Celebração

Jane Goodall em seus 60 anos de chimpanzés e preservação

Os estudos de Jane Goodall sobre os chimpanzés moldaram a compreensão moderna acerca destes animais — ela também fundou o Instituto Jane Goodall e o Roots & Shoots.

Pixabay
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A célebre antropóloga e conservacionista Dra. Jane Goodall — Ph.D., DBE, fundadora do Instituto Jane Goodall e mensageira da ONU da paz— tem sido fundamental para moldar a compreensão moderna acerca dos chimpanzés.

Entretanto, sua jornada tornou-se muito mais do que isso, abrangendo o ativismo de base e revolucionando a percepção científica e pública sobre os animais não humanos. Agora, aos 86 anos, ela está tão ativa quanto sempre e representa uma voz para as causas da conservação e da ação climática. Vegetariana de longa data, ela também é uma franca defensora dos jovens em todo o mundo.

Os estudos de Goodall sobre chimpanzés começaram em 1960, quando Goodall, aos 26 anos, chegou ao Parque Nacional Gombe Stream da Tanzânia. “Chegar em Gombe foi mágico”, diz Goodall. “Na verdade, chegar à África foi mágico.”

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Embora ela não tivesse educação formal na época, ela impressionou o paleoantropólogo e arqueólogo Louis Leakey com seu conhecimento sobre a vida selvagem africana. E foi Leakey quem primeiro deu a ela a oportunidade de estudar chimpanzés como pesquisadora em Gombe.

Primatologia era um campo dominado por homens à época, Goodall conta que, quando ela começou sua carreira como pesquisadora, as mulheres geralmente não eram aceitas neste meio. Porém ela ajudou a mudar isso. Seu trabalho inovador em Gombe passaria a ser amplamente divulgado pela National Geographic e desafiaria várias crenças científicas de longa data sobre o comportamento dos chimpanzés.

Jane Goodall e os chimpanzés

Depois de chegar a Gombe, Goodall conheceu e “batizou” um chimpanzé de David Greybeard (barba cinza) — também conhecido como o primeiro chimpanzé a “perder o medo” dos humanos. Greybeard foi o primeiro chimpanzé a ser documentado usando e criando ferramentas.

“[O uso de ferramentas] supostamente seria uma habilidade exclusiva dos humanos”, explica Goodall. Essa descoberta precoce trouxe a National Geographic — incluindo o fotógrafo Hugo van Lawick, que se tornou seu primeiro marido — e gerou a percepção pública de Goodall como um ícone cultural.

A cativante filmagem feita por Lawick que mostrava Greybeard criando e usando ferramentas para “pescar” cupins. Os chimpanzés utilizavam caules de grama e galhos com folhas arrancadas para capturar e comer os insetos.

“Foi a filmagem dele que deu a volta ao mundo”, diz Goodall. “Então, todos os cientistas que se recusaram a acreditar nessa jovem — por que eles deveriam se preocupar? Ela nem tinha ido à faculdade! — tiveram que acreditar, porque viram o filme.”

As observações de Goodall tiveram um enorme impacto na comunidade científica. Leakey escreveu uma frase famosa: “Devemos agora redefinir o homem, redefinir a ferramenta ou aceitar chimpanzés como humanos.”

Dar nomes os chimpanzés que ela estudou também desafiou a convenção científica. Enquanto trabalhava em seu doutorado em 1962, ela foi explicitamente informada por seus professores que ela não poderia falar sobre chimpanzés terem personalidades e outros traços “humanos”.

“À época os cientistas diziam que os chimpanzés não tinham mentes capazes de resolver problemas, e certamente também não tinham emoções”, acrescenta. “[os chimpanzés] são tão parecidos conosco que os cientistas tiveram que parar de pensar em nós como sendo completamente separados do reino animal.”

“Isso simboliza medo, dor, morte”

Apesar dos comentários de seus professores, o trabalho de Goodall com chimpanzés confirmou o que ela já sabia; que animais não humanos são capazes de pensamentos, emoções e sensibilidade. Amante de animais desde sempre, Goodall tornou-se vegetariana na década de 1970. “Para mim, o ponto de partida foi ético”,

Singer é um filósofo moral australiano com uma abordagem secular e utilitária. Seu livro, “Animal Liberation: A New Ethics for Our Treatment of Animals”(Libertação Animal: Uma nova ética para a forma que tratamos os animais), foi publicado pela primeira vez em 1975. Nele, Singer explora a capacidade dos animais não humanos de vivenciar sofrimento, particularmente dentro da agricultura industrial.

“Libertação Animal” é frequentemente citado como uma influência formativa em todo o movimento moderno dos direitos animais. O livro também popularizou o termo “especismo” para descrever a opressão humana sobre os animais não humanos.

“Até então eu não sabia sobre fazendas industriais, eu estava em Gombe e não tinha ideia de que elas existiam”, continua Goodall. “Na próxima vez que vi carne no meu prato pensei ‘ah, isso simboliza medo, dor, morte.’ E eu não comi isso nunca mais.”

“A questão é a agricultura industrial, que é tão absolutamente cruel e horrenda”, diz ela. A agricultura industrial conta com métodos intensivos e animais que vivem em espaços inóspitos e apertados. Os críticos citam a agricultura industrial como uma das formas mais difundidas e violentas de crueldade animal em todo o mundo.

De acordo com o Sentience Institute, as fazendas industriais criam cerca de 99% dos animais de criação nos EUA. Enquanto a Compassion in World Farming (Compaixão na Agropecuária Mundial) diz que 70% de todos os animais de criação no Reino Unido vêm de fazendas industriais. Em todo o mundo, a indústria da carne cria aproximadamente 70 bilhões de animais de fazenda a cada ano.

Além de causar crueldade animal, a agricultura industrial também cria carbono e polui o ar, a água e a terra. É responsável por uma extensa e variada destruição de habitats.

“Muita água é necessária para transformar vegetais em proteína animal”, acrescenta Goodall. “Então, todos esses bilhões de animais em todo o mundo produzem gás metano em sua digestão, que é um gás de efeito estufa muito agressivo.”

“Tento ser vegana agora que estou em casa”, diz Goodall, que está trabalhando no Reino Unido durante a pandemia coronavírus (COVID-19). “Eu posso ser mais ou menos totalmente vegana.”

Roots & Shoots

Uma defensora do meio ambiente dedicada, Goodall tem falado muito sobre o seu apoio às gerações mais jovens — e especialmente o ativismo climático e ambiental entre os jovens. “Comprometemos o futuro deles”, diz Goodall. “Vínhamos roubando o seu futuro e ainda continuamos roubando hoje em dia.”

Ela começou o programa Roots & Shoots (Raízes e Brotos) em 1991, “porque encontrei tantos estudantes do ensino médio e universitários que perderam a esperança”. Ela diz que os jovens que ela estava encontrando naquela época eram “deprimidos, apáticos e raivosos”.

“Pessoas diferentes têm respostas diferentes para sua própria perda da esperança. E eles me disseram que se sentiam assim porque tínhamos comprometido o futuro deles e não havia nada que pudessem fazer a respeito”, diz Goodall.” Eu disse a eles para se reunirem e escolherem projetos para tornar o mundo melhor.”

O Programa Roots & Shoots apoia jovens desde a pré-escola até o nível universitário em todo o mundo. Tem como foco fornecer projetos educacionais customizáveis para diferentes indivíduos e grupos. O programa está agora em mais de 65 países, com milhares de vertentes locais em todo o mundo.

“Decidimos que cada grupo escolheria três projetos”, explica Goodall. “Um para ajudar as pessoas, um para ajudar os animais e outro para ajudar o meio ambiente. E a mensagem principal seria que cada um de nós tem causado algum impacto todos os dias.”

O programa Roots & Shoots incentiva os participantes a encontrar problemas dentro da comunidade e agir por conta própria. Muitos ex-alunos que passaram pelo programa Roots & Shoots estão agora no mundo em várias posições proeminentes. “E eles, de alguma forma, se apegam aos valores que adquiriram quando eram membros do Roots & Shoots,” adiciona Goodall.

“Isso é o que eu amo no Roots & Shoots”, ela continua. “São os jovens escolhendo o que fazer e chegando lá e fazendo isso. Sentindo-se empoderados. E este é o caminho para parar de se sentir sem esperança.”O

Que Aconteceu Quando Todos Nós Paramos

Goodall narrou recentemente um curta-metragem baseado no livro infantil ilustrado “What Happened When We All Stopped” (2020) (O que aconteceu quando todos nós paramos – de 2020). O livro, escrito pelo autor campeão de vendas Tom Rivett-Carnac, envia uma mensagem de esperança enquanto as medidas restritivas (como o lockdown) crescem em certas partes do mundo.

Carnac tem trabalhado para combater o aquecimento global pelos últimos 20 anos. Ele é um dos arquitetos do marco do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

Seu livro incentiva conversas com jovens sobre mudanças climáticas no período de recuperação pós-pandemia. Carnac tem como objetivo capacitar e educar, mostrando às crianças que o que acontecerá a seguir é algo que elas podem influenciar.

Goodall diz que espera que o livro infantil inspire pessoas “de todas as idades” a desempenhar seu papel na cura dos danos que os humanos infligiram ao mundo natural. “Para que juntos possamos criar um novo futuro”, continua ela. “Devemos encontrar uma maneira de viver em harmonia com a natureza para que ambos possam prosperar.”

“Muitas vezes considerei estranho que a criatura mais inteligente que já andou na Terra esteja destruindo sua única casa”, acrescenta Goodall.

‘Já que você fez, eu consigo fazer também’

Como grande parte do resto do mundo, Goodall está trabalhando atualmente em casa devido ao coronavírus. Mas isso não a está atrasando. “Nunca estive tão ocupada em toda a minha vida”, diz ela. Junto com “What Happened When We All Stopped”, ela tem trabalhado em várias entrevistas e podcasts.

Recentemente, em uma teleconferência para o documentário da National Geographic “Jane Goodall: The Hope” (2020), ela discutiu a própria Covid-19. “É a nossa negligência com a natureza e o nosso desrespeito pelos animais com os quais nós devemos dividir o planeta, que causou essa pandemia”, disse Goodall na oportunidade. “Isso foi previsto há muito tempo.”

Enquanto fala com o site Livekindly, Goodall se senta em frente a estantes altas com porta-retratos apoiadas nelas. Ela segura uma foto de seu cão de infância, Rusty, para a webcam. “Uma última coisa”, ela diz. “Aqui está meu professor.” Descrevendo sua inteligência e sensibilidade, Goodall explica que a amizade de seu cãozinho foi o que primeiro moldou sua percepção sobre os animais. “Ele me ensinou que os professores estavam errados, e eu precisava dessa reafirmação.”

Junto com o que aprendeu com Rusty, Goodall diz que o apoio inabalável de sua mãe permitiu que ela seguisse a carreira que escolheu, desafiando, assim, as opiniões dominantes sobre o comportamento animal, completando seu Doutorado, e continuando seu estudo sobre os chimpanzés.

“Quando todo mundo riu da minha ideia de ir para a África, ela apenas disse: ‘bem, se você realmente quer isso, você vai ter que trabalhar muito arduamente. Aproveite cada oportunidade e, se você não desistir, talvez vá encontrar uma maneira. Foi o que eu disse às crianças de todo o mundo”, diz Goodall.

“Muitos jovens escreveram para mim ou me disseram ‘Quero agradecer porque você me ensinou que, já que você fez isso, eu poderia fazer isso também.’ O que é fantástico”, diz Goodall. “Eu gostaria que mamãe estivesse por perto para ouvir o resultado de seu trabalho.”

O trabalho de Goodall com chimpanzés e seu estudo sobre o comportamento deles ajudaram a revolucionar a percepção pública e científica acerca de outros animais não humanos, também.

“Eu ganhei a batalha e continuei falando sobre a personalidade dos chimpanzés”, diz ela. “E por causa disso, e por causa das semelhanças biológicas, significa que outros animais também puderam ser vistos de uma maneira diferente.”

No dia 14 de julho, Dia Mundial do Chimpanzé, o Instituto Jane Goodall comemora o 60º aniversário do dia em que Goodall chegou pela primeira vez no que hoje é o Parque Nacional Gombe Stream.

A partir do dia 14, o Instituto Jane Goodall está oficialmente em parceria com a One Tree Planted (Uma árvore Plantada) — a empresa de reflorestamento que mais cresce nos EUA — para se concentrar na restauração urgente em todo o oeste de Uganda. O projeto plantará mais de três milhões de árvores na região, um ecossistema diversificado e um habitat proeminente para chimpanzés ameaçados de extinção.


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