Esse é o chapéu

Queimada traz “morte por milhares de agulhadas” para as onças do Pantanal


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Pixabay

Fornando Tortato normalmente gasta o seu tempo olhando as imagens das câmeras escondidas que monitoram as onças no Pantanal, a maior área tropical inundada do mundo, uma região que se espalha pelo Brasil, Bolívia e Paraguai. Mas nos últimos 45 dias, ele tem trabalhado em um novo papel como bombeiro, as vezes trabalhando extenuantes turnos de 24h para ajudar a extinguir as chamas que veêm devastando o Pantanal desde o fim de 2016, situação essa que só piorou em Junho e Julho. Tortato descreve que os incêndios têm sido como “uma onda que vai queimando tudo em seu caminho”.

“No Pantanal, que é uma área inundada, nós normalmente temos rios, hidrovias, lagoas, pântanos, que são barreiras naturais para o fogo”, disse Tortato ao Mongabay, que é um dos cientistas do programa de conservação da Panthera, uma organização internacional para a conservação dos felinos selvagens. “Mas esse ano, com estas condições – totalmente seco – essas barreiras não funcionam… e com isso é criado fogo em uma escala que nunca vimos antes.”

Apenas neste ano, é estimado que incêndios tenham queimado aproximadamente 3.3 milhões de hectares do Pantanal, de acordo com dados compilados pelo Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio Janeiro (LASA). Isso é cerca de 22% de toda a região, o que equivale aproximadamente ao tamanho de seis Grand Canyon National Park e meio. Acredita-se que muitos incêndios foram deliberados com o propósito de limpar o terreno para fins de agricultura, mas a disseminação da praga da seca fez o Pantanal arder em chamas.

Muitas espécies tem sido afetadas pelo fogo, particularmente pequenos vertebrados como répteis e anfíbios, os quais não conseguem fugir facilmente dos chamas. Conservacionistas também estão preocupados com a onça-pintada (panthera onca), uma espécie que atrai todos os anos muitos turistas para região. Por ser uma espécie quase ameaçada de extinção, o número de onças já tem uma tendência a diminuir devido a perda de habitat e a fragmentação, assim também como conflitos entre os humanos e os animais selvagens, e o fogo coloca ainda mais pressão nesta espécie que luta para sobreviver.

Enquanto a população total de onças nas Américas do Sul e Central é estimada entre 65.000 e 170.000, o corredor das onças do Pantanal abriga uma população pequena e vital de 2.000 animais, de acordo com Howard Quigley, cientista conservacionista e diretor executivo do Panthera, além de ser mebro da Grupo de Especilistas em Felinos da IUCN.

Baseado na quantidade de terra que já queimou no Pantanal, acredita-se que aproximadamente 600 onças tiveram o seu habitat impactado pelo fogo, o que pode levar a problemas de segurança alimentar para a espécie, disse Quigley ao Mongabay por email. É muito provavel também que muitas onças tenham sido machucadas ou mortas pelo fogo. Até agora, o time da Panthera e seus parceiros encontraram uma onça morta e quatro individuos com queimaduras.

“No quadro geral da ampla gama de viabilidade das onças, isso porde ser visto apenas como outro ‘bip’ no radar de sobrevivência delas, causando muito pouco dano no final das contas”, disse Quigley. “Por outro lado, as onças estão vivendo a metáfora da morte por milhares de agulhadas, e são muitas.”

“A sobrevivência desses felinos está fortemente atrelada a duas coisas: a segurança das populações centrais… e o movimento das onças pelas terras que formam os centros, ou corredores, tudo que faz parte do que é o Corredor das Onças-Pintadas”, adicionou Quigley. “Olhando apenas para o Pantanal, essas queimadas certamente não causam perigo a segurança populacional das onças no Pantanal.”

As maiores populações de onças no Pantanal estão perto de Gran Chaco, Paraguai, e no Parque Nacional Noel Kempff Mercado na Bolívia, de acordo com Quigley. Se o fogo impactar severamente estas populações a espécie pode experimentar instabilidade genética no futuro, ele diz.

“Com os incêndios na Bolívia ano passado, isso pode ser como um segundo golpe que a população de onças da região têm que enfrentar, mas ainda não é um golpe de knockout pelo que podemos ver”, disse Quigley.

Para as onças-pintadas, escapar das chamas não é um processo fácil. Muitos incêndios ocorrem de baixo da terra e são visualmente indetectiveis, tornando dificil a detecção disso por parte do animal”, disse Tortato.

“Eles podem queimar as patas porque eles não conseguem ver o fogo”, ele disse. “É dificil para os animais, e é dificil pra gente, identificar esses lugares [onde o fogo esta queimando].”

A equipe Panthera tem trabalhado com o governo, comunidades locais e outras organizações para tentar salvar o máximo de animais selvagens que for possível. Até o momento, eles ajudaram uma tartaruga, duas anacondas, várias iguanas e duas onças-pintadas, incluindo uma fêmea de 4 anos, chamada Gloria, que foi resgatada por membros da comunidade após ter as suas patas severamente queimadas.

“Quando as pessoas perceberam que ela estava procurando abrigo ao redor da comunidade, imediatamente eles agiram para salvá-la, disse Rafael Hoogesteijn, diretor do programa de conflitos do Panthera, em uma postagem no blog. “Em outras partes da América Latina, ela poderia ter sido imediatamente morta. Mas nesta região do Pantanal, a relação entre as pessoas e a vida selvagem é tão profunda que a comunidade fez tudo o que pode para salvá-la. Eles mantiveram essa felina de 4 anos de idade viva até que ela pudesse ser encaminha para um centro de resgate para receber tratamento médico. Gloria tem se recuperado bem e os veterinários continuam a monitorá-la com esperança de futuramente soltá-la”.

A equipe também trabalha para ajudar as pessoas que moram na região, dos quais muitos deles têm sofrido devido a pandemia da Covid-19, que acabou com o faturamento do período de turismo desse ano.

Essa semana, começou a chover no Pantanal. Enquanto na região sul tem acontecido um dilúvio, a região norte tem apenas recebido uma chuva fina até agora. “[Isso não é] suficiente para apagar as chamas”, disse Tortato. Ainda assim ele diz que ele e seus colegas estão esperançosos que a região vai se recuperar ecologicamente, pelo menos até um certo ponto, assim que a chuva finalmente chegar.”

“Talvez o Pantanal não seja mais o mesmo….mas ele [deve] criar uma nova composição de vida selvagem”, diz Tortato. “Nós não sabemos. Normalmente, os pesquisadores têm mais questões a responder. Esse é o problema”.

Enquanto permanece incerto como as queimadas irão influenciar a população das onças-pintadas no futuro, há uma luz no fim do túnel para as espécies. No Pantanal, as onças são predadores de capivaras e jacarés, e nessa época do ano eles tendem a viver nas águas, o que provavelmente ajudou a sobrevivência deles. A abundância desses animais pode criar uma fonte fácil de comida para qualquer onça sobrevivente.

“As onças teriam muito alimento disponível nos próximos meses se elas assumirem ou mantiverem territórios que ultrapassem áreas inundadas”, disse Quigley. “A questão da sobrevivência se torna como as onças vão superar a estação de enchentes quando a sua principal presa está dispersa no grande volume de água que é o Pantanal de janeiro a maio.”


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 


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