Home Notícias Produto que pode causar dano ambiental é usado para conter o fogo no Pantanal

Produto que pode causar dano ambiental é usado para conter o fogo no Pantanal

0
Produto que pode causar dano ambiental é usado para conter o fogo no Pantanal
Foto: Amanda Perobelli/Reuters
Foto: Amanda Perobelli/Reuters

O Hold Fire, produto químico sem comprovação científica de eficácia, tem sido usado em Mato Grosso para combater as queimadas que atingem o Pantanal. Os riscos relacionados ao retardante ainda são desconhecidos.

Neste mês de setembro, o Pantanal já registrou 5.820 focos de calor. Segundo o Inpe, trata-se do maior número já registrado em setembro desde que as medições foram iniciadas. Mesmo sem ter chegado ao fim, 2020 já ficou marcado como o ano com mais queimadas em toda a história do bioma.

Neste cenário, surgiu a promessa de que o produto químico daria fim aos incêndios. No entanto, durante o quinto teste do retardante, realizado em 15 de agosto na Fazenda Piuval, o fogo foi contido em algumas áreas, mas permaneceu em outras.

O uso do Hold Fire no Mato Grosso tem como base o parecer técnico 514/2018, elaborado pelo Ibama. Em entrevista à revista Piauí, o coronel Paulo Barroso afirmou que o parecer do órgão atesta que o produto é “biodegradável e atóxico”. O estudo do Ibama traz recomendações e alerta que os dados disponíveis não são suficientes para medir possíveis danos ambientais decorrentes do uso do produto de maneira repetida.

O documento do órgão diz ainda que o fabricante do Hold Fire não disponibilizou as informações solicitadas. Apesar de citar o produto, o Ibama não o avalia especificamente. Dois de quatro retardantes selecionados foram analisados – o Fire Limit FL-02, fabricado na Espanha, e o Fertil Fire, que teve seu uso abandonado após ser utilizado pelo PrevFogo em 2008 na Chapada Diamantina, na Bahia.

O Ibama concluiu, após avaliação preliminar, que o uso dos retardantes deve ser evitado nas proximidades de cursos d’água natural perene e intermitente. A conclusão, quando consideradas as características do Pantanal, é alarmante, já que o bioma é predominantemente composto por áreas alagadiças.

O parecer do órgão alerta ainda sobre a aplicação do produto em terras indígenas ou próximo a locais populosos. Nesses casos, o Ibama recomenda que a população da área seja informada “sobre os possíveis riscos do consumo de água e alimentos provenientes do local nos quarenta dias seguintes à aplicação do retardante de chamas”.

Os cinco testes realizados não são suficientes para estabelecer a efetividade e a segurança do produto, tampouco prever os possíveis efeitos colaterais. Responsável pela execução da Operação Pantanal II na segunda semana de setembro, o major Fernando Rodrigues, afirmou à revista Piauí que um protocolo foi criado para analisar a efetividade do Hold Fire, mas que não existem informações concretas. “Tivemos alguns ensaios na região porque temos uma autorização da Sema para utilizar em parques e reservas estaduais, mas eu ainda não tenho dados”, disse.

A professora de química do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) Sônia Biaggi explicou à revista que há danos decorrentes do uso dos retardantes. “O que acontece é que esses compostos combatem um mal, que seriam as chamas, mas eles produzem muitos outros males, e com o agravante de que eles permanecem por muito tempo no ambiente. Há estudos que indicam danos à saúde humana, por exemplo”, explicou.

Para Anderson Martinez Santana, doutor em química e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), não é possível atestar a segurança do Hold Fire sem ensaios laboratoriais. “É preciso deixar bem claro que no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, nós não temos uma legislação que norteie o uso desse tipo de composto, principalmente em meio ambiente aberto, como florestas e proximidades de rios e lagos. A legislação americana faz uso desses compostos e alerta para a sua utilização próxima de corpos d’água, no Brasil não existe esse alerta”, afirmou.

Antes contrária ao uso do retardante, a secretária de Meio Ambiente de Mato Grosso, Mauren Lazzaretti, chefe de Barroso, passou a defender a utilização do produto após visita do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que cobrou a secretária durante passagem por Mato Grosso em agosto. “Eu vou ter uma alteração pela aplicação do produto, mas eu vou evitar perda de biodiversidade, enfraquecimento do solo e o sofrimento da fauna”, disse Lazzaretti após ser convencida pelo ministro.

Órgão de proteção ao meio ambiente, o ICMBio foi pouco consultado a respeito do retardante. Servidores afirmam que atualmente existe uma “Lei da Mordaça” dentro do órgão que impede, através de um novo código de ética, que críticas sejam feitas ao governo Bolsonaro. Muitos fiscais defendem, porém, que o produto é ineficaz no combate às queimadas em área pantaneira por conta dos incêndios subterrâneos. Eles apontam também a possibilidade do Hold Fire fertilizar plantas invasoras, prejudicando as nativas, e comprometer a qualidade da água.

Por conta dos incêndios subterrâneos e do efeito do retardante, que pode durar em torno de doze horas, há o receio de que o fogo que toma conta da matéria orgânica em camadas do solo suba para a superfície horas ou dias depois, mesmo com uso do produto. As chamas subterrâneas são comuns no Pantanal e acontecem quando as plantas que ficam em camadas inferiores do solo – as chamadas “turfas pantaneiras” – morrem e se tornam atrativas ao fogo, que se mantém nelas até que se propagam para as árvores e arbustos mais altos.

Apesar dos alertas feitos sobre o Hold Fire, após os testes o governo federal liberou mais 10 milhões de reais a serem investidos principalmente na compra do produto.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here