário. O Pingo fica em um espaço que foi especialmente preparado para ele porque ele não movimenta as patinhas de trás e tem que arrastar o corpo. Então a gente preparou um espaço do qual ele não pode sair sob risco de se machucar e a condição era de que a gente conseguisse fazer a gravação lá no espaço dele, que é bem bonitinho, com algumas árvores com a copa bem baixinha, nas quais eles colocaram as luzes de Natal. Para o Pingo, foi mais um dia de brincadeira e de comilança. Ele se divertiu muito, ficou encantado com as luzinhas de Natal, ficava cheirando e dava os pulinhos que ele dá quando está feliz. Quase tudo o que levamos ele comeu antes da gravação. O que sobrou foi o brócolis, que ele aparece comendo com a Fernanda, fundadora do santuário, no vídeo. A gravação foi rápida, não durou nem 15 minutos. Claro, teve um tempo de preparação de cenário antes, no qual todos os cuidados foram tomados. Eu e a Fernanda que instalamos as coisas, não deixamos ninguém que não tivesse uma afetividade visível pelo Pingo entrar. O pessoal que atuou, todos eram veganos, todos da causa animal, então ficou um clima muito legal. Ele demonstrou muito encantamento pela situação e foi um dia muito especial para ele. Ao final, a gente deixou as luzes lá um pouquinho porque ele ficou muito encantado, olhando e cheirando. O Pingo entendeu o espírito natalino de outro jeito, ele parecia uma criança.

Para nós, deu um pouco de receio. Eu particularmente estava receoso porque nunca fiz algo nesse sentido. Apesar de ser jornalista e de já ter trabalhado em TV, uma peça comercial assim eu nunca tinha feito. Mas os guris são muito profissionais e a coisa fluiu. A gente conseguiu brindar, teve uma hora que ficou eu, a Fernanda e o Pingo e a gente fez muito carinho nele. Esse trecho até aparece no vídeo. A gente curtiu muito o clima natalino, foi uma ceia verdadeiramente com ele comendo de tudo, brócolis, maçã que ele adora, e a gente fazendo muito carinho nele no meio daquelas luzinhas. Então, ele começava a mastigar e voltava a olhar para as luzes. Foi muito legal, um momento muito mágico para ele e para nós também obviamente, porque a gente o viu muito feliz e sempre que ele fica feliz a gente fica feliz.

ANDA: Como é o dia a dia ao lado do Pingo?

Fernando Antunes: Uma das coisas que eu acho importante falar é que toda a literatura que existe sobre porcos no Brasil infelizmente está direcionada à produção. Isso quer dizer que a gente tem pouquíssimas informações sobre os porcos que vão viver mais de um ou dois anos, porque na indústria eles são mortos em algum momento, a não ser que seja uma mãe que vai servir de matriz para se gerar porquinhos. A gente procurou muito, pesquisou, mas toda a literatura, pelo menos a que é disseminada e conhecida, fala muito de comportamentos de 6 meses a 1 ano e é muito focada na questão de manejo dos animais. A gente não tem absolutamente nada sobre comportamento dos porcos, então tivemos que aprender muito no cotidiano e na convivência com o Pingo e com os outros porquinhos que vivem no santuário. E essa convivência nos mostra que o hábito de consumir porcos é uma tragédia sem tamanho. São seres extremamente sensíveis, afetuosos, que nos reconhecem a todo instante, que conversam, que se comunicam de uma maneira muito clara. Quando a gente aprende a linguagem deles, é muito claro o que eles querem. Eles são específicos, desenvolvem estratégias para se comunicar querendo demonstrar o que eles querem, se querem brincar, comer, sair, ir ao banheiro. E também são extremamente higiênicos, jamais fazem as necessidades no lugar onde comem e dormem.

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São tantos aprendizados com o Pingo que dói na alma quando a gente se depara com essa triste realidade de que eles são animais de produção, porque a gente perde essa convivência com eles. Dói na alma, é até difícil traduzir. As pessoas não sabem disso porque os animais são ocultados da nossa percepção justamente para para que a gente não veja e consequentemente não sinta e não se sensibilize com o sofrimento e com os sentimentos deles. Mas eles nos ensinam diariamente. E isso faz com que os santuários tenham muito sentido de existir, esses territórios de resistência e de libertação animal que devem ser cada vez mais fortalecidos para que a gente consiga ganhar espaço nessa luta.

ANDA: Qual é o objetivo do comercial?

Fernando Antunes: São dois. O primeiro e mais óbvio é colocar ruídos contra o especismo estrutural que paira no imaginário coletivo. Quebrar o paradigma do “papel do porco” nas ceias de Natal e Ano Novo, no sentido de que se ele teria um papel a desempenhar neste cenário, seria com um lugar à mesa, vivo e feliz. O segundo é realmente divulgar o trabalho do santuário, que hoje passa por muita dificuldade na obtenção de recursos. Nossos gastos mensais são enormes e já tivemos que fazer alguns empréstimos para dar conta de tudo o que envolve manter o santuário. Estamos com uma campanha de apadrinhamento onde pedimos contribuições mensais a quem se sensibiliza com a causa. É uma forma de compartilhar esta responsabilidade com quem sempre quis ajudar de alguma forma.

ANDA: Quem estiver interessado em colaborar com o trabalho do santuário, pode ajudar de que maneira?

Fernando Antunes: Pode apadrinhar algum bichinho pelo site oficial (clique aqui e depois no link de apadrinhamento). Também é possível fazer doações através de nossas contas bancárias ou doar medicamentos veterinários, ração, cobertores e brinquedos pets nos pontos de coleta em Porto Alegre (Clínica VetCare e unidades do Restaurante Vê). No site também disponibilizamos alguns cães e gatinhos para adoção responsável. Os candidatos preenchem um extenso questionário, se aprovados são convidados a irem até o santuário e, caso a adoção se confirme, recebem acompanhamento de perto dos nossos voluntários para monitoramento constante da saúde e bem-estar dos animais adotados.

Confira o vídeo do comercial:

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