Biólogos advertem que negação da extinção de animais é a nova teoria da conspiração reacionária

Bruna Araujo
setembro 21, 2020

Há uma negação crescente de alguns grupos em reconhecer a crise de extinção em curso que está sendo dirigida por ações humanas, cientistas de conservação dizem.

Essas visualizações são incentivadas por algumas das mesmas pessoas que também minimizam os impactos da mudança climática e vão contra a atual evidência do difundido declínio de populações de algumas espécies e recentes extinções.

Cientistas dizem que esse fenômeno é provável que cresça nessa semana, já que um relatório principal sobre a Convenção sobre a Diversidade Biológica está para ser lançado.

Os autores de um novo relatório sobre negação de extinção aconselham os experts a proativamente desafiar sua ocorrência e apresentar os “fatos científicos sólidos e frios”.

Pixabay

Cientistas da biodiversidade estão sendo persuadidos a “lutar contra o aumento assustador da negação de extinção” que tem crescido de blogs marginais a veículos de mídia influentes e, até mesmo, a uma audiência do Congresso dos EUA. A chamada às armas veio em um documento publicado no Nature Ecology & Evolution no mês passado por Alexander Lees, professor sênior de conservação biológica na Universidade Metropolitana de Manchester, e colegas.

“Muitos dos mesmos indivíduos que, rotineiramente, procuram minimizar os impactos da mudança climática têm escrito artigos que diz respeito à crise da perda de biodiversidade,” Lees diz. “Negacionistas têm buscado ofuscar a magnitude de ambas extinções e a perda da bio-abundância.

O documento descreve e desmascara três tipos de negação de extinção. O primeiro, “negação literal”, argumenta que a extinção é um amplo problema histórico. Argumentos como esse, como os contidos no artigo, afirmam que “o começo de uma extinção mais ampla da vida selvagem parece forçado”, e ignoram o conservadorismo de biólogos em extinções declaradas, bem como as atuais evidências de recentes extinções e do declínio difundido de populações, que sugere que muitas outras perdas futuras estão a caminho, escreve o autor.

O ponto, por exemplo, que os negacionistas têm afirmado muito é que a Mata Atlântica no Brasil não tem sofrido extinções mesmo que sua área tenha diminuído em 90%. Ainda, duas espécies foram declaradas extintas em 2019, e mais sete estão chegando aos seus últimos indivíduos ou não foram vistas por uma década ou mais.

“O problema da maioria das perdas é que não são as grandes espécies ‘emocionantes’, mas as menores e menos carismáticas em áreas que perderam as grandes e ‘emocionantes’ anos atrás”, diz Lees. “Nós estamos agora atingindo perdas críticas de habitats de muitas espécies nos trópicos, em lugares como as Filipinas e o Brasil oriental. É nesses lugares que a próxima onda de extinção está tomando espaço.”

Lees e seus colegas também discorreram sobre “negação interpretativa”, que reconhece a perda da biodiversidade, mas argumenta que o crescimento econômico poderá consertar isso por si só. Um exemplo é um relatório de 2019 da Washington Examiner, “Como o capitalismo irá salvar espécies em extinção”.

A terceira forma de negação é “implícita”, argumentando, por exemplo, que as soluções tecnológicas e as possíveis intervenções conservacionistas – mais do que mudanças compreensivas no sistema socioeconômico – irão super a extinção. Os autores escrevem que essas duas formas de negação podem usar evidências de ecossistemas temperados para deixar inapropriadas as reivindicações sobre a redução de impactos nos trópicos, onde a perda de habitat está se acelerando e as espécies estão muito mais sensitivas às mudanças.

“A dispensa e o abandono que vimos nas zonas temperadas surgiu porque nós terceirizamos os danos ambientais em outros lugares”, diz Lees. “Isso inclui países elogiados por seu sucesso ambiental no âmbito doméstico. Por exemplo, o Japão ainda é pesadamente florestado, mas tem saqueado florestas tropicais de outros lugares para madeira. A Noruega alimenta a perda florestal na Amazônia para plantação de soja para alimentar peixes e o gado. Muitas pessoas se mantêm ignorantes quanto a essas tele conexões globais e seus impactos na biodiversidade.”

Raiar da negação

A negação de extinção veio à tona em maio do ano passado, quando a Plataforma Intergovernamental de Política-Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, em inglês) publicou sua avaliação global. O relatório disse que um milhão de espécies estavam em risco de extinção e esboçou passos para uma “mudança transformadora” para garantir a contribuição da natureza ao bem-estar humano.

Comentários como o de Toby Young no The Spectator debateram os resultados ou atacaram a reputação e os métodos dos relatórios dos autores, levando um deles, Andy Purvis do Museu de História Natual em Londres, a escrever uma longa resposta.

Mais ataques vieram ao Congresso dos EUA em uma conferência convocada pelo Comitê de Recursos Naturais para discutir o que a IPBES havia encontrado. Representantes republicanos e suas testemunhas convidadas – ambos céticos sobre a mudança climática – foram vorazes em seu desprezo pelo relatório e seus autores.

Anne Larigauderie, secretária executiva da IPBES, disse que os ataques não vieram de surpresa, acrescentando que a própria Avaliação Global afirmou que “mudanças transformadoras podem esperar oposições daqueles com interesses fixados no status quo.”

Em uma entrevista por e-mail, ela disso ao Mongabay, “Qualquer um que tenha acompanhado as maiores causas político-científicas como fumo, tabaco e debates públicos de saúde, e as mais recentes questões sobre mudança climática induzida por humanos, está criticamente consciente da frequente oposição coordenada e bem-financiada que crescem contra as evidências dos especialistas, especialmente daqueles que percebem que mais têm a perder caso a política seja alterada com base nessas evidências”.

Mais negação essa semana

“Muitas tentativas de levar a economia global a uma direção mais sustentável serão enfraquecidas por alguns interessados que buscam manter o status quo”, diz Lees. “Então, eu ficaria surpreso se nós não víssemos tentativas de diminuir o trabalho da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD, em inglês) da ONU.”

Em 15 de setembro, a CBD lançou a quinta edição do Global Diversity Outlook (GDO-5). O relatório deve alimentar as negociações rumo a uma estrutura global de diversidade para ser acordada no próximo ano na China, reforçando os apelos para uma mudança transformadora.

Larigauderie diz que a negação em relação ao GBO-5 “parece certa”, uma vez que o relatório se baseia fortemente nos resultados da IPBES. Mas ela diz que duvida que os negacionistas vão atrapalhar as negociados da CBD rumo a um novo acordo global.

“A atual movimentação para uma negação como essa se mantém limitada,” ela diz. “Uma ameaça muito maior à ambição para o quadro de biodiversidade pós-2020 seria uma falha em conectar a perda da biodiversidade a outros desafios maiores do desenvolvimento global, como segurança alimentar, saúde humana, produção e padrões de consumo”.

Lidando com a negação

Lees e seus colegas Simon Attwood, Jos Barlow and Ben Phalan dizem que os cientistas devem estar prontos para refutarem os negacionistas de alto perfil. “Muitos cientistas já respondem à negação da ciência quando ela aparece impressa ou nas mídias sociais por indivíduos proeminentes, e isso deveria ser encorajado”, ele diz. Nós providenciamos um roteiro de papel que é sustentado por um envolvimeno cortês, pela desconstrução de argumentos ilusórios e da pseudociência, e pela apresentação de fatos científicos sólidos e frios”.

“Nós pensamos que o papel era uma contribuição importante e concordamos com a preocupação sobre o negacionismo”, diz Thomas Brooks, cientista chefe da União Internacional para Conservação da Natureza. “Respondendo ao negacionismo – para qualquer ciência aplicada – exige habilidades não apenas científicas, mas também na ciência da comunicação, no engajamento das partes interessadas, etc, que talvez sejam menos ensinadas em ambientes universitários.”

Robert Watson, ex-presidente da IPBES, está confiante que a comunidade da biodiversidade está à altura da tarefa. “Enquanto nem todos os especialistas em clima ou biodiversidade são politicamente experientes ou capazes de lidar com os céticos, com os políticos ou com a mídia, há quem entenda a interface da política-científica e pode contrariar acusações e o uso errôneo das evidências”, ele diz.

“Sobretudo, eu não estou preocupado com os negacionistas”, ele diz. “Mas eu estou preocupado com o fato de que os governos podem não ser capazes de tomar as ações necessárias para conservar e restaurar a biodiversidade em um tempo hábil, para que a biodiversidade desempenhe seu papel em atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. A menos que mudança climática, degradação da terra e biodiversidade andem juntos, nós falharemos.”

Citação:

Lees, A. C., Attwood, S., Barlow, J., & Phalan, B. (2020) Cientistas da biodiversidade devem lutar contra o aumento assustador da negação de extinção. Nature Ecology & Evolution. Disponível aqui.


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