Ameaçado de extinção, tamanduá-bandeira luta para sobreviver em meio às queimadas

08/10/2020


Foto: Arquivo Instituto Tamanduá

Um dos maiores mamíferos terrestres do Brasil tem sido gravemente impactado pelas queimadas que devastam o Pantanal. Ameaçado de extinção, o tamanduá-bandeira é acompanhado por pesquisadores que se preocupam com o futuro da espécie.

Além da necessidade de preservar os tamanduás para garantir que esses animais tenham seu direito à vida respeitado, os especialistas também apontam a importância de mantê-los vivos por conta do papel executado por eles na manutenção do ecossistema.

“Uma série de questões nos preocupam em relação aos tamanduás nessas regiões. Primeiro porque a temperatura suportada por eles, diferente de outros mamíferos, é de 33 graus. Ou seja, temperaturas altas provocadas pelo fogo impactam demais o metabolismo deles”, explicou ao G1 Flávia Miranda, diretora do Instituto Tamanduá, que atua pela preservação da espécie há 15 anos.

“Além disso, essa é a época reprodutiva dos tamanduás, que só geram um filhote por ano. Após o nascimento, os pais ficam responsáveis pela cria, que se torna completamente independente depois de um ano. Ou seja, todo esse processo foi interrompido pelas queimadas”, completou.

Com a situação alarmante vivida no bioma em meio às queimadas, o foco dos pesquisadores é conter as chamas e resgatar os animais sobreviventes, encontrados muitas vezes repletos de ferimentos graves. “Estamos recrutando fundos para investir em alimentação para várias espécies, auxiliando na compra de frutas, verduras e na criação de bebedouros artificiais. Aqui na região têm equipes e pesquisadores atuando com o resgate geral dos animais e outras trabalhando com a catalogação de indivíduos queimados e mortos”, explicou Miranda.

Embora ainda não exista um levantamento acerca do impacto do fogo na população de tamanduás-bandeira, a bióloga prevê perspectivas negativas para o futuro. “O grande problema com essa espécie é que os poucos que são resgatados com vida sofrem muito no processo de reabilitação. A queimadura é um dos maiores problemas, seguido pela desidratação”, afirmou.

Segundo ela, há ainda a dificuldade de cuidar desses animais em cativeiro. “É difícil, principalmente por conta da alimentação. Não é tão simples ofertar formigas e cupins. Agora, nesse processo emergencial, estamos nos baseando em um livro sobre manejo de tamanduás em cativeiro, para tentarmos salvar os que foram resgatados”, disse.

Classificado como “vulnerável” na lista de espécies ameaçadas, o tamanduá-bandeira é vítima da fragmentação do habitat, do desmatamento, dos incêndios, da agropecuária, do aumento da malha rodoviária, da caça, da perseguição, do envenenamento e de doenças infecciosas reprodutivas.

Com queimadas em níveis nunca vistos antes, a situação se torna ainda pior. E não só por conta das queimaduras e dos problemas respiratórios causados pela fumaça, mas também pela escassez de alimento e água no habitat devastado pelo fogo.

“O pós-fogo é uma etapa tão ruim quanto a atual, pois as espécies que sobreviverem não terão oferta de alimento e, por isso, haverá quebra de cadeia com aumento da predação. A imunidade desses animais também cai bastante, ou seja, teremos indivíduos magros e doentes que precisarão de cuidados. Vamos ter uma situação muito grave e tão desesperadora quanto ver os animais sendo queimados”, lembrou a bióloga.

“As pesquisas do Instituto Tamanduá começaram no Pantanal Norte, em várias microrregiões com importância única para a biodiversidade local. Foram mais de seis anos atuando no Sesc Pantanal, que hoje foi praticamente todo devastado. Ainda não conseguimos contabilizar, mas com certeza perdemos muitos indivíduos da espécie na região”, acrescentou.

Os estudos, porém, não se restringem às áreas queimadas. Em Aquidauana, região Sul do Pantanal ainda não afetada pelo fogo, um monitoramento também está sendo realizado. “Formamos uma força-tarefa para analisar os focos de queimada na região e nos preparar para essa situação. A partir de agora mudaremos totalmente a estratégia de pesquisa, que já tinha sido afetada também pela pandemia: o foco é entender como esses animais se comportam em situações assim, estudar a ecologia, biologia, genética e saúde dos indivíduos para, então, criar estratégias para catástrofes como essa”, afirmou a especialista.

Foto: Arquivo Instituto Tamanduá

“Além do bandeira, nos preocupamos demais com os tamanduás-mirim, que são afetados pelas árvores queimadas, e com os tatus, que entram nas tocas e morrem cozidos”, completou.

Diante de tamanha destruição, os pesquisadores contam com a ajuda da sociedade para angariar recursos necessários aos trabalhos realizados no Pantanal. “Toda ajuda é bem-vinda, mas nem sempre o ideal é se deslocar até lá. A região já está com poucos recursos, incapaz de receber mais gente. Precisamos entender que é possível ajudar muito, mesmo sem sair de casa”, disse Miranda.

“Quem puder auxiliar com recursos financeiros, há uma série de iniciativas e vaquinhas online que ajudam muito na luta contra as queimadas. Mas, ainda mais importante do que isso, é não acreditar e nem compartilhar fake news. Nós dedicamos nossas vidas a esses lugares e à biodiversidade, não podemos deixar que mentiras tirem o valor da nossa luta”, concluiu.


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