Araras-azuis devem voltar para lista de espécies ameaçadas por conta das queimadas


Pixabay

O impacto das queimadas no Pantanal sobre as araras-azuis é alarmante e pode levá-las de volta à lista de animais ameaçados de extinção, da qual tinham saído em 2014. Maiores aves da família das araras e papagaios, as araras-azuis sofrem não só por conta do fogo, que pode matá-las, mas também pela destruição causada pelas chamas, que geram escassez de água e alimento.

Maior refúgio mundial da espécie, a Fazenda São Francisco do Perigara, no Pantanal de Mato Grosso, teve 90% do seu território destruído pelos incêndios. Em todo o bioma, quase 3 milhões de hectares já foram queimados e milhares de animais morreram carbonizados.

Para estimar o tamanho do impacto do fogo na vida dos animais que vivem no Pantanal, voluntários, representantes de órgãos públicos, membros de universidades e de ONGs se uniram para realizar uma pesquisa de campo através da qual o número de animais mortos é compilado.

Os corpos encontrados são registrados através de um aplicativo, com data e coordenadas geográficas. As equipes precisam localizar os animais mortos em até 72 horas depois do incêndio para que as ossadas não desapareçam.

O número de araras-azuis feridas ou mortas pelo fogo ainda não foi estimado, mas o estrago causado no bioma surpreende até os pesquisadores. É o caso da Neiva Guedes, maior especialista do mundo em araras-azuis e presidente do Instituto Arara Azul, que disse nunca ter visto nada igual.

“O Pantanal é muito guerreiro, resiliente, temos esperança de que vai se recuperar, não sabemos em quanto tempo. Mas é necessário trabalhar para evitar novos desastres. Bioma algum aguentará sucessivas tragédias”, afirmou a especialista ao jornal O Globo. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Como está a situação das araras-azuis no Pantanal? Muito difícil. Elas devem voltar para a lista dos animais brasileiros ameaçados de extinção.

Por quê? Elas sofrem de duas formas. No Pantanal do Sul, em Mato Grosso do Sul, são as terríveis consequências do pós-fogo de 2019. E no Pantanal do Norte, no Mato Grosso, as queimadas estão ativas. Elas atingem o mais importante santuário da espécie, a Fazenda São Francisco de Perigara, em Barão de Melgaço, que teve 92% da área queimada.

Quão grandes são as perdas? Nas queimadas de 2019 perdemos 40% dos casais reprodutores, com um impacto grande no futuro da espécie. Neste ano nem sabemos ainda, tamanha a destruição. Nunca vimos nada igual ao que presenciamos agora. Como as queimadas de 2020 já destruíram uma área muito maior (cerca de 3 milhões de hectares até setembro) que as do ano passado, tememos ainda mais pelo pós-fogo.

O que acontece depois que o fogo é extinto? O pós-fogo é um período de agonia de duração incerta, muitas vezes, pior que as chamas. Ele traz fome e perda de habitat. Vemos isso na região Miranda (MS), no Refúgio Ecológico Caiman, o maior centro de reprodução da espécie, atingido no ano passado. As araras-azuis ficaram sem comida e ninhos. Elas são extremamente especialistas, comem apenas os frutos das palmeiras acuri e bocaiúva. Vimos que filhotes sobreviventes das queimadas de 2019 tiveram deficiências devido à falta de comida. As araras tentam comer a bocaiúva queimada, mas não se sabe o quanto esta é nutritiva. E as araras também perdem seus ninhos.

Quão frágeis elas estão? Neste ano, pela primeira vez, documentamos uma arara-azul matar outra. Essas araras são muito sociáveis, os bandos vivem em harmonia. Mas seus ninhos foram queimados. E as araras entraram em conflito. Esse tipo de comportamento brutal, movido pelo desespero, nunca tinha sido observado na espécie. E não é só isso.

O que mais? Aumentou muito a predação de araras-azuis por animais famintos. Documentamos iraras e jaguatiricas matando e comendo araras-azuis adultas no ninho. As azuis voam, são as maiores aves da família das araras e papagaios, mas são vulneráveis. Elas acabam traídas por sua lealdade. Como os casais reprodutores não abandonam seus ovos e filhotes, eles se tornam presas de carnívoros, que aprenderam a escalar árvores muito altas. É desesperador. E há ainda a predação humana, gente que se aproveita para capturar araras e papagaios e vendê-los.

Aumentaram os resgates? Sim. Temos recebido mais araras e papagaios resgatados de traficantes de animais. Mas só tem tráfico porque há quem compre. É uma vergonha que exista gente que se aproveite da situação e compre esses animais para aprisioná-los por prazer e ostentação.

O que a senhora está fazendo agora? Vou passar a semana em campo, avaliando os efeitos das queimadas na Fazenda São Francisco de Perigara, que faz um trabalho muito bom de conservação, mas foi atingida por fogo que veio de fora.

O que é preciso fazer para combater as queimadas no Pantanal? É preciso mudar o uso do fogo, trabalhar em prevenção. Tivemos queimadas recordes por dois anos seguidos, em 2019 e 2020. O Pantanal é muito guerreiro, resiliente, temos esperança de que vai se recuperar, não sabemos em quanto tempo. Mas é necessário trabalhar para evitar novos desastres. Bioma algum aguentará sucessivas tragédias.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.



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