Estudo

Milhões de animais são traficados no Brasil todos os anos

Dados de baixa qualidade significam que o problema não é suficientemente levado a sério, alertam os autores do relatório

Pixabay
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Milhões de animais silvestres são traficados internamente e para fora do Brasil todos os anos, segundo um novo relatório, além disso, os autores do documento alertam que a falta de dados de boa qualidade significa que o comércio ilegal de animais silvestres do país não é suficiente levado a sério, gerando graves consequências para a biodiversidade.

“A informação está muito dispersa”, disse a autora principal do relatório, Sandra Charity, consultora de biodiversidade que escreveu o estudo de 140 páginas junto com Juliana Ferreira, da Freeland Brasil, um grupo sem fins lucrativos que combate o comércio ilegal.
O documento produzido pela Traffic, rede de monitoramento do comércio de animais silvestres, pediu que fosse elaborada uma estratégia nacional para combater este ramo de negócios tão lucrativo.

O vírus da Covid-19, uma doença zoonótica que os cientistas acreditam ter sido passado para humanos a partir de morcegos, mostra o quão importante é o controle do tráfico animal, disse Ferreira. “Há um sério risco de pandemias”, disse ela. “Chegamos a um ponto de inflexão na forma como lidamos com animais silvestres.”

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Um agente do órgão ambiental (Ibama) disse que recebeu 72 mil animais silvestres de todo o Brasil em 2018, segundo o relatório, no entanto, os dados variam e as forças policiais têm seus próprios números. Os traficantes têm uma sensação de impunidade porque “a legislação existente não considera o tráfico de animais silvestres um ‘crime grave’, tendo penas leves que não agem como um desincentivo”, disse.

O Brasil abriga 60% do bioma Amazônico e 13% da vida animal e vegetal do mundo, com 117 mil espécies animais e 46 mil espécies de plantas. Por outro lado, em 2018, o país também apresentava um total de 1.173 espécies ameaçadas de extinção, de acordo com o relatório, e uma das maiores ameaças a estes animas é a captura e o comércio ilegais.

Os dados sobre a Amazônia brasileira são ainda mais “notoriamente escassos”, segundo o relatório. Ovos de tartaruga e peixes de pirarucu são vendidos como alimentos ou como peixes de aquário na Ásia. A região de tríplice fronteira na Amazônia ocidental, onde o Brasil se encontra com Peru e a Colômbia é “um centro particularmente relevante” para o tráfico, disse o relatório. O The Guardian fez reportagens na região em 2018.

A Amazônia também sofre com um comércio crescente de partes de onça-pintada, exportada para a Ásia para uso na medicina tradicional, substituindo partes de tigres à medida que as populações destes felinos diminuem. “A pressão sobre estes animais está aumentando”, disse Charity.

O relatório revelou que a ave mais apreendida do Brasil é o canário-da-terra – tradicionalmente mantido como animal de estimação por muitos brasileiros. O comércio de aves está concentrado em comunidades mais pobres que vivem próximas a áreas de conservação, disse Marco Freitas, agente do órgão ambiental ICMBio que combate o comércio ilegal na reserva de Murici em Alagoas, no Nordeste do país, e também em todo o Brasil.

“É um país com muitos problemas de pobreza e corrupção e isso dificulta”, disse ele.
Seu trabalho pode ser perigoso – recentemente quando Freitas e outros agentes visitaram um homem que mantinha pássaros ilegalmente, ele puxou uma faca. “Puxei minha arma muito rapidamente e ele recuou”, disse Freitas.

Ele estava em Brasília no início de julho quando Pedro Krambeck, um estudante de veterinária de 22 anos, foi levado ao hospital após ser mordido por uma naja que mantinha ilegalmente em sua casa – e participou das operações que já conseguiram recuperar 32 cobras, muitas das quais, como a naja, não eram nativas do Brasil.

Dener Giovanini, coordenador geral da ONG brasileira Renctas, que trabalha na proteção da biodiversidade, disse que manter cobras não nativas como najas – importadas ou criadas no Brasil – tornou-se uma tendência perigosa para jovens de classe média. O comércio de animais selvagens no Brasil evoluiu para o ambiente on-line, disse ele, e a Renctas tem monitorado milhões de mensagens nas redes sociais.

“O Brasil sempre foi um fornecedor de animais silvestres para o mercado ilegal porque temos uma grande diversidade biológica”, disse. “Mas agora o Brasil está se tornando um grande importador de animais silvestres, especialmente cobras venenosas.”


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