‘Eles sentem, é triste’, diz ativista sobre depressão em animais abandonados


Doddy espera por uma família há seis longos anos (Reprodução)

Os maus-tratos visíveis em animais abandonados, resultantes da alimentação precária e das péssimas condições em que vivem, não são as únicas consequências do abandono. Os atropelamentos, as doenças, a fome, a sede, também não são. Embora muitos não se atentem a essa realidade, os animais têm a saúde mental prejudicada pelas ações cruéis dos humanos.

Deixados nas ruas à própria sorte, eles sentem falta daqueles que os abandonaram. Isso porque, ao contrário dos antigos tutores, os animais amam verdadeiramente e não esquecem de suas famílias, mesmo após serem abandonados. O resultado disso é um estado depressivo.

Ativista pelos direitos animais, Mário Rangel presenciou alguns casos e fala com propriedade: os animais “sabem e sentem” que foram abandonados. Em entrevista exclusiva à ANDA, ele fez um alerta sobre a depressão em animais e um apelo em prol da adoção. Confira abaixo na íntegra.

ANDA: Desde quando você auxilia animais em situação de vulnerabilidade?

Mário Rangel: Fui criado pela minha avó e ela era protetora de animais e vegetariana. Desde então, amo animais. Tínhamos 17 cães e 17 gatos, fui criado nesse meio. Quando minha avó faleceu, intensificou-se ainda mais meu amor pelos animais. Até que tive uma namorada que queria adotar uma cadelinha e minha tia me apresentou a Toca do Bicho. Adotei para ela uma cachorrinha que havia sido estuprada. Fiquei muito amigo da Amanda Daiha, que é a presidente da ONG, e pedi pra ser voluntário para continuar lutando pelos animais. Em seguida, me tornei vegetariano. Quando minha avó morreu, decidi que lutaria pelos animais até o fim. Sempre os amei muito porque fui criado e ensinado assim, minha avó sempre me ensinou a defender os animais.

ANDA: Nestes anos todos de dedicação aos animais, quais casos de animais abandonados que você presenciou que te marcaram?

Mário Rangel: O caso de um gatinho que me chamaram para resgatar dentro da comunidade, o Tofu. Eu subi e ele estava dentro do bueiro, quase morto. Liguei para Amanda e ela conseguiu chamar os bombeiros porque ele estava bem lá dentro do bueiro mesmo e foi preciso a equipe para retirar. Ele chegou quase morto ao veterinário, eu me apaixonei muito por ele e decidi adotá-lo. Mas após uma semana de muita luta contra a hipotermia, a bicheira e a desnutrição, ele não resistiu. Acabou comigo!

Guerreiro recebeu esse nome após ser encontrado com uma orelha decepada (Reprodução)

E teve um caso recente do abrigo. A voluntária Amanda Pieranti recebeu um pedido desesperado de resgate para esse cachorrinho em Manguinhos. Ele estava há dias andando por todos os lados, todo torto, com a orelha decepada, tentando entrar nas casas, mas as pessoas expulsavam. Exausto, ele entrou numa casa, debaixo da escada da moradora, e ela colocou água, comida e implorou por resgate. Então, a voluntária falou com a dona da ONG, que chamou um táxi dog para buscá-lo. Ele estava tão mal, sem a orelha, dava até para ver uma parte do cérebro, conforme a voluntária nos contou. Um caso horrível. Demos a ele o nome de Guerreiro. Os moradores disseram que ele foi abandonado pelo antigo tutor e ficou vulnerável a brigas com outros cães na rua.

E tem o Doddy. Ele tinha um tutor, que era idoso e morreu. Como ninguém o quis, ele veio parar no abrigo. Por duas vezes, ele quase foi adotado. Mas as famílias desistiram. Ele ficou muito deprimido. Já está no abrigo há seis anos e precisa muito de um lar.

ANDA: Os animais resgatados de maus-tratos e do abandono são encontrados nas piores condições de saúde possíveis, mas o estado físico deles não é a única coisa a ser considerada. Como você observa o psicológico desses animais? Como eles se comportam emocionalmente falando?

Mário Rangel: Eles costumam vir bem acuados e com medo de sofrer agressões. Vão aos poucos permitindo afeto. São muito assustados, geralmente se encolhem de medo e ficam escondidos debaixo das mesas, no cantinho.

ANDA: Nas ruas, eles vivenciam muitos traumas. Você acredita que a separação dos tutores, que os abandonaram, é um desses traumas? Você nota que eles ficam deprimidos e demonstram sentir saudade de quem os abandonou?

Mário Rangel: Sim, eles ficam muito tristes, se sentem abandonados, por isso demora um pouco até eles aceitarem uma demonstração de afeto, porque sentem medo. O Tigrão quando foi devolvido ficou muito triste, só ficava escondido e não queria comer. Tive uma gata que os pelos começaram a cair após a morte da minha avó. Eles sentem e sabem, é muito triste.

ANDA: Como é o processo de reabilitação dos animais? O que a ONG faz para que eles saiam desse estado depressivo?

Mário Rangel: A dona da ONG é muito carinhosa, dá afeto, o filho dela também, os voluntários brincam, fazem aproximação. No abrigo, tem adestrador que faz atividades e socializa os animais. Mas de fato o amor é o principal.

ANDA: E qual a importância da adoção neste processo de reconstrução da saúde mental do animal?

Mário Rangel: Uma casa onde a atenção acaba sendo mais exclusiva para o animal é muito importante. Um abrigo, apesar de cuidar bem dos animais, deve ser um local de passagem, porque lá eles não têm a atenção que teriam em um lar fixo.

Deprimido e com medo, cão resgatado pela Toca do Bicho se encolheu em um canto após o resgate (Reprodução)

Quando um cachorrinho ou gatinho é adotado por uma boa família, ele aos poucos vai recuperando a confiança no ser humano. No novo lar, ele recebe mais atenção, mais carinho, e acaba confiando novamente.

Mas é importante explicar que nem sempre isso é imediato. Muitas vezes, um cão que já foi abandonado passa no abrigo e é adotado de novo, acaba ficando um pouco assustado a princípio na nova casa, isso é normal, é um novo ambiente, mas com paciência e calma, com o passar do tempo ele se adapta.

Como adotar?

Em todo o país, ONGs de proteção animal disponibilizam animais para adoção. Tantos outros podem ser retirados das ruas e levados para as casas dos novos tutores após uma ida ao veterinário. Municípios que dispõem de um Centro de Controle de Zoonoses (CZZ) também doam animais.

No Rio de Janeiro, a ONG na qual o ativista Mário Rangel é voluntário também tem animais à procura de lares. Para adotar um animal resgatado pela Toca do Bicho, basta acessar as redes sociais da entidade. “No Facebook e no Instagram, o interessado em adotar vai falar com uma voluntária que vai explicar exatamente como preencher os requisitos para adoção”, disse Rangel.

A associação também arrecada doações para se manter. Com a pandemia, as dificuldades aumentaram e, por isso, a colaboração da sociedade é essencial. Nas publicações feitas nas redes sociais da ONG é possível encontrar os dados bancários da Toca do Bicho. Moradores da cidade de Itaboraí, onde o abrigo está localizado, e de outras localidades da região também podem fazer as doações presencialmente.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.



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