Devastação ambiental

Desmatamento na Amazônia interfere nas chuvas e causa seca no resto do Brasil

A agropecuária é uma das principais responsáveis pelo desmatamento na Amazônia, onde árvores são levadas ao chão para dar lugar a pasto para criar bois explorados para consumo humano

Barragem de Sobradinho, maior reservatório do Nordeste, registrou o menor nível de água de seus quase 40 anos de existência (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Barragem de Sobradinho, maior reservatório do Nordeste, registrou o menor nível de água de seus quase 40 anos de existência (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Os efeitos do desmatamento na Amazônia, causado em sua maioria pela agropecuária, estão chegando ao restante do Brasil, que tem sofrido com a seca provocada pela redução nas chuvas. Nos últimos dois anos, as regiões Centro-Oeste, Sul e parte do Sudeste, incluindo o estado de São Paulo, registraram quantidades de chuva inferiores à média histórica, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

De acordo com o cientista Antonio Donato Nobre, autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, “a América do Sul está secando devido aos efeitos combinados do desmatamento e das mudanças climáticas”.

O problema ficou mais claro em 2012. “A seca começou no Nordeste e durou quase sete anos de forma muito severa. Depois, em 2014, o abastecimento de água na área metropolitana de São Paulo ficou em condições críticas. Agora, as preocupações estão voltadas para o Sul, onde há quase dois anos as chuvas estão abaixo da média”, explicou a pesquisadora Adriana Cuartas, do Cemaden, em entrevista ao portal Mongabay Brasil.

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A agricultura é a primeira a sofrer as consequências. O abastecimento de água e a geração de energia são os próximos. Reservatórios de usinas hidrelétricas – dentre eles, de Itaipu, a segunda maior do mundo -, já registram níveis baixos de armazenamento.

“A água que vem dos rios para o reservatório está abaixo do mínimo já registrado desde 1993. É uma situação bem crítica. A bacia do Itaipu não é usada só para a geração de energia, mas também para abastecimento”, alertou a pesquisadora.

E embora chuvas recentes no Sul possam melhorar a situação para a agricultura, as condições hídricas demandam tempo até voltar à normalidade. “Seria preciso chover vários meses na média, ou acima dela, para o sistema hídrico começar a se recuperar e voltar aos níveis esperados”, disse Adriana.

Uma árvore com cerca de 20 metros de copa bombeia aproximadamente 1,1 mil litros de água para a atmosfera diariamente. As massas de ar com vapor da transpiração da floresta amazônica, denominadas “rios voadores”, levam umidade até o Centro-Oeste, o Sudeste, o Sul e países vizinhos. Com o desmatamento, a umidade reduz e a seca surge.

Os reflexos desse desequilíbrio já podem ser vistos em alguns locais do país. No Paraná, foi registrada a maior estiagem desde 1997, quando as medições começaram a ser feitas pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Já ocorreram perdas na produção de milho e feijão, segundo relatório do Departamento de Economia Rural (Deral) do Governo do Estado do Paraná. Prejuízos no abastecimento de água também foram registrados, com municípios entrando em estado de emergência.

A produção de soja, feijão e milho foi impactada em Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, a colheita de grãos registrou queda de 28,7% em comparação com o ano passado. O milho registrou perda de 32%. A nova safra de arroz também foi afetada.

O pequeno produtor é um dos mais prejudicados. “O Nordeste, de alguma forma, já tem uma prática com condições de seca e estratégias de adaptação social, como as cisternas. A seca no Sul faz com que a grande produção agrícola seja afetada e isso causa prejuízos econômicos. Quando a seca afeta a agricultura familiar, há ainda o impacto social”, disse Ana Paula Cunha, pesquisadora do Cemaden.

Irrigadas pelos “rios voadores” da Amazônia, essas áreas têm sofrido sucessivas secas. “Interessa para a agricultura a coluna do meio, ou seja, o equilíbrio, a regulação climática, em que os extremos de falta ou excesso sejam moderados. E, nessa moderação, nenhuma tecnologia consegue competir com as múltiplas capacidades das florestas de promover e regular um clima amigável, seguro e produtivo”, concluiu Antonio Nobre.


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