Dados alarmantes

Amazônia registra em junho o maior desmatamento dos últimos 5 anos

Em um mês, uma área equivalente ao município de Belém (PA) foi desmatada, garantindo mais um marco negativo para o presidente Jair Bolsonaro, que permanece inerte diante da destruição da floresta

Foto: BRUNO KELLY / Agência O Globo/27-7-2017
Foto: BRUNO KELLY / Agência O Globo/27-7-2017

A inércia do presidente Jair Bolsonaro garantiu um novo recorde negativo ao governo: em junho, a Amazônia registrou o maior desmatamento dos últimos cinco anos. Por 14 meses consecutivos houve aumento na devastação ambiental do bioma. Os dados são do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram 1.034,4 km² destruídos no mês de junho de 2020, ante 934,81 km² no ano anterior – 10,65% de crescimento.

Em um mês, uma área equivalente ao município de Belém (PA) foi desmatada. Entre agosto de 2019 a junho de 2020, 7.566 km² foram desmatados. No período anterior – de agosto de 2018 a junho de 2019 -, foram 4.589 km², o que representa 65% de aumento.

Os crimes ambientais cometidos no primeiro semestre de 2020 causaram a destruição de mais de 3 mil km² de florestas. O tamanho do desmate equivale a duas vezes a dimensão do município de São Paulo, segundo informações do Estadão.

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Em maio, Bolsonaro deu início à Operação Verde Brasil 2 através de uma nova Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Fiscais do Ibama foram subordinados aos militares nas ações de fiscalização – o que foi criticado por ambientalistas por conta da retirada de autonomia do órgão. Além disso, conforme revelou o Estadão, dos R$ 60 milhões previstos para uso nessas ações, apenas 0,7% foi utilizado.

As queimadas também aumentaram. Em junho, o número de focos de incêndios florestais foi o mais alto registrado no mês desde 2007. Questionados pelo jornal, o Ministério da Defesa e o vice-presidente, Hamilton Mourão, não se posicionaram.

O Ministério relatou apenas ter efetuado prisões, apreensões de drogas e aplicações de multas, além de ter realizado ações de fiscalização, mas não explicou porque as queimadas e o desmatamento não estão sendo enfrentados adequadamente.

Apesar do governo alegar estar tomando medidas, fiscais do Ibama ouvidos pelo Estadão em condição de anonimato afirmaram que não há planejamento para as ações de fiscalização e que especialistas em geolocalização e inteligência não são consultados.

“É como se colocassem o craque do time na reserva numa final após marcar 3 gols na semifinal. O Exército já trabalhou em parceria com o Ibama diversas vezes, mas essa relação em que eles definem prioridades, áreas de atuação é algo inédito. O Exército tem muitos homens para executar e obedecer, mas estão longe de ter o mesmo treinamento. Os fiscais são biólogos, engenheiros florestais, agrônomos, geógrafos, engenheiros ambientais, muitos com mestrado e doutorado na área ambiental, com um conhecimento gigantesco dos biomas e suas especificidades, não militares que, teoricamente, são formados para uma guerra”, disse um fiscal.

“O Ibama tem um centro especializado em sensoriamento remoto, tem um canal de comunicação estabelecido com o Inpe, tem setores de inteligência e de denúncias que coletam informações diariamente, sistemas de controle de produção e comércio de madeira, trabalha há 30 anos na floresta no combate à ilícitos e reúne todo ano os fiscais para planejar o combate do próximo ano (o PNAPA – Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental). Todas operações do Ibama levam em consideração esses fatores, elencando as regiões onde o desmatamento está ocorrendo agora e os alvos identificados, priorizando eficácia e a eficiência. Um fiscal sai de seu escritório e, literalmente, atravessa o Brasil, com objetivos determinados e em campo só são feitas pequenas adaptações. Na GLO nada disso é levado em consideração”, afirmou outro.

“Estão trocando o pneu com o carro em movimento. Existe um esforço em articular a troca de informações, mas algo sem planejamento e desorganizado, pois a movimentação só foi feita após o decreto. Temos homens no campo esperando instruções e ‘voos de reconhecimento’ para encontrar algo, um gasto absurdo. Ao mesmo tempo, usam os dados positivos das operações comandadas pelo Ibama (dentro do planejamento da instituição) para inflar os números da caríssima GLO, como já foi feito no combate de incêndios do ano passado. O importante para a GLO é o controle da narrativa, mesmo que os fatos mostrem o contrário”, continuou. Uma reportagem publicada pelo Estadão confirmou que os dados da Operação Verde Brasil 2 foram inflados.

Segundo os fiscais, tiveram casos em que se optou por embargar madeireiras ao invés de combater o desmatamento em curso. O uso de helicópteros pelos militares também servem de alerta aos criminosos, que fogem. “Madeireira seria interessante fazer, mas o Exército sobrevoou a cidade uma semana antes das ações. Quando chegamos, as toras estavam espalhadas nas vizinhanças. O Ibama não usa helicóptero para operações surpresas há muito tempo. Não é efetivo”, disse um terceiro fiscal.

“O que a gente escuta é que a presença dos militares está mais gerando confusão do que ajudando no combate. Tem toda uma questão de inteligência de monitoramento, de comando e controle, que são os órgãos ambientais que fazem. Quando a liderança passa para o Exército, isso está gerando uma inoperância, uma falta de efetividade, que refletem nos números de desmatamento e queimadas”, afirmou ao Estadão Edegar Rosa, diretor do WWF-Brasil para Conservação e Restauração.

“Quando se olha todo o contexto, as falas desde o começo do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, questionando terras indígenas, promovendo o garimpo, desmontando a fiscalização. Na reunião ministerial usaram a pandemia como distração para passar medidas que facilitam o impacto ambiental. Com isso tudo, não dá para acreditar nas falas do governo agora de que existe preocupação efetiva”, completou.

“O Brasil tem histórico de controlar o desmatamento. A gente já conseguiu fazer isso. Mas as falas deles ainda são de negar o problema. E os investidores veem isso”, reforçou.

O Greenpeace considera que o governo age para “esconder o problema atrás de uma cortina feita de campanha publicitária, viagens e ações de fachada”.

“Precisamos de resultados concretos, e para isso será necessário um plano robusto para conter tamanha destruição, na linha do que foi o PPCDAM (plano de combate ao desmatamento que vigorou nas últimas gestões), a começar por ações de comando e controle em caráter permanente e executadas por órgãos competentes e bem aparelhados. Este é um caminho, já conhecido, que este governo insiste em ignorar”, disse Cristiane Mazzetti, do Greenpeace, por meio de nota.


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