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Privados da liberdade, milhares de papagaios são traficados todos os anos

Pixabay

Milhares de papagaios são vítimas do tráfico de animais todos os anos. Filhotes e ovos são retirados do Cerrado brasileiro por traficantes entre agosto e novembro – período em que a espécie se reproduz.

Denominados papagaios-verdadeiros, esses animais são classificados como “espécie quase ameaçada” pela Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês).

De acordo com a pesquisadora e coordenadora do Projeto Papagaio-verdadeiro, Gláucia Helena Fernandes Seixas, a classificação indica o risco ao qual esses animais estão expostos. “Esta categoria é atribuída às espécies que estão próximas ou apresentam grande probabilidade de chegarem ao status de ‘ameaçada de extinção'”, explicou Gláucia ao site da Mongabay Brasil.

Na luta contra o tráfico de papagaios-verdadeiros há 18 anos, o presidente da ONG SOS Fauna, Marcelo Pavlenco Rocha, relatou que “pelo menos para a Região Metropolitana de São Paulo, certamente mais de 12 mil filhotes entram anualmente para atender o comércio ilegal”.

Gláucia lembrou ainda que mais de 11 mil filhotes foram encaminhados ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras) do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) após resgates realizados no estado nos últimos 32 anos.

“Considerando que muitos filhotes morrem nas diferentes fases desse ato ilegal, que envolve a captura nos ninhos, a manutenção em recipientes insalubres e o transporte inadequado, e que a fiscalização não consegue interceptar a maioria dos filhotes pegos ilegalmente na natureza, estima-se que os animais que chegam aos centros de triagem representam apenas uma pequena parcela do total de papagaios-verdadeiros retirados da natureza”, reforçou a pesquisadora.

A espécie integra o Plano de Ação Nacional para Conservação dos Papagaios (PAN Papagaios) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e é a mais traficada entre as seis espécies incluías no PAN. Segundo Gláucia, o papagaio-verdadeiro também é o mais traficado entre as 12 espécies de papagaios nativos do Brasil.

“Isso se deve a sua fama de ‘melhor falador’ quando comparada às demais espécies, característica que gerou a sua denominação como papagaio-verdadeiro”, explicou.

Além do tráfico, os papagaios sofrem também com a destruição do habitat e com a caça, praticada por agricultores que não compreendem que as aves comem suas plantações porque precisam se alimentar.

Foto: Fabiano Rocha/9-10-2008

Esses animais vivem também na Caatinga, no Pantanal e na Mata Atlântica, nos estados do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. A espécie também pode ser encontrada em regiões da Bolívia e do Paraguai. No Brasil, no entanto, o Cerrado é o epicentro do tráfico.

O Mato Grosso do Sul é o estado que considera o tráfico de animais um de seus maiores problemas ambientais. Segundo o site da Mongabay Brasil, o crime também é praticado no Mato Grosso, em Goiás, no Tocantins, em Minas Gerais, no Maranhão, no sul do Piauí e no oeste da Bahia.

E foi justamente a ação de traficantes no Mato Grosso do Sul que levou Gláucia a fundar, em 1997, o Projeto Papagaio-verdadeiro, hoje executado pelo Parque das Aves em parceria com a Fundação Neotrópica do Brasil. Com seus estudos, a pesquisadora descobriu que as aves botam os ovos em agosto e que os nascimentos ocorrem em setembro. Os voos dos animais jovens é registrado em novembro.

Cientes desse ciclo bem definido e sabendo que os papagaios buscam as mesmas árvores para fazer ninhos, os traficantes se planejam. No Mato Grosso do Sul, os criminosos viajam para a divisa do estado com São Paulo e Paraná e acertam os valores dos filhotes com proprietários e trabalhadores rurais. Essa atividade criminosa é realizada de maneira mais frequente nas cidades de Jateí, Batayporã, Bataguassu, Ivinhema, Novo Horizonte do Sul, Anaurilândia, Santa Rita do Pardo, Nova Andradina, Brasilândia, Naviraí e Mundo Novo.

Cada filhote rende lucro de R$ 25 a R$ 40 para aqueles que os capturam, segundo Marcelo Pavlenco Rocha. O valor, no entanto, pode chegar a R$ 60, reforçou o tenente-coronel Ednilson Paulino Queiroz, do Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Mato Grosso do Sul. Após serem escondidas nas propriedades, as aves viajam por horas em caixas, amontoadas, com pouca ventilação e água, dentro de veículos pequenos.

Informações concedidas por Queiroz e Rocha ao site da Mongabay Brasil indicam que essas aves são levadas para a Região Metropolitana de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. No estado de São Paulo, são vendidas em feiras de rua por valores que vão de R$ 200 a R$ 450.

No caso dos ovos, o tráfico se destina a abastecer, em geral, o mercado internacional, já que, após o nascimento, os filhotes exigem cuidados e fazem barulho, podendo ser descobertos mais facilmente.

Pixabay

No Mato Grosso do Sul, apenas 25 dos 330 agentes da Polícia Militar Ambiental atuam no combate ao tráfico de filhotes. Eles orientam moradores a não se envolverem com a prática, fazem patrulha em regiões em que é possível ter acesso a ninhos, realizam bloqueios em estrada rurais e usam um banco de dados para monitorar moradores que já trabalharam para traficantes.

“Ainda alertamos os policiais rodoviários federais e as unidades da Polícia Militar de área, que têm sido fundamentais nesse período. Enquanto os policiais ambientais fazem o trabalho para evitar a retirada dos ninhos, a PM local tem conseguido resgatar aqueles que não conseguimos evitar a retirada”, explicou Queiroz.

Rocha critica a ineficácia da fiscalização da maneira como é realizada no Cerrado e reforça que a situação tem piorado. “Nada mudou. Pelo contrário, nos últimos seis ou sete anos só vem piorando”, disse. O problema, segundo ele, é a falta de articulação entre os órgãos públicos e a ausência de instituições da sociedade civil nas ações – as ONGs não são chamadas para participar.

“É preciso elaborar um protocolo de procedimentos que irá variar de estado para estado, além do que o poder público sozinho não tem força para isso devido às várias linhas de pensamento dentro de cada instituição”, afirmou.

Gláucia concorda que é preciso ampliar as ações de fiscalização. “Porém, é importante que se mantenham, ano após ano, no período de maior intensidade de reprodução da espécie, em toda a extensão do Cerrado e Mata Atlântica do estado. Assim, de forma contínua e eficaz, é possível ter resultados positivos em médio e longo prazos”, reiterou.

Para Queiroz, é fundamental que a punição para o crime seja mais rigorosa. Atualmente, o tráfico de animais é punido com detenção de até um ano. Por ser considerado delito de menor potencial ofensivo, os traficantes costumam responder pelo crime em liberdade.

“Para se ter ideia, houve traficante que prendemos três vezes no mesmo período reprodutivo”, reforçou Queiroz.

O tráfico, porém, não impacta a espécie negativamente apenas através da retirada de animais da natureza, mas também ao danificar as árvores nas quais os papagaios fazem ninhos. “O resultado disso tudo é que muitas populações naturais de papagaios-verdadeiros podem estar diminuindo ou envelhecendo”, explicou Gláucia. Essa realidade trágica pode levar a um desequilíbrio nos ecossistemas.

Além disso, doenças típicas dos papagaios podem ser transmitidas a humanos, como a psitacose, que pode causar pneumonia nas pessoas e matá-las. Com a chegada do coronavírus ao Brasil, que teve origem em um mercado de animais na China, especialistas reforçaram o alerta sobre a relação entre a destruição da natureza e a captura de animais silvestres com o aumento no número de doenças humanas antes desconhecidas, inclusive pandêmicas.

Aprisionar papagaios em cativeiro para tratá-los como animais domésticos é uma prática que se iniciou com a chegada dos portugueses ao Brasil, no século 16. Gerente de Campanhas de Vida Silvestre da ONG Proteção Animal Mundial, o biólogo Maurício Forlani explicou que o comércio legalizado não impede o tráfico.

Foto: Reprodução/TV Globo

Produzido pela entidade, o relatório “Crueldade à Venda – O problema da criação de animais silvestres como pet”, lançado em 2019, mostrou que 74 dos 246 criadouros de aves nativas do país vendem os papagaios-verdadeiros, o que não reduziu em nada o tráfico da espécie, a mais traficada no Brasil entre 1998 e 2018, segundo estudo citado no relatório.

“A redução da demanda por animais silvestres é sem dúvida uma das maiores forças contra o tráfico”, afirmou Forlani, que é defensor não só do fim do tráfico, mas também do comércio legalizado, feito por criadores que condenam animais a viver em cativeiro desde o nascimento, sem nunca poder conhecer a natureza e bater suas asas em liberdade, desfrutando da imensidão do céu.

Para o especialista, é necessário conscientizar a população para que se entenda que gostar de animais não significa ter a posse deles. “Não vejo a repressão de forma isolada como um meio efetivo no combate ao tráfico de papagaios, mesmo que sejam feitos os avanços necessários na legislação. Temos que diminuir a demanda por papagaios silvestres e investir em programas que tragam a população para desfrutar da natureza no ambiente natural”, disse.

O argumento de Forlani é corroborado por Gláucia, que defende ações de conscientização nas comunidades locais onde o tráfico é realizado e a mobilização da sociedade para que as pessoas deixem de comprar papagaios.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


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