Mudanças climáticas

Estudo mostra que apetite da China e da UE por soja impulsiona o desmatamento brasileiro

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Um estudo recente destaca como a demanda de soja brasileira pela Europa e pela China está alimentando o desmatamento, aumentando assim as emissões de carbono, especialmente no bioma Cerrado no Brasil, seguido pela floresta amazônica.

A extensão em que a produção e o comércio de soja no Brasil contribuem para a mudança climática depende, em grande parte, do local onde a soja é cultivada. A soja exportada de alguns municípios do Cerrado, por exemplo, contribui em 200 vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que a soja proveniente de outras partes do país.

A China foi o maior importador mundial de soja brasileira de 2010 a 2015 e responsável por 51% das emissões de dióxido de carbono, enquanto a União Europeia foi responsável por cerca de 30%. No entanto, as importações de soja pela UE (originárias do norte do Cerrado) estavam ligadas a um desmatamento mais recente do que as importações feitas pela China.

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O estudo é o primeiro a oferecer uma estimativa das emissões de carbono em todo o setor de soja no Brasil. Os dados obtidos pela análise de 90.000 fluxos da cadeia de suprimentos podem auxiliar os políticos a reduzir as emissões, com uma conservação mais efetiva da floresta e fazendo melhorias na infraestrutura do transporte.

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Um primeiro estudo já forneceu estimativas detalhadas das emissões de gases de efeito estufa sobre todo o setor do agronegócio produtor de soja no Brasil. O estudo, publicado na revista Global Environmental Change, descobriu que países e empresas da União Europeia e da China, importadores de soja brasileira, impulsionaram o desmatamento local, causando um aumento nas emissões de gases de efeito estufa, principalmente quando a soja veio de determinadas regiões.

Embora o desmatamento na floresta amazônica tenha atraído atenção global, uma aceleração na perda de vegetação nativa é observada no Cerrado, o bioma de savana do Brasil, e é uma das principais causas de preocupação para os pesquisadores de mudanças climáticas. Os campos do Cerrado estão sendo desmatados a uma taxa alarmante para expandir as plantações de soja – junto com as fazendas – para atender à demanda global. De fato, a soja exportada de terras recentemente desmatadas em alguns municípios da savana causou a liberação de até 200 vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que a soja proveniente de outras partes do Brasil, de acordo com o novo estudo, realizado por pesquisadores da Alemanha, em conjunto com parceiros da Espanha, Bélgica e Suécia.

As disparidades regionais extremas nas emissões de diferentes partes do país foram uma surpresa para os pesquisadores e poderiam oferecer um mapa detalhado aos governos sobre onde concentrar os esforços de redução de emissões de carbono alcançando, assim, bons resultados.

“Uma das grandes vantagens: não existe uma cadeia de suprimentos média para as exportações de soja do Brasil. Precisamos levar em conta essas [principais] diferenças regionais”, no desmatamento, infraestrutura de transporte e emissões resultantes, disse o Dr. Neus Escobar, principal autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Bonn, na Alemanha.

O novo conjunto de dados sobre a soja no Brasil também oferece informações sobre como países e empresas contribuem para as emissões de carbono através do desmatamento. As informações podem ajudar as nações e a indústria de commodities de soja a reduzir o desmatamento e as emissões, ajustando suas cadeias de suprimentos, decisões de compra e planos de redução das mudanças climáticas.

“Isso fornece informações cruciais para as partes interessadas em melhorar o desempenho ambiental”, acrescentou Escobar numa entrevista ao Mongabay. As empresas que importam soja do Cerrado agora foram alertadas de que o desmatamento está produzindo altas emissões de gases de efeito estufa, para que possam trabalhar ativamente com os produtores de soja num esforço em evitar a limpeza de novas terras para plantações no Cerrado, disse ela.

Estima-se que as emissões de gases de efeito estufa das exportações brasileiras de soja sejam de 223 milhões de toneladas de dióxido de carbono no total. A China foi o maior importador mundial de soja brasileira durante o período do estudo (2010 a 2015) e responsável por 51% das emissões de dióxido de carbono, enquanto a União Europeia foi responsável por cerca de 30%.

Mas, por unidade de soja, a pegada de carbono deixada pela Europa através importações brasileiras é maior que a da China, segundo o estudo. As importações da União Européia também tiveram maior probabilidade de causar novo desmatamento (causando emissões de carbono mais recentes), em comparação com a China.

“Esta [descoberta] é surpreendente porque a China é um importador muito maior de soja”, disse Javier Godar, co-autor do estudo e pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute, em entrevista ao Mongabay. “No fim, a Europa está importando um pouco mais de emissões de dióxido de carbono associadas [ao] desmatamento atrelado à [produção de] soja do que a China”. Isso ocorre porque grande parte da soja consumida em países da UE como Espanha e Alemanha vem do norte do Cerrado, onde as taxas atuais de desmatamento estão especialmente altas agora, explicou Godar. A China, por outro lado, importa a maior parte de sua soja brasileira do sul do Cerrado, que já converteu grande parte de sua vegetação nativa em terras cultiváveis.

“Floresta subterrânea”

Lucia von Reusner, diretora de campanha da Mighty Earth, uma ONG ambiental estadunidense, disse que o estudo é crucial para destacar os riscos de desmatamento no Cerrado brasileiro. “É uma das savanas mais biodiversas do planeta e uma grande responsabilidade para as pessoas que se preocupam com algumas das espécies mais bonitas e ameaçadas do mundo”. Além disso, “o desmatamento é um dos maiores impulsionadores das mudanças climáticas”.

A região foi apelidada de “floresta subterrânea” devido aos complexos sistemas radiculares dos arbustos e pequenas árvores, que retêm o solo e sequestram enormes quantidades de carbono, acrescentou ela em uma entrevista ao Mongabay. “Quando a indústria da soja se instala, tudo isso é rasgado e queimado. Todo o carbono armazenado nas raízes, árvores e solos é queimado e liberado na atmosfera. ”

O Cerrado, apelidado de “última fronteira agrícola do Brasil”, apresenta algumas das taxas mais altas de desmatamento da América Latina, disse von Reusner, resta apenas 50% de sua vegetação nativa. As maiores emissões de CO2 no Cerrado durante o período de estudo (2010 a 2015) ocorreram na região chamada de MATOPIBA, que inclui os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Embora o estudo não ofereça dados atuais sobre desmatamento ou emissões de carbono, o MATOPIBA continua sendo hoje uma potência do agronegócio, um centro de produção e desmatamento de soja.

Este mapa mostra as emissões totais de dióxido de carbono ligadas às exportações brasileiras de soja para diferentes regiões entre 2010 e 2015. A União Europeia importou 67,6 milhões de toneladas de emissões de gases de efeito estufa incorporadas na soja brasileira, enquanto a China importou 118,1 milhões de toneladas de emissões. Imagem cortesia de Escobar, N. et al.
Este gráfico mostra as emissões totais de dióxido de carbono vinculadas às exportações de soja do Brasil nos principais países importadores de soja de 2010 a 2015. Imagem cortesia de Escobar, N. et al.

Examinando as emissões totais de soja

O estudo é o primeiro a fornecer uma estimativa das emissões de gases de efeito estufa em todo o setor de soja no Brasil com um nível tão alto de detalhes. Para chegar a suas conclusões, os pesquisadores analisaram dados de 90.000 diferentes cadeias de fornecimento de soja entre 2010 e 2015.

A soja é a commodity agrícola mais comercializada internacionalmente no mundo; portanto, analisar dados e estratégias para reduzir seu impacto nas mudanças climáticas é crucial para governos que desejam preservar as florestas e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões.

“Este estudo faz um bom trabalho ao localizarmos, ao longo da cadeia de suprimentos, onde podemos reduzir as emissões”, disse Robert Heilmayr, cientista de sistemas terrestres da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara. Ele pesquisa o desmatamento no Brasil, mas não participou do estudo em questão.

A profundidade dos dados do artigo ajuda a destacar como o Cerrado é “uma nova fronteira no desmatamento”, acrescentou, e estabelece a importância de incluir a savana em um plano para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, em comparação com outras regiões produtoras de soja no Brasil.

Na floresta amazônica, uma moratória para a limpeza de novas terras para a soja foi lançada em 2006, o que reduziu muito a conversão de florestas tropicais em novas plantações de soja. A moratória continua funcionando, embora o desmatamento na Amazônia esteja aumentando devido à intensa criação de gado e pressões da mineração. Um estudo constatou que a desaceleração do crescimento da soja na Amazônia apenas foi alterado, o que intensificou a produção de soja no Cerrado.

A extensão da Moratória da Soja para o Cerrado, por meio do chamado Manifesto do Cerrado ou de outras iniciativas – algo que as empresas transnacionais de commodities resistiram fortemente – poderia ajudar a reduzir o desmatamento relacionado à soja no local, afirma Heilmayr e outros.

Os dados foram coletados de 90.000 cadeias de suprimentos de soja e mostram como a quantidade de gases de efeito estufa liberada na produção, processamento e exportação da soja varia entre os municípios brasileiros a cada ano. Este mapa indica as emissões de dióxido de carbono das exportações de soja em todo o Brasil entre 2010 e 2015. Imagem cortesia de Escobar, N. et al.

As complicadas cadeias de suprimentos

O desmatamento não é a única causa de emissões relacionadas à soja, explicou Escobar. O transporte de soja de áreas remotas, de produção rural, para a costa sul-americana, principalmente por caminhão, é outro fator determinante nas emissões de carbono.

Em algumas comunidades do interior na região centro-oeste do Brasil, onde a infraestrutura precária significa que a soja precisa ser transportada por longas distâncias, o transporte é responsável por cerca de 60% do total de emissões de carbono, especialmente em municípios nos estados de Goiás e Mato Grosso. Em parte, isso justificou esforços ativos para a construção de linhas ferroviárias e hidrovias industriais que conectem o interior do Brasil a seus portos costeiros – embora os ambientalistas se preocupem com o desmatamento que essa infraestrutura possa trazer.

O comércio global de produtos alimentícios agrícolas mais que dobrou entre 2000 e 2015, de US $ 600 bilhões para mais de US $ 1.300 bilhões, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Mas a maior parte da soja exportada pelo Brasil não é realmente consumida por pessoas, explicou Reusner; é usada principalmente para ração animal ou biodiesel.

Para produzir comida suficiente para a crescente população global, ela disse que as empresas transnacionais deveriam incentivar os produtores a não derrubar florestas para novas plantações, mas plantar soja em terras que já foram degradadas. Estudos têm mostrado que o Brasil possui uma grande quantidade de terras degradadas as quais atendem as demandas globais de commodities, sem causar nenhum novo desmatamento.

“Há terra degradada suficiente na América Latina para atender às necessidades dos mercados globais e evitar comprometer alguns dos nossos últimos ecossistemas remanescentes”, disse ela.

Citações:

Escobar, Neus, Tizado, E.J., Ermgassen, E., Löfgren, P., Börner, Godar, J. (2020) Spatially-explicit footprints of agricultural commodities: Mapping carbon emissions embodied in Brazil’s soy exports. Global Environmental Change, 62, 102067. Doi: https://doi.org/10.1016/j.gloenvcha.2020.102067


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