Política antinatureza

Marco devastador: 500 grandes incêndios detectados na Amazônia brasileira este ano

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516 grandes incêndios, a maioria deles ilegais, foram detectados entre 28 de maio e 25 de agosto de 2020 estendendo-se por 376.416 hectares, com a temporada de incêndios na Amazônia nem mesmo na metade e com previsão de durar pelo menos até setembro.

Desses incêndios, 12% ocorreram em florestas intactas, enquanto o restante ocorreu em áreas recentemente desmatadas, onde as árvores cortadas secaram antes de serem incendiadas para transformar a antiga floresta tropical em pastagem para o gado e plantações.

A maioria desses incêndios foi ilegal, desafiando diretamente a proibição total de incêndios na Amazônia, emitida pelo presidente Jair Bolsonaro em 15 de julho de 2020.

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O IBAMA, a agência ambiental do Brasil, que anualmente combateu incêndios na Amazônia no passado, teve um papel muito reduzido neste ano, tendo sido impactado por um amplo corte de verbas pelo governo Bolsonaro. O controle de incêndios neste ano cabe ao Exército Brasileiro, que tem pouca experiência no controle de incêndios na Amazônia.

O número de incêndios na Amazônia brasileira aumentou dramaticamente nas últimas semanas e agora atingiu um marco desolador: mais de 500 grandes incêndios, ilegais em sua maioria, foram detectados na região desde o final de maio.

Um total de 516 incêndios cobrindo 376.416 hectares – uma área quase 5 vezes a área da cidade de Nova York – foram detectados entre 28 de maio e 25 de agosto. Mais da metade desses incêndios ocorreram nas últimas duas semanas, segundo análise de dados de satélite do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP).

Grandes incêndios no Brasil em 2020

Dados do Aplicativo de Monitoramento de Incêndios na Amazônia do MAAP estão atualizados até 25 de agosto de 2020

Os incêndios de 2019 na Amazônia ocorreram principalmente em terras recém desmatadas, não em florestas intactas, e em grande parte seguiram um padrão de desmatamento intencional, muitas vezes ilegal, para abrir espaço para gado e plantações. Neste ano, o padrão é semelhante, com 83% das queimadas em áreas recém desmatadas.

No entanto, conforme a temporada de incêndios progride, as florestas queimam. Dos incêndios detectados este ano até agora, 12% ocorreram em florestas intactas, compreendendo uma área total de 70.330 hectares – uma área quase tão grande quanto o território da cidade de Nova York. A maioria desses incêndios florestais ocorreu na semana passada.

O maior incêndio florestal, detectado em 17 de agosto, queimou 10.362 hectares – cerca do tamanho de 14.500 campos de futebol – próximo ao Rio Xingu, em São Félix do Xingu, um município do estado do Pará no norte do Brasil. O incêndio ocorreu a 80 quilômetros da Terra Indígena Kayapó e da Estação Ecológica da Terra do Meio, uma reserva natural estritamente regulamentada.

A Estação Ecológica da Terra do Meio faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma grande extensão de dezenas de milhares de hectares de floresta tropical biodiversa onde tem aumentado as queimadas ilegais nas últimas semanas. Triunfo do Xingu passou a estar sob proteção federal em 2006, sendo que os proprietários de terras da região foram obrigados a manter 80% da floresta em seu entorno intacta para proteger a Estação Ecológica da Terra do Meio e as 18 Terras Indígenas da área. Mesmo com as proteções no papel, a região foi extremamente desmatada, perdendo 30% de sua cobertura florestal desde 2006, com o fogo regularmente usado como uma ferramenta para transformar a floresta em terras agrícolas.

“O problema é que a falta de fiscalização da terra fez com que essa área fosse cada vez mais ocupada, cada vez mais ameaçada”, disse Francisco Fonseca, que trabalha para The Nature Conservancy (TNC), uma ONG conservacionista, em uma entrevista no final de julho. “E agora isso só vai piorar daqui para frente”.

O monitoramento terrestre de incêndios e a capacidade de processar aqueles que provocaram incêndios ilegais são limitados este ano, já que agências governamentais e policiais que antes operavam na Amazônia foram cortados com a administração atual. O IBAMA, órgão ambiental que combate incêndios anualmente, foi substituído em grande parte pelo Exército Brasileiro, que não tem experiência em controle de incêndios.

Em 15 de julho, o presidente Jair Bolsonaro emitiu uma proibição de incêndio de 120 dias, o que significa que todos os incêndios subsequentes (97% do total atual) seriam classificados como ilegais. De acordo com especialistas, houve pouca ou nenhuma ação para fazer cumprir essa moratória.

Dados de satélite da Universidade de Maryland mostram o desmatamento dentro e ao redor da Floresta Nacional de Jamanxim. Os incêndios aumentaram nesta região nas últimas semanas.

Imagens de satélite de áreas desmatadas na Área de Proteção Ambiental de Jamanxim antes e durante um incêndio detectado em 12 de agosto de 2020. Imagem de satélite por Planet.

Muitos incêndios este ano foram detectados no município de Novo Progresso ao longo da rodovia BR-163 – um notório corredor de desmatamento – com chamas invadindo a Floresta Nacional do Jamanxim ao leste. Os incêndios em Jamanxim se enquadram em duas categorias, disse o cientista social brasileiro, visitante habitual da região e colaborador do Mongabay, Maurício Torres. Alguns dos incêndios são feitos anualmente para manter as pastagens existentes, enquanto outros ocorrem em florestas recém derrubadas.

Algumas pastagens foram criadas antes do estabelecimento da Floresta Nacional de Jamanxim em 2006 e, portanto, são legais. Mas muitos foram criados depois disso dentro de seus limites e são ilegais. Os incêndios ocorrem anualmente nas pastagens da Amazônia para controlar pragas e ervas daninhas e para encorajar o novo crescimento da forragem para o gado. Mas, todos os incêndios em Jamanxim ocorridos desde 15 de julho são ilegais devido à proibição de incêndios de 120 dias de Bolsonaro.

Um incêndio ilegal ao sul de Novo Progresso detectado em 14 de agosto de 2020. O tipo de incêndio da imagem, em terras privadas, é mais comum do que os que ocorrem em áreas protegidas.

“E por que eles desmatam lá e não em outras áreas protegidas?” Torres pergunta. “Porque o governo há muitos anos indica que está pensando em reduzir o tamanho dessa FLONA [Floresta Nacional]. Então, os grileiros estão correndo para lá, acreditando que em breve conseguirão vender legalmente os terrenos que ocupam. E também acreditam que vão conseguir forçar o governo por meio de um dado irreversível: se não sobrou floresta, por que mantê-la como área protegida?”

Esses grileiros têm boas razões para ter esperança: na administração de Michel Temer e Bolsonaro, o governo concedeu anistias aos especuladores que invadiram unidades de conservação e, muitas vezes, usam o fogo para transformar florestas em terras agrícolas privadas.

Como o MAAP conta os incêndios

O MAAP monitora incêndios na Amazônia quase em tempo real, usando o aplicativo Amazon Fire Monitoring em tempo real para identificar áreas com elevadas emissões de aerossol, causadas por grandes quantidades de queima de biomassa. Um “grande incêndio” é definido como aquele com um índice de aerossol >1 (aparecendo de verde a vermelho no aplicativo). Assim que um alerta é detectado, o MAAP analisa as imagens de satélite de alta resolução para confirmar o incêndio. O MAAP também compara imagens de satélite ano a ano para determinar se o incêndio começou após um evento de desmatamento recente. Esta medida é diferente dos amplamente relatados “pontos quentes” de satélites, que já somam dezenas de milhares nesta estação seca, mas que incluem pastagens já existentes e áreas de cultivo que são anualmente queimadas.


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