O que está matando os elefantes de Botsuana? Conheça as principais teorias


Imagem de elefantes em uma floresta
Pixabay

Andam em círculos e parecem zonzos antes de caírem mortos e, às vezes, caem de bruços. E ninguém sabe o porquê. Nos últimos meses, muitos elefantes morreram em Botsuana, alguns com esses sintomas.

O estranho comportamento e a grande quantidade de mortes sugere que é muito provável que doenças já conhecidas e que podem afetar os elefantes selvagens, tal como a tuberculose, podem ser as responsáveis por essas mortes. Os elefantes ainda mantinham suas presas intactas, com isso fica descartado que estariam sendo vítimas da caça e tráfico de marfim. Apesar disso, o número de vítimas continua aumentando. As autoridades de Botsuana confirmaram que 281 elefantes morreram desde março de 2020. No entanto, de acordo com as ONGs de preservação, o número de mortes é ainda maior.

“Ainda que muitos elefantes tenham morrido, isso não é tão grave para a população de elefantes. No entanto, é importante que seja feito um diagnóstico para garantir de que não se trata de crime. O que representaria um problema para a população caso não fosse combatido”, explica Marjus Hofmeyr, veterinário da fauna silvestre e ex-diretor dos serviços veterinários do Parque Nacional de Kruger.

Botsuana abriga uma população estimada de 130.000 elefantes-da-savana, representando uma das últimas fortificações da espécie na África, local em que a caça de marfim foi responsável pela diminuição das populações a apenas 350.000 elefantes. Os animais mortos em Botsuana viviam em uma área de aproximadamente 2600 quilômetros quadrados em uma região remota ao nordeste do delta do rio Okavango, onde se estima que vivem 18.000 elefantes, 16.000 pessoas e 18.000 bois.

De acordo com os veterinários e especialistas em fauna silvestre que foram entrevistados pelo National Geographic, existem diversas possíveis causas para a morte massiva desses elefantes tal como se constatou no passado, tal como ingestão de bactérias tóxicas através da água (antrax), o envenenamento por humanos, uma infecção viral transmitida pelos roedores ou por um micróbio patógeno. Também poderia ser uma combinação de causas, em que estaria implicado fatores ambientais, tal como as precipitações tardias e intensas deste ano após muitos anos de seca.

As mortes misteriosas estão sendo investigadas pelo governo da Botsuana, o qual anunciou em uma conferência de imprensa realizada no dia 10 de julho que já possui resultados preliminares sobre uma análise de um laboratório de Zimbábue, mas ainda aguardam por respostas conclusivas para poderem compartilhar com o público.

“Estamos esperando mais resultados de outro laboratório da África do Sul até o próximo final de semana. Os resultados do Canadá e Estados Unidos chegarão depois”, conforme informações fornecidas ao National Geographic pelo diretor interino, Cyril Taolo, do Departamento de Fauna Silvestre e Parques Nacionais da Botsuana.

De acordo com os especialistas, é preciso analisar amostras de cadáveres, terra e água dos locais onde os animais foram encontrados mortos imediatamente após a morte deles, com o intuito de conseguir uma explicação mais precisa. O que representa um grande desafio nessa região remota, que poderá levar dias ou semanas até encontrar o cadáver de um elefante e conseguir analisar, e que provavelmente já terá tido seu corpo decomposto e as provas fundamentais apagadas. Além do mais, os animais detritívoros também poderiam já haver comido os órgãos antes de extrair para examinar.

A seguir, explicamos as possíveis causas e sua importância:

Fome ou desidratação

Veterinário de animais silvestres, Erik Verreynne, é também o consultor que comanda o programa de pecuária na região em que ocorreram as mortes. Ele aponta que é pouco provável que os animais tenham morrido de fome ou desidratação, uma vez que as mortes massivas começaram quando os bebedouros ainda estavam cheios de água da chuva e, inclusive, na região em que esses animais moram, há muitos terrenos com vegetação em que é possível buscar comida. “A vegetação está verde e exuberante devido às chuvas deste último ano em comparação com as épocas de seca dos anos anteriores”, contou Verreynne.

Toxinas na água

As cianobactérias, algas verde-azuladas, podem ser fatais e muitos dos elefantes estavam próximos aos bebedouros ou poças de água. Apesar disso, no geral, os elefantes bebem no centro dos locais com água e não pelas bordas, locais em que as cianobactérias tendem a se acumular. Além disso, com o passar do tempo as chuvas tendem a arrastar as bactérias, o que fez com que os elefantes da região fossem morrendo ao longo de vários meses. É provável que as cianobactérias fossem as responsáveis pelas mortes massivas dos elefantes na época da pré-história. É provável que os elefantes de Botsuana adoeceram por outro motivo e talvez possam ter se sentido febris, precisaram beber água e morreram pouco depois de beber água ou pelo menos tentaram beber água. A única forma de confirmar ou descartar as cianobactérias é analisar as águas, o que já vem sendo feito, de acordo com Taolo.

Carbúnculo

Sintomas neurológicos foram identificados nas mortes repentinas dos elefantes, tal como andar em círculos, o que sugere que o carbúnculo (também conhecido com antrax) pode ser uma das possibilidades por trás dessas mortes. A bactéria que causa essa doença infecciosa (Bacillus anthracis) vive naturalmente na terra e é conhecida por infectar animais domésticos e selvagens do mundo todo. Os elefantes poderiam ter se infectado ao ingerir terra, plantas ou até águas contaminadas.

No entanto, a possibilidade do carbúnculo ter sido o causador do problema, já foi descartada pelo Departamento de Fauna Silvestre e Parques Nacionais de Botsuana, mesmo que não tivessem muitos detalhes sobre esses casos. Veterinário sul-africano, Michael Kock, que trabalhou para o governo da Botsuana nos casos de carbúnculo em elefantes nessa mesma região desde os anos noventa, afirma que os pesquisadores precisarão extrair amostrar de sangue dos animais, preferencialmente horas após a morte. Por meio de um microscópio, Kock mostrou que os micróbios de carbúnculo possuem uma forma característica, mas quando o cadáver começa a se decompor, é invadido por outras bactérias. Dessa forma, é mais difícil fazer a identificação correta.

Fora isso, caso o carbúnculo estivesse matando os elefantes, seria um problema difícil de erradicar, porque é difícil impedir a propagação de esporos, para o qual seria necessário queimar os cadáveres o antes possível, o que requer toneladas de lenha. Como as mortes aconteceram numa região remota e com poucas estradas, o acesso a todos os cadáveres seria mais um novo desafio. (O Departamento de Fauna Silvestre e Parques Nacionais já queimou alguns dos cadáveres que se encontravam próximo às comunidades, de acordo com Taolo). Mesmo que fosse aplicada uma vacina anti-carbúnculo de forma contínua no gado, tentar imunizar 18.000 elefantes não é algo realista, afirma Kock.

Envenenamento 

É possível que as pessoas que morem próximo aos elefantes possam tê-los envenenado como uma forma de represália por que esses animais podem ter comido suas colheitas, e talvez envenenando os bebedouros ou as verduras, tal como o repolho? Sim, pois quando o veneno é utilizado, geralmente cianeto, os animais mortos ficam concentrados em algumas áreas, tal como o que foi constatado. Além disso, apesar do cianeto permanecer nos cadáveres muito tempo depois da morte, não há evidências de que os animais que se alimentaram desses cadáveres de elefantes (hienas, chacal, abutre) também morreram após o consumo.

Há outros possíveis suspeitos, tal como o fluoroacetato de sódio, que, às vezes, é utilizado como pesticida e que se degrada mais depressa. Para verificar, Kock indica que será necessário analisar os fígados das vítimas, já que o fígado é o filtro natural de toxinas do corpo; além de analisar também o estômago, no qual podem ser encontrados alimentos potencialmente contaminados e que podem ser analisados. Caso seja realmente um caso de envenenamento, as autoridades necessitarão conversar com as comunidades que tiveram suas terras e cultivos danificadas pelos elefantes. Decidir a forma apropriada de administrar a relação entre humanos e elefantes é um tema conflitivo do ponto de vista político. No ano passado, o presidente Mokgweetsu Masisi proibiu a caça de elefantes, alegando que era necessário reduzir esses encontros entre humanos e elefantes, potencialmente de risco a esses animais.

Vírus de encefalomiocardite

A morte repentina precedida de sintomas neurológicos é compatível com o vírus transmitido por roedores, que causa insuficiência cardíaca. O vírus é excretado nas fezes dos roedores, com isso os elefantes correm o risco de consumir erva contaminada. A maioria dos herbívoros come as lâminas de ervas desde a parte de cima, mas os elefantes comem os vegetais por inteiro, com raízes e com fezes de roedores, explica Roy Bengis, veterinário sul-africano da fauna silvestre. No início dos anos 1990, mais de 60 elefantes morreram no parque nacional de Kruger. Bengis conta que naquela ocasião era o diretor de serviços veterinários estatais e que esse fato ocorreu após o primeiro ano de umidade após um período de seca grave, condições similares ao que ocorreu em Botsuana, quando a população de roedores aumentou muito no famoso parque sul-africano.

No entanto, não foi observada uma população de roedores acima do normal nas regiões onde os elefantes morreram em Botsuana. Segundo Kock, a espuma nas vias respiratórias dos elefantes e as evidências de danos cardíacos indicariam essa causa. O vírus também é detectável durante uma necropsia. A encefalomiocardite não foi uma prioridade no desenvolvimento de tratamentos e vacinas, com isso, mesmo que fosse apontada como a causa das mortes, os recursos para combatê-la seriam escassos.

Micróbios assassinos

As bactérias e os vírus que anteriormente não eram letais para espécies específicas, podem evoluir e passar a sê-lo, tal como aconteceu com o novo coronavírus SARS-CoV-2, que provavelmente se originou em morcegos e até o momento já matou mais de 500.000 pessoas em todo o mundo. Existem muitos coronavírus em animais, mas não há provas de que a Covid-19 seja a responsável pela morte desses animais, nem de que possam afetar os elefantes, adverte Kock.

As mudanças repentinas ou mudanças extremas no tempo, na paisagem, nos micróbios anfitriões podem provocar mudanças nos vírus e bactérias e torná-los mortais. Em 2015, cerca de 200.000 saigas morreram de septicemia em Cazaquistão, pois o calor e a umidade extrema fizeram com que uma Pasteurella baterium comum _que, em condições normais, vive em animais de forma inofensiva_ se multiplicassem e os matasse. De acordo com os veterinários, poderia ter acontecido algo parecido com os elefantes. Porém, as temperaturas da região não foram mais altas do que o normal, e as mortes estão relativamente restritas.Com isso, esta teoria é a menos provável.

“É preciso manter a mente aberta”, afirma Verreynne. Aponta que os vírus transmitidos por artrópodes, tal como os carrapatos ou mosquitos, podem ser outra possibilidade, o que nunca foi confirmado. Talvez as chuvas abundantes na região, após anos de seca, criaram uma situação ideal para o surto.

Há muitos fatores que poderiam contribuir para essas mortes em massa, tal como as mudanças climáticas. “As doenças que aparecem nos animais costumam ser um indicativo de um problema no ecossistema, com isso, descobrir a causa da morte desses elefantes, também irá auxiliar a avaliar a saúde do ecossistema”, explicou Verreynne.


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