Destruição da natureza

Desmatamento na Amazônia reduz chuvas e intensifica queimadas no Pantanal

Com o desmate, a umidade da floresta é reduzida e, com isso, os chamados "rios voadores", que levam essa umidade a outras regiões do país, inclusive ao Pantanal, são prejudicados, o que beneficia a expansão do fogo

Incêndio na cidade União do Sul, em Mato Grosso, um dos estados onde o Pantanal se situa (Foto: Amanda Perobelli / Reuters)
Incêndio na cidade União do Sul, em Mato Grosso, um dos estados onde o Pantanal se situa (Foto: Amanda Perobelli / Reuters)

O desmatamento na Amazônia não afeta exclusivamente o bioma. Além de piorar a seca no país como um todo, a devastação da floresta também intensifica as queimadas no Pantanal. O motivo é a redução das chuvas geradas pela umidade levada da região amazônica para o restante do país.

A Amazônia registrou recorde de queimadas em junho, aumento em julho e crescimento acumulado de 25% no semestre. Ao mesmo tempo, o Pantanal bateu o recorde de maior focos de incêndios florestais desde 1998 no mês de julho.

Com 50% menos chuvas no Pantanal nos primeiros meses do ano, o fogo alcançou maior destruição. Especialistas consultados pelo jornal El País apontaram a relação entre a seca e a destruição da floresta amazônica.

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“Existem muitos estudos no Brasil que mostram como a umidade que sai da Amazônia abastece outras regiões do país, no Centro Oeste, Sudeste e Sul”, explicou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

O fenômeno natural que leva umidade da Amazônia a outras regiões, gerando chuvas, é denominado “rios voadores”. “Em função de ventos alísios [que formam uma espécie de ciclo] e da cordilheira dos Andes, este rios voadores empurram a umidade da transpiração da floresta para baixo. Quando há uma estação mais seca na floresta ou um aumento do desmatamento ocorre desequilíbrio desses rios voadores e de todo o sistema hidrológico envolvido”, disse Astrini.

Analisa ambiental do Ibama, Alexandre Pereira atua no Prevfogo, programa de combate às queimadas. Ao El País, ele disse que “este ano está sendo atípico com relação às questões climáticas, com chuvas abaixo da média e temperaturas acima”. Por conta disso, o Pantanal está sofrendo uma alteração no seu regime de cheias e vazantes. “Este ano vemos uma cheia muito baixa, uma das menores desde a década de 1970, quanto o bioma viveu uma grande seca”, afirmou. Segundo Pereira, isso “um cenário perfeito para os grandes incêndios florestais”.

O especialista reforçou a influência do desmatamento na Amazônia sobre o Pantanal. “O desmatamento da floresta tem reflexo sobre a dinâmica aqui, uma vez que as chuvas provocadas pelos rios voadores regulam as cheias desta região”, explicou.

Segundo ele, já está sendo registrada uma mudança no regime de chuvas no Pantanal, com grande volume de água em poucos dias. “Este volume grande de chuva caindo em um curto espaço de tempo não permite que o solo absorva a água e alimente o lençol freático. Então ela escoa”, disse.

E praticamente todos os incêndios florestais no Pantanal registrados em 2020 foram provocados pela ação humana, conforme argumento unânime dos especialistas ouvidos pelo jornal. Isso porque as queimadas geradas por descargas elétricas necessitam de nuvens de chuva com raios, o que não tem ocorrido.

“Culturalmente no Pantanal, a exemplo do que houve em 2019, a imensa maioria delas [das queimadas] são causadas por renovação de pasto em grandes propriedades rurais”, explicou André Siqueira diretor-presidente da ECOA, ONG ambientalista.

Siqueira lembrou que o governo Bolsonaro tenta culpar pelos incêndios as comunidades ribeirinhas, socialmente vulneráveis, “como se fosse possível que sejam as roças de subsistência que estão por trás de todos estes incêndios”. O presidente do Brasil frequentemente também ataca ONGs ambientais, sem qualquer prova, num malabarismo argumentativo descabido que tenta culpabilizar pelas queimadas as entidades que lutam pela preservação da natureza.

Responsabilidade da pecuária

Um relatório publicado em junho pela organização internacional Trase estima que 81% das áreas desmatadas na Amazônia brasileira em 2018 foram ocupadas por pastos para criar bois explorados para consumo humano.

Além disso, a maior parte do desmatamento promovido pela agricultura é para a manutenção da pecuária. Isso porque de toda a proteína vegetal produzida no Brasil, somente 16% é usada na alimentação humana. Cerca de 80% é usada para alimentar os animais mortos pela indústria de carne (confira estudo aqui).

Dados divulgados pela entidade de proteção ambiental WWF mostram ainda que cerca de 79% da soja produzida no mundo é destinada à ração animal.

Além disso, a pecuária polui através do despejo de dejetos de animais na água e no solo, e das flatulências desses animais, que são de efeito estufa. Esse setor também desperdiça quantidades exorbitantes de água – recurso que, vale lembrar, não é infinito e é imprescindível para a manutenção da vida no planeta (são desperdiçados 16 mil litros de água na cadeia produtiva de um único quilo de carne, segundo levantamento da organização Water Footprint).

Sendo assim, a devastação dos biomas brasileiros está totalmente ligada à pecuária, atividade insustentável do ponto de vista ambiental e cruel da perspectiva dos direitos animais. Por essa razão, a ANDA incentiva seus leitores a conhecer e adotar o veganismo, promovendo uma mudança de hábitos com o intuito de deixar de colaborar com a matança de animais e a destruição do planeta.


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