Investigação liga a gigante indústria de carne, JBS, ao desmatamento da Amazônia

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Uma investigação do Gabinete de Jornalismo Investigativo (The Bureau of Investigative Journalism), do The Guardian e do Repórter Brasil descobriu evidências de que um motorista que trabalha para o maior frigorífico do mundo, JBS, estava envolvido no transporte de gado de uma fazenda que foi multada por destruição de florestas para outra fazenda que abastece diretamente a JBS.

Fotos da conta da rede social do motorista do caminhão parecem mostrá-lo em um comboio com o logotipo da JBS transportando gado “magro” da Fazenda Estrela do Aripuanã, uma fazenda no noroeste do estado de Mato Grosso, que já havia sido multada anteriormente por desmatamento ilegal, para outra fazenda que abastece diretamente a JBS.

A JBS disse que estava investigando o incidente; ela acrescentou que o motorista trabalhava para um “serviço de transporte independente”.

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Novas evidências parecem mostrar que um motorista que trabalha para o maior frigorífico do mundo, a JBS, estava envolvido no transporte de bois e vacas de uma fazenda que foi sancionada por desmatamento ilegal para outra fazenda que abastecida diretamente a empresa.

Fotos da conta da rede social do motorista do caminhão A. tiradas em julho de 2019 e descobertas pelo Gabinete de Jornalismo Investigativo, The Guardian e Repórter Brasil mostram ele dirigindo um veículo com o logo da JBS em um comboio pelo sul da Amazônia antes de deixar cerca de 250 bovinos. “Trabalhar com bons colegas é sempre um passeio alegre”, ele colocou como legenda de uma foto no Facebook em português.

A JBS, que fornece bois da Amazônia, possui uma receita anual de US$ 50 bilhões e mata quase 35 mil bois por dia somente no Brasil. Suas exportações de carne para a Europa continental aumentaram em um quinto nos últimos anos.

Empresas do setor no Brasil, como a JBS, Minerva e Marfrig sustentam que eles estão fazendo tudo que eles podem para garantir que a sua cadeia de suprimentos não inclua animais criados em terras desmatadas ilegalmente. Mas eles acrescentam que não conseguem monitorar fornecedores indiretos que criam gado para ser vendido a fornecedores diretos de engorda.

Embora os varejistas e produtores de alimentos do mundo tenham aceitado até agora essas garantias, eles podem enfrentar desafios diante das novas evidências.

O dono da Fazenda Estrela do Aripuanã, a fazenda onde A. disse que pegou os animais, foi multado em 2,2 milhões de reais (US$ 420.000) por destruir uma faixa da floresta amazônica em terra, naquele rancho. E o gado que ele levou, em um caminhão com o logotipo da JBS, foi levado para uma fazenda que abastece a JBS diretamente.

A JBS disse que iria investigar as descobertas e acrescentou que as evidências encontradas “não refletem seus padrões de operação”. A empresa disse que auditorias independentes mostram que nenhum gado da sua cadeia de suprimentos direta vem da floresta recém-desmatada.

A JBS começou como um açougue familiar no Brasil, mas se tornou uma das maiores indústrias frigoríficas do mundo; suas subsidiárias controlam vastas faixas de produção de frango nos EUA e no Reino Unido e sua carne é exportada para todo o mundo.

Esse crescimento teve um preço. Em 2017, a holding da JBS pagou uma das maiores multas da história corporativa global, US$ 3,2 bilhões, depois de admitir subornar centenas de políticos. Os irmãos Batista, que administraram o negócio de família de seu pai, foram investigados inúmeras vezes.

Pressão internacional

Semana passada, a Anistia Internacional liberou um relatório alegando que a JBS comprou gado ilegalmente criado na reserva indígena Uru-Eu-Wau-Wau e nas reservas extrativistas Rio Jacy- Paraná e Rio Ouro Preto, no estado de Rondônia, o epicentro dos incêndios de 2019 na Amazônia.

O desmatamento na Amazônia brasileira ultrapassou 10,000 quilômetros quadrados em 2019, o maior valor registrado desde 2008, de acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, INPE.

A JBS, como outras grandes produtoras de carne, diz que tem uma abordagem “zero tolerância” ao desmatamento ilegal e que introduziu sistemas sofisticados de monitoramento para os seus fornecedores diretos. A todo momento a empresa vem insistindo que é impossível monitorar seus fornecedores indiretos, porque não há registros disponíveis publicamente de gado movendo-se entre fazendas em diferentes estágios do processo de criação.

Existe uma pressão internacional crescente para fechar a brecha das empresas de investimento global, algumas das quais ameaçaram retirar os investimentos; grandes empresas multinacionais; nações da União Europeia e até ex-ministros brasileiros das finanças.

Críticas dizem que a situação – que afeta todas as empresas de carne que criam animais na Amazônia, incluindo os principais concorrentes da JBS, Marfrig e Minerva Foods – permite uma forma de “lavagem” na qual animais de fazendas “sujas”, ligadas ao desmatamento podem acabar sendo transportados e misturados com animais de fazendas “limpas”.

Tanto a indústria brasileira de carnes quanto seus críticos concordaram publicamente que combater a rastreabilidade do gado é fundamental para preservar a floreta.

Mas a estória do comboio de A. mostra quão rápido o gado supostamente não rastreável de fazendas diretamente ligadas ao desmatamento ilegal da Amazônia pode chegar às fazendas que alimentam a cadeia de suprimentos global da JBS.

A. e seus colegas estavam transportando animais pela floresta da Fazenda Estrela do Aripuanã, um rancho no noroeste do estado do Mato Grosso, até uma fazenda mais ao sul.

A Fazenda Estrela do Aripuanã, a primeira fazenda da qual Ale pegou o gado, é administrada por Ronaldo Venceslau Rodrigues da Cunha, um homem de negócios que cria gado e é dono de uma das maiores empresas de carne bovina do Brasil.

Sua empresa possui 102.000 bois criados e engordados em 16 fazendas que abrangem cerca de 72.000 hectares (178.000 acres) de pasto. Seu site conta a estória colorida de como o império de gado de Cunha cresceu desde um começo humilde, completo com detalhes de várias tragédias familiares e os altos e baixos do comércio.

O que o site falha em mencionar é que sua fazenda, Fazenda Estrela do Aripuanã, foi anteriormente multada em 2.2 milhões de reais por desmatamento da floresta em terra em Aripuanã. Registros publicados pela agência brasileira do meio ambiente, Ibama, mostram claramente 1,455 hectares (3,600 acres) de terras submetidas a embargo oficial- que proíbe a pastagem de animais – como resultado do desmatamento. Embargos são impostos por violações ao meio ambiente e servem tanto como punição quanto como medida protetiva para permitir que a terra se recupere.

O site também falha em mencionar que o rancho Aripuanã foi devastado por pelo menos quatro incêndios florestais separados entre 2018 e 2019.

Embora não existam evidências de que esses incêndios começaram deliberadamente para devastar mais floresta para a pastagem, eles mostram como as terras desmatadas podem ser vulneráveis a incêndios.

Viagens de três pernas

A. e seu colega, ambos motoristas da JBS, parecem ter levado o gado de Aripuanã para uma segunda fazenda também administrada por uma empresa de Cunha, Fazenda Estrela do Sangue, cerca de 300 km de distância. Sangue, diferentemente de Aripuanã, não possui embargos devido à desmatamento, então, poderia ser considerada uma fornecedora “limpa”.

Embora o post no Facebook de A. mostrasse ele fazendo essa viagem apenas uma vez, a investigação concluiu que os animais são regularmente transportado da fazenda de Aripuanã para a fazenda Sangue.

Registros da movimentação do gado mostram que de junho de 2018 a agosto de 2019, pelo menos 7,000 animais foram despachados da primeira fazenda para a segunda. Registros separados mostram que a fazenda Sangue enviou cerca de 7,000 bois para abatedores da JBS entre novembro de 2018 e novembro de 2019.

Cunha não respondeu a um pedido de comentário do Gabinete.

Embora seja impossível rastrear os exatos movimentos e destinos individuais dos bois, a regularidade da movimentação dos animais entre as fazendas – e o número considerável de animais do segundo rancho que terminam nas fábricas de carne da JBS – fornece algumas das evidências mais fortes até agora sugerindo a maneira pela qual a lavagem de animais pode ocorrer na prática.

Os repórteres encontraram evidências de que a JBS promoveu repetidamente seus próprios caminhões por transportar animais entre fornecedores indiretos e diretos. Executivos da JBS promovem as rotas como “jornadas de três pernas”: carregando gado “magro” em uma fazenda, trocando por gado engordado numa segunda e terminando a jornada num abatedouro. O post do Facebook de A. conta uma história similar, mostrando, aparentemente, ele levando bois entre duas fazendas diferentes, em pelo menos uma outra viagem.

A revelação, relatam ativistas, põe pressão em negócios ao redor do mundo para rever seus laços com a JBS se eles desejam evitar estarem ligados a preocupações em relação a destruição da Amazônia.

“Vez após outra a JBS vem sendo pega lucrando com a destruição da Amazônia” diz John Sauven, líder do Greenpeace do Reino Unido para o Bureau.

“Nós estamos agora enfrentando o colapso do clima e da natureza e a JBS detém grande responsabilidade por isso. Com produtos de carne da JBS chegando aos supermercados e restaurantes fast-foods no mundo inteiro, não pode haver desculpas. Vendedores devem parar o comércio com todas as companhias pertencentes à JBS enquanto ainda temos Amazônia suficiente para que lutaremos.”

Os animais criados e assassinados no Brasil se transformam em carne vendida no mundo inteiro.

Ano passado, um estudo da Trease, uma iniciativa de cadeias de suprimentos mantida pelo Instituto Ambiental Estocolmo e a ONG Global Canopy, revelaram que as exportações globais de carne da JBS estavam ligadas a até 300 km² de desmatamento anual no Brasil. (As exportações de duas outras gigantes das carnes, Minerva Foods e Marfrig, estavam ligados a 100 km² de floresta perdida, cada.)

A JBS disse ao Bureau que investigou as evidências e descobriu que “as fazendas de coleta não estavam em áreas sofrendo embargo”, de acordo com o sistema da companhia. A JBS afirmou que introduziu um novo sistema em 1º de julho e que “esperam ter um grande impacto na redução de ‘lavagem de animais’ … Estamos trabalhando para ter uma cadeia de suprimento completamente transparente.”

A companhia adicionou que “não compra gado de fazendas envolvidas em irregularidades” e que “tem uma abordagem inequívoca de zero desmatamento”. Um porta-voz disse: “A JBS sempre esteve na liderança de iniciativas da indústria para combater a chamada ‘lavagem de gado'”.

A JBS também afirma que suas operações de transporte garantem que “os animais são transportados de acordo com os mais altos padrões de bem estar animal” e que as suas operações “reduzem o impacto ambiental do transporte de gado ao otimizar a frota de caminhões.”

Fonte: Mongabay


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