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A Viagem do Elefante

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Se alguém perguntar se o romancista português José Saramago acaso publicou algum livro com a temática dos animais, a resposta a princípio será negativa, porque seu interesse sempre esteve voltado à causa do homem. Sucede que ele, Prêmio Nobel da Literatura (1998), bem sabia e afirmava que o cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra e que uma literatura de compromisso é cada vez mais necessária, constituindo um compromisso ético. Esta introdução ao presente texto justifica-se, então, para mostrar demonstrar a sutil proximidade entre vida e arte.

Pois bem, foi em meados da década de 1990 que um elefante utilizado em circo morreu durante a temporada em São José dos Campos, provavelmente por fadiga, tendo seu corpo sido encaminhado ao aterro sanitário do município, igual coisa descartável que se usa e joga fora. Anos mais tarde veio a notícia de que dois tigres não suportaram o rigor do inverno de Campos de Jordão, porque ao término dos espetáculos circenses os bichos cativos eram mantidos em suas jaulas sob temperaturas próximas ou abaixo de zero.

Essas coisas todas nos levam a refletir, com os olhos voltados ao passado, sobre os abusos cometidos contra os animais, incluindo as espécies subjugadas nos circos. Foram propostas pelo Ministério Público em São José dos Campos, próximo à virada do século, as primeiras ações civis públicas visando a proibição dessa prática cultural que o público antes acreditava ser legítima. Muitas das iniciativas da promotoria conseguiram liminar proibitiva, outras foram julgadas improcedentes, mas o fato é que os derradeiros processos obtiveram procedência no Tribunal e as empresas, cientes disso, deixaram de vir à cidade.

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É difícil esquecer, em meio à árdua batalha jurídica que perdurou por tantos anos (1998-2006), o semblante tristonho de uma certa elefante obrigada a protagonizar cenas bizarras no picadeiro. Seu nome é Bambi. Sob ameaças veladas, traduzidas pelo estalo da chibata do adestrador, esse animal asiático era obrigado a se levantar sobre as patas traseiras, permitir montarias diversas no costado, deitar a cabeça num travesseiro no chão e perfazer outras aberrações que subvertiam por completo sua natureza. Abusos notórios que um dia, enfim, a sociedade passou a enxergar.

Elefante de muitas viagens, que percorreu longas estradas nas carretas de circo, Bambi nunca vivenciou a plena liberdade e nem teve a alegria de conviver com outros membros de sua espécie. Não conheceu a felicidade, apenas grades, ruídos, motores e estalos de chicote. Quando o uso de animais em circo já estava proibido por lei na maioria dos estados brasileiros, ela acabou apreendida administrativamente numa propriedade particular em São Paulo e levada ao zoo de Leme. Depois foi transferida para o zoo de Ribeirão Preto, onde se encontra hoje à espera de um resgate.

A história de Bambi, permeada por viagens sem fim, é a história da dor e sofrimento impostos por mais de 50 anos a um animal condenado ao entretenimento humano. Não obstante sua idade avançada, surge a oportunidade única de o animal ser levado a um lugar que mais se aproxima do ambiente natural, permeado de vegetação nativa, água límpida e abundante, com horizontes e campos abertos. Um santuário de elefantes, com assistência veterinária, alimento e liberdade. Uma real possibilidade de Bambi alcançar a merecida paz.

Coincidentemente, voltando ao premiado autor de “A Viagem do Elefante” – que tanto lutava contra a opressão e a intolerância – o fato é que José Saramago passou a incluir o sofrimento animal como tema de suas últimas crônicas. Basta lembrar que alguns textos por ele postados em seu blog (caderno.josesaramago.org) mostram a clara posição pessoal do intelectual, ele mesmo, em defesa dos animais vítimas da crueldade humana. Palavras do escritor português:

Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos.

Mais deprimentes do que esses parques, só os espetáculos de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis. Pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana.

Sob essa linha de pensamento, apesar dos riscos que a viagem derradeira de Bambi porventura possa representar ao animal, é de se concluir que mesmo assim vale a pena conceder a ela a oportunidade de experimentar uma vida digna. Será sua última viagem, a ser feita com toda cautela, carinho e assistência, mas acima de tudo será uma forma simbólica de a espécie humana se redimir do que fez, durante tanto tempo, aos animais explorados em circos. Essa viagem pela liberdade é urgente e necessária.

Em nome da justiça, precisamos dar uma chance a Bambi.


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