ESPERANÇA

Cientistas mapeiam novos crescimentos que previnem o colapso da Amazônia

Leticia França | Redação ANDA

20/12/2020


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Imagem ilustrativa: Pixabay

Quando Celso Silva Junior, um candidato PhD no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, recuou de seu mapeamento, concluído recentemente, das florestas secundárias do Brasil, ele ficou surpreso pela quantidade significativa que cresceu de volta desde a década de 1980.

Aproximadamente um terço das florestas perdidas do Brasil se recuperaram naturalmente, uma área quase do tamanho do Reino Unido – 262.791 quilômetros quadrados, de acordo com o mapeamento publicado por Junior em um estudo recente na revista Scientific Data em colaboração com outros 11 pesquisadores.

Mas até a publicação do artigo em agosto, os cientistas não sabiam dizer a extensão exata do crescimento no Brasil, a idade dessas florestas, ou onde elas estão localizadas. Agora, os autores contam ao Mongabay, o mapeamento pode ser usado para ajudar a recuperação, rastrear padrões de desflorestamento, e até mesmo prevenir incêndios.

“Se a cada sete anos, uma floresta secundária é cortada, então você sabe que em uma floresta secundária de seis anos nessa região, o fogo e o desflorestamento são iminentes,” diz a coautora Liana Anderson, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Aviso Prévio de Desastres Naturais no Brasil.

Durante anos de secas, as autoridades podem usar essa informação para prevenir grandes queimadas florestais e cortes antes que aconteçam. “É melhor planejar com antecedência em vez de lidar com o prejuízo, o que tem acontecido nos últimos dois anos,” diz Anderson, em referência a abordagem reativa do governo do Presidente Jair Bolsonaro com o desflorestamento e os incêndios florestais.

Muitas das florestas secundárias da Amazônia são nascidas de pastos extensos que perderam sua produtividade comercial. A fertilização solar não é muito praticada, e o gerenciamento de terras é amplamente inadequado. Então quando as florestas tropicais perdem seus nutrientes, muitos fazendeiros se mudam para novas áreas, abandonando grandes áreas de antigas pastagens que crescem novamente naturalmente.

Enquanto comunidades tradicionais alternam terras agrícolas de pequena escala para reter a fertilidade, as quais podem ser detectadas como áreas de florestas secundárias por satélites depois de alguns anos, essas práticas de séculos têm coexistido com o ecossistema da floresta tropical, ao contrário das vastas faixas de pastos de gado responsáveis pela maior parte do desflorestamento na Amazônia.

A vegetação também pode crescer novamente quando grileiros especulam terras mais limpas, deixando-as sem monitoramento, e quando aspirantes a agricultor são forçados a abandonar as terras depois de mau planejamento, acordos ilegais e escassez de dinheiro, o que significa que elas são incapazes de estabelecer pastos ou cultivar depois das derrubadas. Um relatório de 2019 do Climate Policy Iniciative identificou que aproximadamente 40% das terras desflorestadas em áreas protegidas das florestas amazônicas estavam passando por um processo de regeneração em 2014, somando aproximadamente 2 milhões de hectares.

Imperturbadas, mesmo que por somente um ano, as áreas desertas começam um crescimento lento, mas continuo. Leva pelo menos 15 anos para a nova vegetação começar a ter semelhança com uma floresta. E leva 40 anos para as florestas secundárias na Amazônia recuperarem 85% da sua biodiversidade original, concluiu um estudo feito em 2018.

Os pesquisadores alertam que não há garantia a longo prazo para a restauração das florestas: as florestas secundárias são alvo do desflorestamento por serem fáceis de esvaziar, e frequentemente são áreas com poucas proteções legais.

Ao sobrepor as florestas secundárias no mapeamento, com a localização das comunidades tradicionais assim como os pequenos e grandes pastos e terras agrícolas privadas, os pesquisadores e legisladores no Brasil podem ter uma imagem mais clara das diferentes dinâmicas agrícolas – e por fim direcionar leis de maneira mais efetiva, os autores contam ao Mongabay.

“Agora que sabemos onde esses novos crescimentos estão, precisamos criar mecanismos para protegê-los,” diz Junior, o autor líder. “Na Amazônia, as florestas secundárias são mais desmatadas do que as florestas primárias. Elas são muito mais vulneráveis.”

Florestas Secundárias previnem o colapso do ecossistema

Os cientistas sempre suspeitaram que a regeneração natural de ranchos de gados abandonados e terras de cultivo na Amazônia – aproximadamente 23% do território de florestas destruídas – agem como uma corrente subterrânea contra a crise de mudanças climáticas.

Os especialistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy dizem que as florestas secundárias previnem um colapso do ecossistema. “Essas áreas, que agora estão em pousio, provavelmente são a razão principal que a Amazônia não se tornou uma savana em expansão,” a dupla escreveu em uma carta de 2019 publicada no Science Advances.

Permitir a terra abandonada que se regenere é a forma mais barata da recuperação em larga escala das florestas, especialmente na Amazônia, conta Anderson ao Mongabay. Sem os custos do trabalho manual associado a plantações de árvores, medidas simples de gerenciamento podem garantir a restauração de grandes áreas de florestas danificadas, com benefícios para a biodiversidade local e armazenamento de carbono.

Enquanto as florestas secundárias crescem, o estudo mostra, a absorção de carbono é maior do que em florestas mais maduras, que frequentemente são neutras em carbono. E de acordo com um relatório recente, as florestas secundárias tem sido deixadas de lado como ferramentas chave para lidar com a emergência da mudança climática global.

No Brasil, essas áreas já compensam 12% do desflorestamento da Amazônia, de acordo com os cálculos dos autores. Restaurando 12 milhões de hectares da área e até 2030, sob o Paris Climate Agreement, será um compromisso chave do Brasil.

Mas os pesquisadores alertam que se a destruição da floresta continuar, as medidas que auxiliam no crescimento podem se tornar redundantes. Os cientistas concordam que uma estratégia de conservação que combina a proteção das florestas primárias, onde grandes quantidades de carbono são mantidas, e a regeneração das florestas secundárias, é essencial para um resultado de sucesso.

No governo Bolsonaro, que assumiu o cargo no começo de 2019 e lidera um retrocesso agressivo contra as proteções ambientais, o desflorestamento na Amazônia aumentou em 47%. A taxa de desflorestamento atinge o topo, depois de 12 anos, de 11.088 quilômetros entre agosto de 2019 e julho de 2020, de acordo com os últimos dados publicados pelo INPE. Grandes incêndios também consumiram os biomas da Amazônia e do Pantanal esse ano.

Mapeamentos que salvam as florestas do Brasil

O governo federal não adotou políticas para proteger as florestas secundárias. Mas o estado do Pará já fez progresso. A pesquisadora líder na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Joice Ferrera, ajudou a criar leis estatais em 2015 para proteger as florestas secundária mais antigas, com base em sua pesquisa de mapeamento regional.

“Nós sugerimos que depois de 20 anos, o corte em florestas secundárias deveria ser banido. Nós precisamos dessa lei para proteger essas áreas,” Ferreira contou ao Mongabay. “Para os fazendeiros, o crescimento de um ano é o que eles chamariam de um pasto sujo,” diz Ferreira, que não contribuiu com o estudo recente, mas publicou um outro estudo sobre reflorestamento em setembro com uma descoberta similar, que só o crescimento na Amazônia deslocou 10% das emissões de carbono causados pelo desflorestamento.

Os mapas abertos do Brasil abrem os portões para um potencial sistema de compensação que dá aos donos de terras um incentivo para proteger florestas em crescimento em terras privadas, diz Robin Chazdon, ecologista e autora do livro Second Growth. “Se queremos encorajar os agricultores a proteger essas florestas, que possuem benefícios enormes para a biodiversidade, ecossistemas, e o mantimentos de carbono, precisa haver compensação,” diz ela.

Para Junior, esse seria um dos melhores usos futuros do mapeamento que ajudou a desenvolver. “[Os mapas] podem ser utilizados para monitorar futuros reflorestamentos, criar um plano de reflorestamento e pagar as pessoas que protegem essas terras”, diz ele . “E você terá provas de que ela permanece.”


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