Lontras marinhas nos estuários da Califórnia surpreendem cientistas


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Quando Brent Hughes começou a estudar o tapete marinho de algas do Pântano Elkhorn, um estuário na Baía de Monterey na costa central da Califórnia, ele ficou surpreso com o que encontrou. Nesse estuário altamente poluído, nutrientes excessivos do escoamento agrícola estimulam o crescimento de algas nas folhas de plantas marinhas, que mata as plantas. Ainda em 2010, Hughes notou que os tapetes de algas marinhas estavam prosperando. Isso não fazia sentido.

“Esta é a concentração mais alta de nutrientes que eu já encontrei no planeta”, diz Hughes, um biólogo na Sonoma State University. “Qualquer modelo sugeria que não deveria existir nenhuma alga ali, contudo, ainda por cima, elas estavam se expandindo”.

Hughes decidiu resolver o mistério. Ele examinou todos os fatores possíveis, incluindo a qualidade da água, temperatura e mudanças na cobertura das algas marinhas através do tempo, voltando 50 anos. Não estava fazendo nenhum progresso até que foi abordado por um capitão de navio chamado Yohn Gideon, que fazia tours da vida selvagem do pântano desde 1995. Ao longo dos anos, o capitão entregava clickers aos seus passageiros, pedindo que contassem as lontras marinhas que viam.

Hughes comparou a contagem de lontras marinhas do capitão com o históricos de dados cobrindo as algas marinhas e percebeu que os gráficos estavam em quase perfeita sintonia. Quando os números de lontras marinhas aumentavam, o número de algas aumentava também. “Você não vê isso muito frequentemente na ecologia. Foi um momento de descoberta”, ele disse.

Enquanto Hughes constantemente encontrou lontras marinhas no pântano durante seus mergulhos, ele nunca prestou atenção a elas. Agora, elas estavam claramente ligadas à saúde das algas marinhas, mas como?

Espécies-chave

Lontras marinhas podem ser o menor mamífero da América do Norte, mas têm um imenso apetite. Diferente de outras espécies que dependem de uma camada de gordura para mantê-las aquecidas, lontras usam sua pelagem densa e um metabolismo acelerado para manter o calor do corpo nas águas arrepiantes do norte do pacífico. Para atingir isso, elas devem comer 25% do seu peso todos os dias, mastigando uma variedade de invertebrados marinhos, incluindo ouriços-do-mar, mariscos e caranguejos.

Quando as lontras primeiro se mudaram para o pântano nos anos de 1980, elas colocaram seu grande apetite para trabalhar comendo caranguejos. Com menos caranguejos para caçá-las, as lebres marinhas da Califórnia – uma lesma do mar – ficaram maiores e mais abundantes. As lesmas se alimentaram das algas que crescem nas plantas marinhas, deixando as folhas saudáveis e limpas.

Hughes descobriu uma cascata trófica que fez dos tapetes de plantas marinhas o mais saudável de qualquer estuário na costa oeste. Desde que as lontras chegaram no pântano, as plantas marinhas se recuperaram e cresceram mais de 600% nas últimas três décadas.

Lontras marinhas já mostraram que são capazes de ter uma grande influência no ecossistema. Nos anos 70, o biólogo James Estes estava conduzindo uma pesquisa nas Ilhas Aleutas, no Alasca, e notou algumas áreas em que o tapete marinho estava coberto por ouriços do mar. Como herbívoros, ouriços se alimentam de algas, e quando seus números não são mantidos em ordem por predadores, nenhuma alga permanece. Em contraste, nos locais em que lontras marinhas estavam presentes, as florestas de algas prosperavam. James demonstrou que, ao comerem ouriços, lontras marinhas criaram a oportunidade das algas florescerem. Elas ganharam seu título oficial de espécie-chave.

Mas a descoberta de que lontras marinhas poderiam também ser importantes agentes de estuários se tornou uma surpresa ecológica. Na verdade, cientistas nem mesmo esperavam que elas sobrevivessem no local.

Caçadas à quase extinção por comerciantes de peles nos séculos XVIII e XIX, lontras marinhas apenas sobreviveram em poucas, pequenas e isoladas populações no Pacífico Norte. Então, depois que o Tratado de Fur Sea foi assinado em 1911, esforços de conservação levaram a um aumento no número do animal. Na Califórnia, a população cresceu de 50 em 1914, a cerca de 3.000. Na costa da Colúmbia Britânica, elas foram reintroduzidas entre 1969 e 1972, e agora existem cerca de 8.100 delas.

Desde que as lontras foram recuperando as florestas de algas ao longo da costa aberta, os cientistas que estudaram os animais assumiram que esse era o seu habitat primário. Quando eles começaram a aparecer no Pântano Elkhorn nos anos 80, os cientistas pensaram que era uma anomalia, falhando em perceber que elas estavam, de fato, reocupando habitats antigos.

Registros arqueológicos e históricos indicam que as lontras eram uma vez abundantes nos estuários da Califórnia, antes de serem guiadas à extinção local através da caça excessiva. “Cientistas são sujeitos ao viés de percepção”, diz Tim Tinker um biólogo de vida selvagem na Universidade da Califórnia, Santa Cruz. “Estuários são tradicionalmente muito importante para lontras. Mas nós não realmente apreciamos eles como o suficiente. Os efeitos ecológicos das lontras na costa exterior dominaram o nosso pensamento”.

Estuários não eram nem mesmo considerados no plano de serviços de peixes e vida selvagem dos EUA para a recuperação das lontras marinhas na Califórnia, listada como ameaçada sob o Ator de Espécies Ameaçadas dos EUA.

“Em qualquer lugar que lontras marinhas vãos, eu posso garantir que mudança vai acontecer”, diz Brent Hughes, biólogo.

Agora, cientistas e gerentes de vida selvagem estão se voltando aos estuários como locais potenciais em que o número de lontras marinhas poderia crescer. Na década passada, a expansão delas na costa da Califórnia foi restringida inesperadamente pela presença dos grandes tubarões-branco que estão se recuperando da pesca excessiva e das capturas acessórias, nas bordas sul e norte da cordilheira das lontras. Mordidas de tubarão se tornaram a fonte primária da mortalidade dos pequenos mamíferos. “A população está restringida por um muro de tubarões”, diz Tinker.

Os estuários podem prover às lontras um refúgio importante de tubarões e outras condições desfavoráveis da costa, como tempestades e eventos de aquecimento. Um artigo recente sugere que a Baía de São Francisco, o maior estuário da Califórnia, pode suportar cerca de 6.000 lontras, mais do que o dobro da população atual. “Assim que estiverem completamente recuperadas, entre um quarto e um terço da população inteira na Califórnia pode ser responsável pelas lontras que vivem em estuários”, Tinker diz.

Cientistas também acreditam que lontras marinhas podem ser aliados da conservação, com seu potencial de ajudar a restaurar outros estuários poluídos na Califórnia. “É uma via de mão dupla”, Tinker diz. “Para ter uma população resiliente de lontras marinhas, podemos precisar delas em estuários, mas estuários também podem precisar de lontras marinhas”.

Ecossistemas de algas marinhas performam funções ecológicas importantes. Eles provêm habitat de berçário para peixes jovens e invertebrados, e protegem litorais de tempestades e ondas. Eles controlam erosão ao segurar e prender sedimento. O tapete marinho absorve carbono da atmosfera e enterra-o nas suas raízes, agindo como uma fossa de carbono.

A descoberta de Hughes dos impactos positivos que lontras marinhas tinham no tapete de algas marinhas do Pântano Elkhorn fez ele ponderar se os cientistas poderiam beneficiar outros lugares. Ainda trabalhando no pântano, ele observou que as lontras marinhas moveram-se para a porção de pântano salgado do estuário em 2010 e começaram a ter uma influência positiva nesse habitat frágil. Antes da chegada das lontras, numerosos caranguejos da costa listrados estavam escavando os bancos lamacentos e se alimentavam de raízes do pântano, acelerando a erosão dele. Ao comer os caranguejos, as lontras agora estão ajudando a fazer o pântano salgado saudável, desacelerando a erosão, uma descoberta que pode ser significante para pântanos salgados em outros lugares. “Pântanos salgados são um dos ecossistemas que globalmente estão num estado de declínio. Na Califórnia, perdemos 90% deles”, fala Hughes.

No sul-oeste do Alasca e da Colúmbia Britânica, cientistas estão estudando outras formas que lontras podem ser benéficas aos tapetes de algas marinhas. “A qualquer lugar que lontras marinhas vão, eu posso garantir que mudança vai acontecer”, Hughes diz.

Mas as influências a longo prazo desses engenheiros peludos de ecossistema ainda não é completamente entendida.

Por exemplo, quando tais animais procuram por mexilhões para comer, eles cavam nos tapetes marinhos, deixando buracos para trás. “Quando você está assistindo lontras cavando por mexilhões, pode ver uma nuvem de sedimento subir à superfície”, diz Eric Foster, um ecologista marinho estudando as interações entre lontras e o tapete marinho no Instituto Hakai na Colúmbia Britânica.

“Parece com uma paisagem bombardeada quando você passa por um novo local que foi recentemente cavado”, adiciona Margot Hessing-Lewis, também uma ecologista marinha com o Instituto Hakai.

Eric e Margot estão investigando a possibilidade de que quando lontras marinhas disturbam o sedimento, elas estariam ajudando as flores de alga marinha mais frequentemente, potencialmente elevando a diversidade genética das plantas.

Como cientistas estão ainda aprendendo sobre o impacto completo de lontras marinhas em habitats diferentes, eles ponderam sobre ajudar no crescimento da população, especialmente na Califórnia, em que a predação de tubarões está dificultando o processo delas se expandirem para novas áreas. O Pântano Elkhorn foi o primeiro estuário na Califórnia recolonizado por lontras marinhas, um processo que foi grandemente acelerado pela soltura no pântano de 37 lontras que foram resgatadas e reabilitadas pelo Monterey Bay Aquarium nos anos 2000.

Futuras solturas desses mamíferos podem ser estrategicamente usadas para ajudar as populações de lontras marinhas a se expandirem em outros habitats históricos, apesar de que nem sempre sem risco. Lontras podem ser expostas a ameaças de choques com barcos, derramamento de óleo, distúrbio humana, e contaminação por poluentes químicos.

O retorno desse predador ápice também vêm a um custo aos humanos, uma vez que lontras marinhas competem diretamente com a pesca de moluscos, que se desenvolveu com sua ausência. Um estudo recente que analisou os custos e benefícios ligados à reintrodução de lontras marinhas na costa oeste da Ilha de Vancouver na Colúmbia Britânica achou que os benefícios – incluindo o aumento das populações de peixes, sequestros de carbono e ecoturismo – superaram as perdas para a pesca de invertebrados em sete vezes.

Contudo, os benefícios não são sentidos igualmente, especialmente entre comunidades indígenas que dependem da pesca de mariscos para sua segurança alimentar.

“A recuperação de lontras marinhas é diferente da recuperação de qualquer outra espécie, porque elas têm efeitos desproporcionalmente grandes no ecossistema”, diz Tinker. “Para espécies mais esgotadas, você está apenas preocupado com a sua conservação, mas com as lontras marinhas, você está pensando em como o ecossistema inteiro irá mudar quando elas se recuperarem”.


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